No mundo das chitas acasalar não é fácil. Espreitámos pelo buraco da fechadura

06 Dezembro 2015248

O Zoo de Lisboa é um dos poucos a conseguir reproduzir chitas na Europa. Porque não é fácil. Elas nem sempre os querem a eles, tudo tem de ficar resolvido numa "noite" e depois cada um vai à sua vida.

O Sol já se encontrava baixo no horizonte quando Asaka e o companheiro entraram naquele território. Tinham sido poucas as vezes que o visitaram, mas não lhes era de todo estranho. Continuava a cheirar a chita, a fêmea de chita. E à medida que percorriam o espaço, os machos foram deixando as próprias marcas de urina aqui e ali, podia ser que quando as fêmeas voltassem se interessassem por estes novos odores. E assim foi. Quando Dakartas e a irmã entraram no território, há muito que os machos tinham partido, mas as marcas odoríferas continuavam frescas.

E é com este jogo de marcação de território que começa a reprodução das chitas. Na natureza, as chitas fêmeas têm territórios mais ou menos definidos e os machos, que vagueiam pelos vários espaços, vão deixando as suas marcas e procurando fêmeas com o cio. No Jardim Zoológico de Lisboa, os técnicos optaram por fazer os machos entrar na instalação das fêmeas, mas podiam ter sido elas a visitar o espaço deles.

Apesar de os machos passarem a noite na instalação das fêmeas, uns e outros não se podem ver. É que quando machos e fêmeas partilham o mesmo espaço, crescem como irmãos, e como irmãos não se reproduzem. Um comportamento muito diferente dos leões, onde o macho é mantido com o seu grupos de fêmeas, ou mesmo dos tigres, que quando sob cuidados humanos se juntam macho e fêmea na mesma instalação até haver acasalamento, explica ao Observador Rui Bernardino, veterinário no Jardim Zoológico de Lisboa.

As fêmeas voltam ao território onde as marcas deixadas pelos machos ainda se fazem sentir e esse estímulo pode fazê-las entrar em cio. Estes sinais não passam despercebidos aos machos, mas para os humanos que tomam conta destes animais podem ser mais difíceis de detetar. Especialmente quando se tem pouca experiência na reprodução das chitas.

Na tua casa ou na minha?

Ainda não são muitas as lições que os zoos podem aprender uns com os outros. “Apenas nove ou 10 entre os 100 zoos na Europa que têm chitas conseguem reproduzi-las”, diz ao Observador José Dias Ferreira, curador de mamíferos no Jardim Zoológico de Lisboa. Mesmo o Zoo de Lisboa, que tem chitas há mais de 20 anos, só o conseguiu fazer depois de criar uma instalação nova em 2010 – o Trilho das Chitas.

A instalação das chitas é na verdade um conjunto de vários espaços interligados. Fêmeas de um lado, machos do outro, com um portão entre os dois espaços que será aberto sempre que necessário, como quando os machos vão visitar a casa das fêmeas. Cada um dos lados está depois dividido em três partes: um espaço exterior à vista do público, um espaço interior onde os animais podem ser recolhidos e onde podem ser realizados alguns procedimentos médicos, e outra instalação exterior que o público não vê.

Abre porta, fecha porta, marca aqui, cheira ali, machos, fêmeas, urina e comportamentos – muitos dados a ter em consideração. Por isso, quando a equipa do Zoo tentou reproduzir as chitas em 2013 precisava de estar atenta a todos estes pormenores e ter olhos a vigiá-las 24 horas por dia. Da segunda vez, em 2015, foi mais fácil, os técnicos já estavam mais treinados e Dakartas já tinha identificado Asaka como companheiro compatível.

“[Da primeira vez] tivemos de dar formação aos tratadores, com vídeos, sobre vocalizações e comportamentos, sobre o que queríamos que visualizassem e o que era preciso fazer em termos de maneio”, explica Rui Bernardino. “Nessa altura, também demos formação a um grupo de voluntários. Porque quanto menos se sabe sobre uma espécie, mais intensiva tem de ser a observação.”

One night stand… e mais nada

Com um cio que pode durar apenas 24 horas nada pode falhar. E muito menos o momento em que macho e fêmea se encontram. Porque se esse momento correr mal podem incompatibilizar-se, alerta o veterinário.

“Quanto menos se sabe sobre uma espécie, mais intensiva tem de ser a observação.”
Rui Bernardino, veterinário no Jardim Zoológico de Lisboa

No primeiro encontro, depois de a fêmea entrar em cio, está cada um do seu lado da divisão de rede – vêem-se sem se tocarem. E no momento certo estarão juntos. Nunca antes, porque isso poderia originar uma luta e mais uma vez criar-se uma incompatibilidade entre os dois. Mas quando finalmente foram juntos, Asaka, que nunca tinha estado com um fêmea, não sabia o que fazer com Dakartas. Foi a presença de um macho do outro lado da rede, um potencial competidor, que o incentivou e o levou a consumar a cópula.

Depois, tal como na natureza, cada animal foge para seu lado. A porta é aberta, de forma rápida e a partir do exterior – e cada animal volta a ser separado no seu respetivo território. Pode até haver oportunidade para uma segunda cópula em 30 minutos ou uma hora, mas se isso não acontecer, não se voltam a ver. Pelo menos até à próxima cópula, que neste caso levou cerca de três anos.

Também as fêmeas são separadas, pelo menos desde que as crias nascem até que sejam independentes e a fêmea esteja sozinha outra vez. Daí que seja importante que nas instalações interiores os dois animais possam ficar isolados, que no caso das fêmeas significa que podem ter ninhadas ao mesmo tempo sem sofrerem nenhuma perturbação por parte da outra fêmea ou respetivas crias.

Veterinário e curador esperam que a segunda fêmea, a irmã de Dakartas, também esteja grávida, porque com os seus sete anos está a chegar à idade máxima para se reproduzir pela primeira vez. Se conseguir fazê-lo agora, tanto ela como Dakartas poderão manter-se férteis até aos 10 ou 12 anos, diz Rui Bernardino.

Mas quem será o pai das crias?

A preocupação com esta fêmea é maior porque já não é a primeira vez que aparenta estar prenha. Ela deu os devidos sinais em 2013, mas ou teve uma gravidez psicológica ou houve uma reabsorção dos fetos. Os veterinários ainda não sabem o que aconteceu, isto porque, no Zoo de Lisboa, os técnicos tentam “não ser muito interventivos”, explica Rui Bernardino. “Cada vez que estamos a intervir, estamos a interferir.” E só o fazem quando está em causa a vida de um animal.

Quem será o pai das crias da segunda fêmea? Asaka outra vez, porque o outro macho não se pode reproduzir. Sofre de um problema cardíaco que embora esteja controlado podia ser passado à descendência e os programas de reprodução tentam evitar que as doenças ou problemas genéticos sejam passados às crias.

“Cada vez que estamos a intervir, estamos a interferir.”
Rui Bernardino, veterinário no Jardim Zoológico de Lisboa

Onde colocar os animais que se vão reproduzir, que casais se devem juntar, onde serão realocadas as crias e quem vai receber os não reprodutores, os velhos e os grupos de machos, são decisões que cabem ao coordenador de cada espécie, lembra José Dias Ferreira, também ele coordenador de um programa de reprodução, o dos leopardos-da-pérsia.

Nem romance nem fidelidade eterna

As instituições que fazem parte da Associação Europeia de Zoos e Aquários respeitam uma série de regras relacionadas com o desenho das instalações, a alimentação, o maneio, o bem-estar dos animais e os programas de reprodução. Para muitas espécies existem studbooks (europeus ou internacionais) onde se registam os nascimentos, filiações, óbitos e transferências efetuadas entre zoos.

Algumas dessas espécies, como as chitas, fazem parte de Programas Europeus de Reprodução de Espécies Ameaçadas que definem que animais se devem reproduzir e com que parceiro, com o objetivo de manter populações geneticamente saudáveis. Quanto maior a diversidade genética e menor a quantidade de doenças e problemas genéticos, mais saudável a população em zoos e maiores as probabilidades de sobrevivência dos animais caso tenham de ser reintroduzidos na natureza.

As crias podem permanecer com a mãe até aos dois anos - Hugo Amaral/Observador

No caso de Dakartas e Asaka, como já tiveram 10 crias juntos, pode ser que comecem a ficar sobre-representados em zoos em termos genéticos e o coordenador pode decidir que é melhor trocarem de parceiros. De qualquer forma, todas estas crias, e todas as crias que fazem nascem ao abrigo destes planos de reprodução, já tem definido um local de destino mesmo antes de nascerem. Faz parte do trabalho do coordenador da espécie fazer esta gestão, reforça o curador de mamíferos.

O Zoo de Lisboa movimenta cerca de 50 animais todos os anos ao abrigo destes programas de conservação e reprodução das espécies. Asaka veio da República Checa, em 2007, e o outro macho tinha vindo três anos antes, também da República Checa, mas de outro zoo. As fêmeas vieram da Alemanha, mas chegaram mais tarde, em 2011, quando as novas instalações já estavam prontas.

Agora resta-nos ver os filhos de Dakartas crescer, cheios de energia e de pelo eriçado, e esperar que terminem os 95 dias de gestação para ver se a irmã também cria a sua própria ninhada.

Texto de Vera Novais, fotografia de Hugo Amaral, vídeo de Miguel Soares.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros de órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: vnovais@observador.pt

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)