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Andrew Cuomo é governador desde 2011. Pretendia um quarto mandato em 2022, mas as acusações de assédio sexual devem ditar o seu fim político

Pacific Press/LightRocket via Ge

Andrew Cuomo é governador desde 2011. Pretendia um quarto mandato em 2022, mas as acusações de assédio sexual devem ditar o seu fim político

Pacific Press/LightRocket via Ge

Os relatos de assédio sexual que deixaram Andrew Cuomo politicamente isolado. O que se segue para o governador à beira do impeachment? /premium

Vítimas denunciam comentários sexuais mas também toques sem consentimento, como beijos e apalpões. Cuomo tenta resistir, mas está sem aliados. Todos os cenários apontam para o seu fim político.

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Foi numa conferência de imprensa, em 2017, que Andrew Cuomo conheceu a mulher que, no relatório da procuradora-geral de Nova Iorque, é identificada apenas como “polícia n.º1”. Era ela quem estava a fazer segurança quando o governador nova-iorquino se dirigiu aos jornalistas para falar sobre o atentado terrorista em Manhattan, que tinha acontecido dias antes (31 de outubro) e que causou a morte de oito pessoas. No final da conferência de imprensa, Cuomo e a “polícia n.º1” ficaram vários minutos à conversa, e pouco tardou até que um membro da equipa de segurança de Cuomo abordasse a polícia, na casa dos 20 anos, para a contratar.

Havia, no entanto, um impedimento. A “polícia n.º1” só tinha dois anos de experiência e, para integrar a equipa de proteção do governador de Nova Iorque, eram necessários três. Mas isso não foi problema, e no dia 17 de novembro de 2017, a mulher recebeu um e-mail a dizer que o problema estava resolvido: “Ha ha, eles mudaram a idade mínima de três para dois anos. Apenas para ti.”

Cuomo pôs o dedo no pescoço da polícia e foi descendo até meio das costas. Noutro episódio terá beijado a polícia no pescoço, tendo ainda feito comentários sobre a sua vida sexual e amorosa, tendo chegado a dizer que era “demasiado velha” para si e sugerido que trabalhasse de vestido

E assim foi. A “polícia n.º1” foi contratada para a equipa de segurança de Andrew Cuomo no início de 2018, e, pouco depois, começaram os casos de assédio sexual. De acordo com o relatório da procuradora-geral nova-iorquina, Letitia James, publicado esta terça-feira, pelo menos em três ocasiões o governador de Nova Iorque tocou na mulher de forma imprópria, uma das quais num elevador, perante a presença de um outro membro da equipa de Cuomo, quando pôs o dedo no pescoço da polícia e foi descendo até meio das costas. Noutro episódio, Cuomo terá beijado a polícia no pescoço, tendo ainda feito comentários sobre a sua vida sexual e amorosa, tendo chegado a dizer que era “demasiado velha” para si e sugerido que trabalhasse de vestido. “Assustador”, foi como ela descreveu o governador nova-iorquino.

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Investigação conclui que governador de Nova Iorque assediou sexualmente várias mulheres

O caso da “polícia n.º1” é uma das muitas revelações do relatório apresentado pela procuradora-geral do estado de Nova Iorque, que abriu uma investigação após as primeiras denúncias de assédio sexual contra Andrew Cuomo no final do ano passado e no início de 2021, investigação pedida pelo próprio governador, que tem garantindo que é inocente. Para a elaboração do relatório, foram entrevistadas 179 pessoas, 41 delas sob juramento, incluindo queixosas, antigos e atuais funcionários e polícias, tendo sido analisados milhares de documentos, nomeadamente troca de correspondência entre pessoas próximas de Cuomo e outros funcionários, que corroboraram as denúncias das que se dizem suas vítimas.

“O maior problema de Andrew Cuomo, além da força dos testemunhos das mulheres, é que ele não tem apoiantes ou aliados. Ninguém o está a defender”
Ronald Seyb, professor de Ciência Política do Skidmore College

Após a investigação, Letitia James denunciou um “ambiente de trabalho tóxico e hostil”, afirmando que 11 mulheres — todas com testemunhos credíveis, segundo a procuradora-geral — foram assediadas por Cuomo. As acusações são de tal forma graves que o governador nova-iorquino está completamente isolado, tendo perdido o apoio do seu Partido Democrata, ficando em vias de enfrentar um processo de impeachment (destituição).

“O maior problema de Andrew Cuomo, além da força dos testemunhos das mulheres, é que ele não tem apoiantes ou aliados. Ninguém o está a defender”, afirma ao Observador Ronald Seyb, professor de Ciência Política do Skidmore College, em Saratoga Springs, Nova Iorque. “São acusações muito graves. Já tivemos alegações de assédio ou abuso sexual contra políticos no passado, mas nunca um caso como este. Este pode ser um momento de viragem na política americana, não só para políticos, como para figuras públicas”, acrescenta.

Um “padrão perturbador de comportamentos”: os comentários sexuais aos toques sem consentimento, inclusive nos seios

As primeiras acusações contra Andrew Cuomo vieram da sua ex-secretária para o desenvolvimento económico Lindsey Boylan, que começou a trabalhar com o governador nova-iorquino em 2015, acabando por demitir-se em 2018. Nas primeiras vezes que falou publicamente sobre o caso, Boylan acusou Cuomo de a ter beijado nos lábios sem consentimento — um incidente que descreveu como “profundamente humilhante” aos investigadores — e de lhe ter pedido para jogar “strip poker”.

Boylan acusou Cuomo de a ter beijado nos lábios sem consentimento — um incidente que descreveu como “profundamente humilhante” aos investigadores — e de lhe ter pedido para jogar “strip poker”.

Estas acusações foram corroboradas pelo relatório, onde foi concluído que os comentários sobre a aparência de Boylan eram constantes, e que, além do beijo, casualmente, o governador tocava, sem consentimento, na cintura, pernas e costas da sua assessora. “Trabalhei com tanto afinco para ser uma boneca do governador de Nova Iorque”, desabafou aos investigadores Boylan que, apesar do cargo importante que desempenhou, diz que nunca foi “levada a sério”.

Como a primeira denúncia partiu de Lindsey Boylan, Andrew Cuomo e o seu círculo próximo ficaram preocupados com o impacto do caso, e, segundo se lê no relatório, foi montada uma operação para tentar descredibilizar a antiga secretária, tendo a assessora Melissa DeRosa desempenhado um papel chave, conforme conta o The Washington Post. Assim que foi feita a denúncia de assédio publicamente, DeRosa pediu a um advogado “toda a informação” sobre Boylan, com o objetivo de divulgar documentos internos de forma a apresentar a ex-secretária como uma má funcionária, descredibilizando-a perante a imprensa. Além disso, Cuomo e DeRosa puseram a circular duas cartas — uma delas só com mulheres — em que pediam a funcionários e ex-funcionários para atacarem Boylan e defenderem o governador. Atos que, segundo a procuradora-geral, foram uma medida de retaliação, e que também visaram outras mulheres que dizem ter sido alvo de assédio.

Andrew Cuomo. Governador de Nova Iorque volta a ser acusado de assédio sexual

Cuomo chamou Kaitlin ao seu gabinete, e pediu-lhe para procurar, no seu computador, peças de automóveis no Ebay, o que deixou incomodada, uma vez que ficou de costas para Cuomo, quando estava de vestido e saltos altos.

Outra das visadas por estas tentativas de retaliação foi uma mulher que é identificada apenas como Kaitlin. Melissa DeRosa terá dado ordens a um funcionário para gravar uma conversa com ela, procurando informações comprometedoras para tentar perceber se a mulher estava em conluio com Lindsey Boylan. De acordo com o relatório, Kaitlin foi contratada após uma angariação de fundos em 2016 e desde então foram recorrentes os episódios que a deixaram desconfortável, entre eles afirmações de que não estaria apta a trabalhar caso não usasse maquilhagem. Noutro incidente, Cuomo chamou Kaitlin ao seu gabinete, e pediu-lhe para procurar, no seu computador, peças de automóveis no Ebay, o que deixou incomodada, uma vez que ficou de costas para Cuomo, quando estava de vestido e saltos altos.

Acusações mais graves e gráficas foram feitas por uma mulher que é citada no relatório como “Assistente Executiva 1”. De acordo com o relato feito aos investigadores, além dos comentários recorrentes sobre a sua vida privada e sobre os seus relacionamentos amorosos, relata vários episódios em que o governador lhe tocou sem consentimento, dando como exemplos abraços que serviam para apalpar as nádegas e um caso em que Cuomo terá deslizado a mão pela blusa até lhe tocar nos seios.

O relatório refere ainda uma série de outros incidentes, desde os que já tinham sido publicamente divulgados no caso de Charlotte Bennett, uma ex-assessora que trabalhou com Cuomo até ao último outono, e que acusou o governador de assédio sexual, afirmando que este lhe perguntou se ela já tinha feito sexo com homens mais velhos, fazendo várias insinuações. Outros casos têm em comum os comentários de teor sexual de Cuomo que, por exemplo, em março de 2020, num desses comentários, deixou uma médica desconfortável enquanto esta lhe fazia um teste à Covid-19. Todos estes casos, disse a procuradora-geral, revelam um “padrão perturbador de comportamentos”.

Cuomo não se demite. Impeachment pode começar daqui a um mês, com apoio do Partido Democrata

Andrew Cuomo, no entanto, garante que é inocente e que nunca tocou “em ninguém de forma inapropriada” ou fez “avanços sexuais inapropriados”, tentando justificar as acusações de que é alvo pelo facto de, no seu dia a dia, ser habitual beijar ou abraçar pessoas. Mas, se em março, quando pediu que fosse feita uma investigação às denúncias de assédio sexual, Cuomo esperava ganhar tempo, agora ficou encostado à parede, sem o apoio do Partido Democrata, que não hesitou em falar a uma só voz e retirar o apoio ao governador.

Do Presidente Joe Biden, outrora próximo de Cuomo que veio agora dizer que não tinha condições para continuar no cargo, passando pela presidente da Câmara dos Representantes Nancy Pelosi — também ela amiga da família Cuomo —, até ao presidente da Assembleia de Nova Iorque Carl E. Heastie, ou ao mais que provável próximo mayor de Nova Iorque Eric Adams, todos tiraram o tapete ao governador nova iorquino, defendendo que este se deveria demitir. Caso não o faça, Heastie já disse que os democratas estão prontos para avançar para um processo de impeachment , mas os primeiros sinais indicam que Cuomo, conhecido pelo seu estilo agressivo e persistente, está disposto a lutar até ao fim.

“Se [Cuomo] renunciasse ou fosse destituído, a sua carreira política chegaria ao fim. Mas, se fosse exonerado no Senado, então poderia usar esse argumento perante o eleitorado e tentar um ganhar um quarto mandato, o que seria uma batalha difícil”
Harvey Schantz, professor de Ciência Política da Universidade Estadual de Nova Iorque

“Não acho que Cuomo se demita antes do início do impeachment, porque ele não é de desistir e quer ter a oportunidade de desafiar os factos no caso que há contra si”, afirma ao Observador Harvey Schantz, professor de Ciência Política da Universidade Estadual de Nova Iorque, em Plattsburgh. “Se [Cuomo] renunciasse ou fosse destituído, a sua carreira política chegaria ao fim. Mas, se fosse exonerado no Senado, então poderia usar esse argumento perante o eleitorado e tentar um ganhar um quarto mandato, o que seria uma batalha difícil”, antevê o politólogo.

O processo de impeachment funciona em duas fases e, segundo avança o The New York Times, poderá demorar cerca de um mês até ser iniciado, numa altura em que estão a ser recolhidas as provas para o julgamento político. Na primeira fase, após ser submetido o pedido, é apenas necessária uma maioria simples para que o processo comece. A Assembleia de Nova Iorque é composta por 150 representantes (106 dos quais do Partido Democrata, que, segundo Carl E. Heastie, já garantiu que Cuomo não tem o apoio do partido), pelo que bastam apenas 76 votos favoráveis — dos quais bastam 32 democratas, descontando os 44 membros do Partido Republicano, que votarão certamente a favor da destituição — para o impeachment passar para a fase de julgamento no Senado estadual.

“Num partido que tem uma base de eleitores com muitas mulheres e jovens, que estão especialmente zangadas com este caso, não exigir a saída [de Cuomo] seria visto como um ato hipócrita”
Ronald Seyb, politólogo do Skidmore College

Caso esta primeira fase seja bem sucedida, Cuomo é substituído no cargo pela vice-governadora, a democrata Kathy Hochul, enquanto aguarda pelo julgamento no Senado estadual. Para ser condenado, e como consequência ser definitivamente afastado do cargo, seriam necessários os votos de dois terços dos 63 senadores e dos sete juízes do tribunal de recurso, que também integram o painel. Hochul não vota, o faz com que sejam necessários 46 votos, sendo que os democratas têm 43 assentos.

De olho em 2022, democratas querem “livrar-se” de Cuomo rapidamente. E isso pode ser o fim político do governador

Se, eventualmente, Cuomo fosse absolvido pelo Senado estadual, recuperaria os seus poderes e continuava como governador. Um cenário bastante improvável, sobretudo desde que perdeu o apoio do Presidente Joe Biden.

“As declarações de Joe Biden têm um grande impacto. Joe Biden é não só o líder da Nação, é também o líder do Partido Democrata. Há muita pressão sobre Cuomo neste momento”, sublinha Ronald Seyb, notando que, caso o Partido Democrata desse uma volta de 180.º e salvasse Cuomo, poderia ser acusado de hipocrisia, uma vez que o partido tem feito da igualdade de género uma das bandeiras. “Num partido que tem uma base de eleitores com muitas mulheres e jovens, que estão especialmente zangadas com este caso, não exigir a saída [de Cuomo] seria visto como um ato hipócrita”, remata o politólogo do Skidmore College.

“Os democratas querem livrar-se do assunto Cuomo rapidamente, retirando-o da agenda antes das eleições de intercalares de 2022”
Harvey Schantz, politólogo da Universidade Estadual de Nova Iorque

Harvey Schantz faz a mesma leitura e acrescenta que os democratas estão já a pensar no primeiro teste eleitoral à Administração Biden, marcado para o próximo ano. “Os democratas querem livrar-se do assunto Cuomo rapidamente, retirando-o da agenda antes das eleições de intercalares de 2022”, assegura Schantz. “Além disso”, continua o politólogo, “os democratas estão preocupados com a possibilidade de Cuomo se tornar numa questão nacional negativa” e, se “continuarem a apoiar Cuomo após as conclusões do relatório, o partido pode ser visto como hipócrita na questão do assédio sexual no local de trabalho”.

Governador de Nova Iorque debaixo de fogo. Pedidos de demissão multiplicam-se, mas Andrew Cuomo recusa deixar o cargo

Acresce que as eleições para escolher o próximo governador nova-iorquino estão marcadas para novembro de 2022 — Cuomo já tinha anunciado em 2019 que se iria recandidatar — e no Partido Democrata começam a contar-se espingardas para a batalha eleitoral, com nomes como a “vice” Kathy Hochu, Letitia James, a procuradora-geral responsável pelo relatório ou o advogado Jumaane D. Williams a serem apontados ao cargo.

Cuomo é também investigado por um comité judicial da Assembleia de Nova Iorque por alegadamente ter tentado esconder o número de mortes por Covid-19 nos lares de idosos nova-iorquinos, além das suspeitas de ter beneficiado familiares quando os testes eram escassos.

Perante estas movimentações, é difícil vislumbrar um cenário em que Andrew Cuomo consiga manter-se no cargo e voltar a concorrer (quanto mais vencer) em 2022. Além das acusações de assédio sexual presentes no relatório — que já levaram a procuradoria distrital a abrir o inquérito, o que poderá levar a que o ainda governador seja acusado judicialmente —, Cuomo é também investigado por um comité judicial da Assembleia de Nova Iorque por alegadamente ter tentado esconder o número de mortes por Covid-19 nos lares de idosos nova-iorquinos, além das suspeitas de ter beneficiado familiares quando os testes eram escassos.

As acusações e a pressão ainda não fizeram que Cuomo cedesse e, para já, o governador parece disposto a levar a batalha até ao fim. O seu estilo combativo e agressivo, no entanto, pode não chegar para travar o seu fim político.

Família do governador de Nova Iorque, Andrew Cuomo, teve acesso privilegiado a testes da Covid-19

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