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O Presidente Donald Trump ainda não admitiu colaborar com Joe Biden na transição presidencial

MICHAEL REYNOLDS/EPA

O Presidente Donald Trump ainda não admitiu colaborar com Joe Biden na transição presidencial

MICHAEL REYNOLDS/EPA

Partido Republicano e Casa Branca divididos com a recusa de Trump em reconhecer a derrota /premium

O Presidente dos EUA continua sem reconhecer a derrota. Na Casa Branca e no seu partido há quem o tente convencer a sair e quem o apoie incondicionalmente — e já há desconforto entre os advogados.

A recusa de Donald Trump em reconhecer a derrota eleitoral que sofreu no último sábado está a aprofundar a divisão e a discórdia no interior da Casa Branca, do Partido Republicano e da equipa jurídica do ainda Presidente dos Estados Unidos, de acordo com os relatos da imprensa norte-americana. Até agora, entre a generalidade das figuras de topo do partido e da administração tem imperado o silêncio — ou, em alguns casos, as declarações vagas de reconhecimento do direito de Trump a disputar o resultado das eleições em tribunal.

Contudo, as poucas intervenções públicas contam apenas uma parte da história que se está a desenrolar nos bastidores da política norte-americana numa altura em que o Presidente-eleito, Joe Biden, já começou um processo de transição que se antevê turbulento devido ao boicote promovido por Trump. Com o futuro incerto do Partido Republicano, que Trump moldou definitivamente à sua imagem, a maioria dos congressistas, senadores e outras figuras de proa do partido atravessa um momento delicado.

Joe Biden quer começar a transição, mas Donald Trump não está a ajudar

Ninguém se quer atravessar no caminho de um Trump determinado a manter-se na Casa Branca. Porém, em privado, têm-se multiplicado os apelos de elementos do partido e do círculo próximo do Presidente para que assuma a derrota — uma vez que os processos movidos pela campanha republicana têm muito pouca probabilidade de sucesso (e, mesmo que avancem, os votos em questão serão insuficientes para reverter o resultado eleitoral).

Era isto que Donald Trump estava a fazer no dia em que foi declarada a vitória de Joe Biden

Getty Images

Até agora, foram muito poucos os senadores republicanos que reconheceram a vitória de Joe Biden. Apenas Ben Sasse (que durante a campanha acusou Trump de “beijar o rabo a ditadores”), Susan Collins, Mitt Romney (o único republicano a votar pela condenação de Trump no processo de impeachment) e Lisa Murkowski o tinham feito até esta segunda-feira. No resto do partido, impera a cautela. Para evitar afrontar Trump, a maioria dos republicanos têm mantido o silêncio ou conseguido contornar a questão.

Esta segunda-feira, o The New York Times procurou dar resposta à pergunta que mais circula nos corredores de Washington: quem vai dizer a Trump que perdeu?

No artigo, o jornal lembra a dinâmica que tem governado as relações entre Presidente e Congresso desde a eleição de Donald Trump. Só há dois grupos de republicanos: os indefectíveis de Trump, que o apoiam incondicionalmente e respondem à exigência de lealdade completa; e os outros, que, embora partilhem as prioridades políticas do Presidente, não se identificam com o estilo de governação do magnata e temem ver o Partido Republicano entrar numa lógica de discurso de que poderá não se conseguir libertar nos próximos tempos. Esta divisão já era clara durante a Presidência de Trump — mas está a aprofundar-se neste período.

Núcleo duro incentiva Trump, mesmo sem acreditar

Nos últimos três dias, vários membros do Partido Republicano e do clã Trump mostraram fazer parte do grupo dos leais ao Presidente, ajudando-o a propagar as acusações — infundadas — de fraude eleitoral. Neste grupo destacam-se particularmente os filhos de Trump, que se têm multiplicado em comícios e conferências de imprensa por todo o país a repetir os argumentos do pai (que ainda não falou publicamente desde a derrota eleitoral, a não ser através do Twitter).

Desde o fim-de-semana que o site de campanha de Donald Trump se converteu numa página de angariação de fundos para a batalha jurídica que o Presidente já começou a lançar em diversos estados para contestar em tribunal o resultado eleitoral. De acordo com uma reportagem publicada esta segunda-feira pela revista norte-americana Newsweek, Donald Trump Jr., Eric Trump, Ivanka Trump e Jared Kushner têm sido os principais embaixadores desta campanha — não porque acreditem no sucesso dos esforços, mas porque há uma marca e uma esfera de influência a manter.

"Ele foi jogar golfe no fim-de-semana. Não está propriamente a desenhar um plano para impedir Joe Biden de entrar em funções no dia 20 de janeiro. Está a fazer uns tweets sobre alguns processos em tribunal, esses processos vão falhar, depois ele vai fazer mais uns tweets sobre como a eleição lhe foi roubada e depois vai-se embora."
Fonte do Partido Republicano ao The Washington Post

Enviam mensagens e emails para tentar angariar fundos para isto a cada dez minutos”, disse à revista um funcionário da Casa Branca que tem testemunhado o que se passa no interior do clã Trump nos últimos dias. Ao contrário de outros importantes membros do Partido Republicano, ainda nenhum dos filhos, o círculo mais importante para o Presidente, terá sugerido a Trump a possibilidade de admitir a derrota (embora a CNN tenha noticiado que o cenário foi assunto de discussão entre Trump e Jared Kushner — e até mesmo com a mulher, Melania).

Para o Presidente e para os seus filhos, “a mentalidade de luta tem muito a ver com a marca”, disse à revista um conselheiro jurídico de Trump, também não identificado. “Eles vão continuar a lutar até se tornar claro que estão a prejudicar a marca Trump.” Para outros dentro do círculo privado de Trump, porém, a derrota já parece mais que evidente. O Presidente já está a ver “um caminho para a derrota”, disse à CNN um conselheiro de Trump.

Ao The Washington Post, um elemento de topo do Partido Republicano descreveu um cenário parecido no interior da Casa Branca. “Qual é o problema de o animarmos durante este bocadinho? Ninguém acredita verdadeiramente que os resultados vão mudar”, disse o republicano, que falou também sob anonimato. “Ele foi jogar golfe no fim-de-semana. Não está propriamente a desenhar um plano para impedir Joe Biden de entrar em funções no dia 20 de janeiro. Está a fazer uns tweets sobre alguns processos em tribunal, esses processos vão falhar, depois ele vai fazer mais uns tweets sobre como a eleição lhe foi roubada e depois vai-se embora.”

Porém, o magnata tem uma legião de 70 milhões de apoiantes a que tem de agradar se pretende continuar na esfera política nacional nos próximos anos — e parece certo que é isso que Trump quer fazer. Segundo o The New York Times, o Presidente já está a preparar o lançamento de um comité de angariação de fundos a nível nacional, destinado a apoiar causas e candidatos do Partido Republicano nos próximos anos. Trata-se, essencialmente, de uma estrutura que lhe permitirá manter uma grande influência dentro do partido.

A última aparição pública de Trump foi o regresso à Casa Branca após um dia no golfe, no sábado. Desde então, só tem falado pelo Twitter

AFP via Getty Images

O Presidente Trump não vai a lado nenhum nos próximos tempos”, disse àquele jornal o estratega republicano Matt Gorman. “Vai introduzir-se no debate nacional de uma forma muito diferente de qualquer um dos seus antecessores.” Mas Trump só conseguirá essa influência se não desistir da Presidência antes de esgotar todos os meios que tem ao seu dispor — e os seus aliados só se conseguirão manter na sua esfera se agora permaneceram ao lado dele.

Um desses aliados é Rudy Giuliani, ex-presidente da câmara de Nova Iorque e advogado pessoal do Presidente Trump, que no fim-de-semana protagonizou uma insólita conferência de imprensa no parque de estacionamento de um centro de jardinagem chamado “Four Seasons Total Landscaping”, em Filadélfia, depois de Donald Trump ter anunciado o encontro para o hotel Four Seasons na mesma cidade. No encontro com os jornalistas, Giuliani surgiu rodeado por pessoas que disse serem observadores eleitorais que teriam sido impedidos de entrar nas salas de contagem dos votos, insistiu na fraude eleitoral e garantiu que os processos começariam a dar entrada nos tribunais já na segunda-feira.

Vários republicanos de topo também já se posicionaram ao lado de Donald Trump. Os senadores David Perdeu e Kelly Loeffler, no estado da Georgia, pediram na segunda-feira a demissão do secretário de Estado da Georgia, o republicano Brad Raffensperger, por considerarem que houve fraude eleitoral naquele estado.

Entre os republicanos que têm recusado reconhecer a vitória de Joe Biden conta-se também o senador Mitch McConnell, líder da bancada republicana no Senado — e, ao que tudo indica, o republicano mais bem posicionado na política norte-americana durante o mandato de Joe Biden como Presidente. Trump está “100% dentro do seu direito” de contestar os resultados da eleição em tribunal, disse esta segunda-feira.

Já o procurador-geral dos EUA, William Barr, permitiu esta segunda-feira que os procuradores federais se envolvessem em investigações de fraude eleitoral — quebrando as orientações anteriores do governo norte-americano, que diziam que isso só poderia acontecer depois da publicação dos resultados finais e oficiais da eleição.

"O Presidente Trump não vai a lado nenhum nos próximos tempos. Vai introduzir-se no debate nacional de uma forma muito diferente de qualquer um dos seus antecessores."
Matt Gorman, estratega republicano

A este núcleo de republicanos leais a Trump (que apoiam o Presidente mesmo sem acreditar no sucesso da campanha) juntam-se múltiplos assessores, conselheiros e outros membros do partido que têm defendido publicamente a retórica infundada da fraude eleitoral — mesmo que por isso acabem por ter a voz cortada nos meios de comunicação, até na conservadora Fox News.

Republicanos apelam a Trump que reconheça derrota

Na direção oposta, uma grande parte do Partido Republicano está a posicionar-se no sentido de tentar convencer Trump a aceitar a derrota. Embora a maioria dos membros do partido mantenham o silêncio, começam a surgir sinais de que uma grande parte dos republicanos espera que Trump possa reconhecer brevemente que Joe Biden venceu a eleição.

Um dos sinais de peso veio do ex-presidente George W. Bush, que emitiu um comunicado a congratular o Presidente-eleito Joe Biden (embora tenha assegurado que Trump “tem o direito” de contestar o resultado se assim o entender). A tomada de posição de Bush foi interpretada como uma forma de encorajar mais republicanos a reconhecerem a vitória de Biden. Na segunda-feira, um grupo de 31 antigos congressistas republicanos publicou uma carta aberta a apelar a Trump que conceda a vitória a Biden. No comunicado, o grupo acusou Trump de “minar a legitimidade da eleição” com as suas acusações “inaceitáveis”. Em simultâneo, um pequeno grupo de congressistas e senadores republicanos em funções já veio a público pedir a Donald Trump que apresente as provas para as alegações de fraude que tem propagado.

Ao mesmo tempo, nos bastidores da Casa Branca, há quem vá tentando preparar o terreno para o momento em que Donald Trump irá admitir a derrota. Na segunda-feira, a CNN noticiou que a primeira-dama, Melania Trump, tinha tentado convencer o marido a conciliar-se com a ideia de que perdeu a eleição — e que o genro, Jared Kushner, também já havia abordado o assunto. Porém, já depois da publicação da notícia, a primeira-dama recorreu ao Twitter para repetir publicamente os argumentos de Trump: “Todos os votos legais — e não os ilegais — devem ser contados”.

Mitch McConnell, o líder da bancada republicana no Senado, é um dos principais republicanos a não reconhecer a vitória de Biden

AFP via Getty Images

Outro relato dos bastidores chega do The Washington Post, que no fim-de-semana descrevia as conversas que Trump tem mantido com os membros do seu círculo mais próximo, dando conta dos pedidos feitos pelo Presidente aos seus aliados para que o defendem publicamente, mesmo reconhecendo que é praticamente impossível reverter o resultado eleitoral.

Ainda assim, alguns dos conselheiros introduziram cautelosamente o tópico da derrota, enquanto os filhos de Trump mantém a insistência na batalha jurídica contra o resultado eleitoral.

O sentimento generalizado dentro da Casa Branca é o de que o desfecho será o inevitável adeus de Trump. Os tribunais de pelo menos quatro estados norte-americanos — Nevada, Georgia, Pensilvânia e Michigan — já recusaram processos movidos pela equipa jurídica de Trump. Mas só quando a derrota for oficializada é que o atual Presidente deverá discursar — e não será seguramente um discurso de concessão. Antes, Trump deverá continuar a alegar que a eleição lhe foi roubada, mas assumirá o compromisso de colaborar na transição de poder.

Até lá, Trump continuará a fazer tudo o que conseguir para galvanizar a sua base de apoio e para convencer o país de que a eleição de Biden foi fraudulenta. Nos próximos dias, o Presidente norte-americano deverá protagonizar um conjunto de comícios com multidões de apoiantes onde planeia expor provas da fraude eleitoral — por exemplo, através da revelação de identidades de eleitores que já morreram e cujos votos, diz, foram contabilizados.

Um advogado já se demitiu em protesto contra Trump

Enquanto os processos continuam a ser preparados e submetidos pela equipa de Donald Trump em múltiplos estados, começa também a crescer o desconforto dentro das firmas de advogados contratadas pelo Presidente para o representarem nestes esforços, noticiou esta terça-feira o The New York Times.

Rudy Giuliani protagonizou uma conferência de imprensa no parque de estacionamento de um centro de jardinagem em Filadélfia

Getty Images

O jornal falou com nove dos principais advogados da Jones Day — a mais prestigiada das empresas de advocacia envolvidas na os esforços de Trump para impugnar as eleições — que se mostraram preocupados com a possibilidade de estarem a contribuir para um processo destinado a minar a integridade do sistema eleitoral norte-americano. Na Porter Wright Morris & Arthur, outra empresa contratada por Trump, já houve reuniões internas para discutir o problema. Vários dos advogados estão contra a intervenção da firma nos processos — e pelo menos um deles já se demitiu em protesto.

De acordo com o The New York Times, só aquelas duas empresas já submeteram quatro processos no estado da Pensilvânia.

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