“Telefona para a GNR que eu já matei aquele maroto.” O crime que fez de Manuel Açoriano o recluso mais velho do país /premium

11 Março 2019940

Aos 89 anos, Manuel Açoriano entrou na sala de audiências a queixar-se das nódoas negras provocadas pelas algemas. Depois ouviu a juíza condená-lo a 4 anos e 9 meses de prisão, por ter matado o genro.

O som dos tiros não apanhou Olívia de surpresa. “Ui, isto foi o senhor Manuel”, disse, mal se ouviram os disparos. O marido correu à rua para confirmar a suspeita da mulher. “É o Manuel Açoriano?”, perguntou. Era, de facto. “Então, já sei o que é que foi.” O vizinho tinha matado o genro e não era, para ela, “novidade nenhuma”. Dali, da casa onde ouviu os tiros, tinha também, durante anos, ouvido as discussões entre a família. Olívia, 65 anos, vive a pouco mais de 50 metros da casa onde Manuel Garcia vivia e cometeu o crime que o tornou o recluso mais velho do país, prestes a completar 90 anos. “Da minha casa, ouvia os gritos das discussões”, contou ao Observador na manhã desta segunda-feira, horas antes de o vizinho ser condenado a quatro anos e nove meses de prisão pelo Tribunal de Loures.

Era aos vizinhos que Manuel Açoriano — como era conhecido na aldeia de Furadouro, na cidade de Torres Vedras — se costumava queixar. “Este maroto… Ele é que matou a minha filha e agora quer matar a gente?“, chegou a dizer a Olívia. A filha tinha morrido havia quatro anos e Manuel e a mulher, Isabel, sempre culparam o genro pela morte. Na aldeia, ninguém consegue explicar ao certo o que aconteceu: há quem diga que teve morte súbita; outros dizem que teve um ataque cardíaco depois de ter ingerido um veneno. Nem Alda Ferreira, sobrinha da mulher de Manuel sabe ao certo. “É à moda daquele ditado muito antigo: só Deus sabe”, diz.

O crime aconteceu na aldeia de Furadouro, em Torres Vedras, no verão do ano passado (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

Também ela confessa ao Observador que não ficou “de boca aberta” quando soube que o tio tinha matado o genro — e pai do neto, já crescido, com cerca de 40 anos. Já previa que pudesse acontecer: “Eu e toda a família. A aldeia toda, na verdade”. Depois da morte da filha de Manuel, o genro, António Veríssimo, que sofria de um cancro, mudou-se para casa dos sogros. Mas, explica a vizinha Olívia, “o senhor Manuel e a senhora Isabel nunca gostaram dele”. “O neto trouxe-o para aqui e foi a desgraça. Estragou-se tudo. Sabendo o neto que eles se davam mal, porque é que não tirou o pai de lá?”, questiona-se, exaltada. Outro vizinho, José Augusto, também ele na casa dos 80 anos, resume: “Foi pô-lo ali à boca do lobo”.

Olívia ia pedindo a Manuel que tivesse calma. “Ai filha, tenho calma como?”, questionava. Nunca lhe soube dar resposta. “Eu sei que ninguém tem o direito de tirar a vida a ninguém. Eu sei. Mas…”, disse ao Observador, sem conseguir, ainda, completar essa frase. Diz que chegou a prever a tragédia, em desabafos com a vizinha da frente: “Ai, Mariana. Isto qualquer dia vai acabar mal”. Foi a Mariana que Manuel, uma semana antes do crime, confessou o desejo de o cometer. Veio dar-lhe meia dúzia de ovos das galinhas que criava e disse-lhe: “Aquele maroto… Já são quatro ou cinco vezes que me bate, mas a próxima vez já não me bate mais.

Manuel matou o genro com a caçadeira dele. “Era com ela que me ameaçava, foi com ela que morreu”

A 6 de julho de 2018, Manuel Açoriano chegou a casa da vizinha aos gritos. “Ó Olívia, ó Olívia!”, recorda a própria, imitando-lhe o ar ofegante. “Telefona para a GNR que eu já matei aquele maroto. Eu matei aquele maroto. Telefona que eu quero me entregar“, pediu. A mulher ainda estremece a recordar aquela noite. “Ai senhor Manuel, eu nem sei o número da GNR. Posso é dar-lhe o meu telemóvel”, respondeu-lhe. Manuel negou — não sabia sequer mexer num telemóvel e seguiu em direção ao único café da aldeia.

Manuel esperou no quintal que o genro regressasse do café para o matar (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

Tinha sido lá que, horas antes, o genro tinha estado a ver um jogo de futebol: a seleção do Brasil e a da Bélgica jogavam nesse dia. Era hábito seu. “Ia ali quase todos os dias de manhã. Bebia a sua biquinha, ia dar uma caminhada… Até que um dia aconteceu isto”, conta José Henriques, cliente do café, ao Observador. Manuel Açoriano aproveitou o facto de o genro se ausentar naquele fim de tarde: foi buscar a caçadeira de António Veríssimo e carregou-a com dois cartuchos. “Era com ela que me ameaçava, foi com ela que morreu”, disse já durante o julgamento. Esperou duas horas pelo regresso do genro, sentado num banco à porta da sua casa, escondido pelo muro.

Sogro e genro teriam discutido horas antes de o idoso ter decidido matá-lo. O idoso terá mesmo ameaçado a vítima de morte. “Não me prejudiques que eu te mato”, terá dito, segundo a acusação. Num dos depoimentos que prestou em tribunal, contou, porém, que o genro ameaçou que lhe apertava o pescoço e, caso resistisse, iria “dar-se mal”.

Manuel Açoriano chegou a ser visto de caçadeira em punho, naquele dia, por um vizinho — também ele ia ver o jogo de futebol ao café quando se deparou com aquele cenário. Como se previsse que algo ia acontecer, voltou para casa. “Olha, fecha tudo. Tem cuidado porque o vizinho está ali com uma espingarda. Como ele é mais velho, pode não estar bom da cabeça”, recorda Eliana Alves, a vizinha da frente ao Observador. Fechou tudo e não se apercebeu de nada: “Quando ouvi os estrondos — que ingénua que fui —  até estranhei estarem a atirar foguetes àquela hora“.

Depois de cometer o crime, Manuel andou até ao café para pedir que chamassem a GNR (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

Não eram foguetes. António Veríssimo tinha acabado de abrir o portão, vindo do café. Manuel Açoriano “levantou-se” e “empunhou a caçadeira”. Não disse uma única palavra ao genro. “Apontou a arma ao seu peito e disparou dois tiros”, lê-se na acusação do Ministério Público, citada pela agência Lusa, que o tribunal acabou por confirmar. Um atingiu-o no punho direito. O outro foi fatal: acertou no lado direito do peito. “São horas do Diabo”, descreve José Henriques.

A vítima ficou, então, estendida à entrada do quintal, na pequena e estreita Avenida 25 de abril. Dentro da casa estava a mulher de Manuel Açoriano — acamada devido a uma doença oncológica. No café onde foi tentar novamente que alguém lhe chamasse a GNR, o idoso foi reconhecido por poucos. Em Furadouro, é descrito como uma pessoa reservada, que poucas vezes saía de casa. “Nunca vinha ao café”, recorda a dona do estabelecimento ao Observador. Naquele dia, continuou sem lá entrar. “Sentou-se no banco à porta do café a pedir para chamar a GNR. Mas não ligaram logo porque podia não ser verdade. Depois, algumas pessoas foram lá ver para confirmar se era verdade ou mentira”, conta.

Nunca mais viu a mulher. Já preso, foi ao velório de Isabel acompanhado pela polícia

Detido logo de seguida, Manuel Açoriano confessou o crime. O genro ainda foi assistido, mas acabaria por morrer no local. Depois de presente a tribunal, para primeiro interrogatório, foi posto em prisão preventiva na cadeia anexa às instalações da sede da Polícia Judiciária. Lá ficou oito meses, até esta quinta-feira. Agora será transferido para o Estabelecimento Prisional de Lisboa, onde cumprirá a pena de prisão.

Manuel foi condenado a 4 anos e 9 meses de prisão, pelo Tribunal de Loures (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

Nesta última sessão de julgamento, esta segunda-feira, o arguido entrou na sala de audiências a queixar-se ao advogado dos pulsos. Tinha nódoas negras provocadas pelas algemas. Enquanto lia a decisão, a juíza via-se obrigada a elevar a voz para que Manuel conseguisse ouvi-la. Ouviu o que não quis: quatro anos e nove meses de prisão, pelo crime de homicídio simples agravado pela utilização de arma.

O advogado do arguido, José Castelo Filipe, admitindo que a pena aplicada foi  “mais baixa do que o que se estava à espera”, revelou que vai “analisar o acórdão com mais calma, mais friamente” e falar com o seu cliente para avaliar a possibilidade de avançar com um recurso. “Logo verei. Depende do que ele me transmitir”, disse. “[Manuel] não ficou muito satisfeito. Estava à espera de ir para um lar e não que tivesse de cumprir a pena no Estabelecimento Prisional de Lisboa”, explicou o advogado, em declarações aos jornalistas, à saída do Tribunal de Loures.

O tribunal absolveu-o do crime de homicídio qualificado, do qual era acusado pelo Ministério Público — que pedia uma pena entre 14 e 15 anos de prisão –, considerando “o estado de desespero” em que o arguido se encontrava quando cometeu o crime e o “contexto muito específico e invulgar” em que ocorreu. “Estava desesperado”, chegou a admitir numa das sessões. Questionado sobre o porquê de nunca ter apresentado queixa do genro, respondeu: “Era o pai do meu neto”.

A mulher de Manuel morreu já o marido estava preso (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

Por causa do crime, também nunca mais viu a mulher. Isabel, com 88 anos, morreu já o marido estava preso. O estado de saúde, já débil, agravou-se ainda mais logo depois do homicídio e, já em coma e hospitalizada, a idosa acabou por não resistir. Com autorização do tribunal, Manuel Açoriano ainda foi ao velório acompanhado por elementos da Polícia Judiciária. “Esteve na capela um quarto de hora”, recorda Olívia.

Estavam casados há mais 70 anos. Trabalharam na agricultura a vida toda. Ele foi “caseiro de duas ou três quintas”. Ela “cavava vinhas como ninguém”, lembra a vizinha. Conheceram-se no campo, em Ervideira, uma aldeia ali perto, pouco depois de Manuel ter chegado dos Açores. Açoriano não era só alcunha. “Veio para cá jovem. Foi uma irmã que o trouxe para cá. Tinha arranjado namoro com um homem, que era militar, e veio para cá com o irmão Manuel”, conta a vizinha, acrescentando: “Isto era o que ele me contava. Coitado. Ponham o homenzinho num lar, pelo menos”.

Texto de Carolina Branco, fotografia de João Porfírio.

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