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Nestes tempos de balanças digitais, andamos mais distantes dos velhinhos aparelhos de dois pratos, em que o objectivo era conseguir o equilíbrio exacto entre o peso (ou a massa) dos objectos colocados dos dois lados. Mas é esse o simbolismo da Balança, desde os egípcios, gregos, romanos, judeus, cristãos, até aos dias de hoje. Símbolo da justiça, da prudência e do equilíbrio, a Balança tem a função de medir e de pesar os actos dos homens, tanto na vida terrena como na espiritual.

Também nesta pandemia do coronavírus SARS-Cov-2, que causa a doença chamada Covid-19, deveríamos ter uma Balança nas Medidas de Contenção e Mitigação. E, com justiça, prudência e equilíbrio, colocar os seus efeitos benéficos no controlo da infecção num prato, e os efeitos adversos na economia, na saúde mental, na vida das pessoas no outro prato. Pratos opostos, em equilíbrio.

Esta doença não afecta todos de forma justa ou equilibrada. Refiro-me ao facto de haver pessoas que, apesar das Medidas, mantém o seu rendimento intacto, umas trabalhando o mesmo ou mais ainda do que previamente, e outras trabalhando menos ou nada mesmo. E de haver pessoas que perderam todo o seu rendimento. Pessoas para quem o ordenado do mês de Março foi o último que receberam com normalidade (para algumas, nem esse foi já normal). Pessoas para quem a manutenção das Medidas (e sua recorrente renovação) implicará a perda do seu rendimento e do seu posto de trabalho. Isto não é Balança. Não é justiça nem equilíbrio.

E penso também no problema das Medidas serem propostas e implementadas por pessoas que não têm o seu emprego ou o seu salário ameaçados.

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Considerando novamente a Balança de dois pratos, com os efeitos benéficos das Medidas num deles, e os efeitos adversos no outro, com que equilíbrio olhará para esses pratos quem as propõe e decide? Qual é a imparcialidade da Directora-Geral da DGS e dos seus técnicos? Têm o seu rendimento em risco? São pessoas que estudam e analisam as consequências económicas, sociais e mentais das Medidas que propõem?

Todos os animais se movem por Motivação. Os seres humanos não são diferentes. Tudo depende dos motivos que nos movem, e do peso relativo deles.

Exemplificando com a situação pandémica actual. Qual será, neste contexto, a Motivação de um homem de 72 anos? Tendo em conta que a taxa de mortalidade por Covid-19 em Portugal é de cerca de 10,5% em pessoas com mais de 70 anos, e que, com essa idade, o rendimento mensal é habitualmente resultante de uma pensão de reforma assegurada, o medo da doença será provavelmente o seu principal motivador.

E se pensarmos numa mulher de 36 anos, que trabalha por conta própria como cabeleireira no seu próprio estabelecimento, pagando uma renda mensal pelo mesmo? Tendo em conta que a probabilidade de ter doença grave em caso de ser infectada pelo vírus SARS-CoV-2 é muito baixa, e que a probabilidade de ficar sem qualquer rendimento e continuar a ter de pagar a sua renda é de 100%, o medo da perda de rendimento é seguramente uma motivação poderosa.

Para que prato de Balança olhará preferencialmente cada um deles?

Tenho propostas.

Proponho que se mantenha a protecção das pessoas com mais de 70 anos, visto ser nessa população que a taxa de mortalidade é mais elevada. E proponho que toda a restante população, com menos de 70 anos, retome a sua actividade habitual, com uso obrigatório de máscara sempre que possa existir contacto a menos de dois metros com outros (para protecção dos outros, e não do próprio, entenda-se). Que as regras que se aplicaram aos supermercados em relação à limitação do número de pessoas por metro quadrado, se apliquem a outros estabelecimentos e instituições, para que possam assim abrir portas. E que a desinfecção das mãos seja uma constante nessas circunstâncias.

Mas proponho outras coisas. Que quem opte por não retomar a sua actividade habitual que o possa fazer. Mas que fique com o seu rendimento reduzido.

E proponho que todos os intervenientes na proposta e decisão de Medidas de Contenção e Mitigação fiquem também com redução ou ausência de rendimento durante a vigência das mesmas.

Talvez assim passemos todos a olhar para os dois pratos da Balança de forma mais equilibrada.

Tendo em conta que o número de novos infectados é falseado pelo critério mais ou menos restritivo dos testes que se fazem, e que mesmo as mortes por Covid-19 podem ser mal classificadas, sugiro que prestemos atenção ao parâmetro que me parece mais fiável de todos: o número de doentes internados em Unidades de Cuidados Intensivos (UCI) com Covid-19. Actualmente, todos os doentes admitidos numa UCI são testados para a doença. E um doente que necessite de UCI tem mesmo de ir para lá. E é por isso que considero que é este o dado a observar com atenção.

E qual é a evolução do número de doentes com Covid-19 internados em UCI no nosso País? Bem, depois de uma evolução tímida entre 18 e 26 de Março (passámos de 18 para 61 doentes), houve uma subida franca na semana seguinte (de 61 para 240 doentes). Nos dez dias seguintes, não houve nenhuma evolução significativa (228 doentes a 12 de Abril). Ou seja, na situação actual, não encontro ninguém sério que se atreva a afirmar que estamos perante o mesmo cenário de Itália ou Espanha.

Encerrámos consultas e exames, já agendados e por agendar. Realocámos médicos e enfermeiros, de serviços e tarefas onde cumpriam a sua missão, para locais e missões diferentes.

Médicos que se encontravam a fazer formação especializada foram chamados de volta ao seu hospital de origem. Formação necessária, programada com esforço e dificuldade, agendada em serviços e hospitais difíceis de reservar, foi interrompida sem se completar, adiada sem se saber para quando nem como.

Doentes com seguimento, tratamentos e exames programados foram informados da anulação desses cuidados. Só se manteria o “inadiável”. E o que é que é “inadiável”, se não há consultas nem exames que nos permitam sabê-lo?

Enfermarias foram esvaziadas de doentes, blocos operatórios encerrados, unidades de cuidados intensivos ampliadas, material oferecido e adquirido, pessoal contratado.

E os doentes em UCI, depois de um aumento de 60 para 240 numa semana, estabilizaram em valores semelhantes nos dez dias seguintes.

Com enfermarias e UCIs à espera de doentes que não vieram. E mantendo encerradas as actividades e cuidados a doentes que já existem e continuarão a existir. A não ser que, subitamente, deixem de ser inadiáveis, porque nada há já para adiar.

Mesmo assim, não vejo nenhuma mudança de estratégia. Nem no País em geral, nem nas instituições de saúde. Muitas clínicas e instituições de serviços médicos mantém-se encerrados (incluindo toda a rede de prestação de cuidados do SAMS), constituindo um caso de evidente Desobediência Civil[1] que o Governo tem optado por ignorar.

No meu hospital, público, mantêm-se encerradas as consultas e exames e continuamos com enfermarias e UCIs vazias ou quase, à espera de uma enchente de doentes com Covid que não vêm. À custa de outros doentes, estes sim já existentes, que vêem adiados sem prazo os seus cuidados, enquanto as suas doenças (que não querem saber do Covid nem do Estado de Emergência para nada), continuam a sua progressão inexorável. Não vale a pena a hipocrisia da preocupação manifestada pela Directora Geral da DGS para com os doentes que adiam os seus cuidados, se foram as próprias recomendações da DGS que permitiram e incentivaram todos estes encerramentos de actividade.

Quando os efeitos adversos de um medicamento são mais graves do que a doença para o qual é proposto, esse medicamento é imediatamente retirado do mercado. Estas Medidas estão a ter efeitos adversos mais graves do que a doença. Estaremos a ser tolos e inconsequentes se permitirmos que permaneçam inalteradas.

Devíamos dançar conforme a música. Ter planos de alteração de actividade e de re-alocação de locais e de profissionais conforme a evolução dos casos. E não antes deles sequer existirem. Mas se a música não toca como pensámos e temíamos que iria tocar (e ainda bem), a verdade é que nós continuamos a dançar na mesma, cegos para o mal que provocamos, e o bem que não estamos a fazer.

[1] A Resolução do Conselho de Ministros, no Artigo 9º, afirma “Estabelecer a obrigatoriedade de manutenção em funcionamento das instalações e dos estabelecimentos referidos no anexo II” e no Anexo II especificam “Atividades de prestação de serviços:(…) Serviços médicos ou outros serviços de saúde e apoio social”. Deveriam ser obrigados a manter-se em funcionamento.