A “marca Portugal”, essa conhecida empresa fundada no Norte pelo senhor Afonso Henriques, que até mereceu estátuas que permanecem por enquanto de pé por esse país fora, continua a existir, não há dúvidas. Que pensaria o conceituado empresário vimaranense da sua presente implementação e projecção no mercado internacional? Quais seriam as suas reflexões sobre a actual concentração das suas actividades no ramo da criação de eventos? Que juízo faria o senhor Afonso Henriques sobre a dinâmica da gestão de quem preside por estes dias à marca por ele fundada?

São questões largamente ociosas e, de resto, irrespondíveis. De qualquer maneira, há duas escolas de pensamento que competem pelos favores da opinião pública. A primeira defende que nunca a marca, apesar dos tempos difíceis que vivemos, teve uma tão pujante representação no mercado. São sucessos atrás de sucessos. Para os filiados nesta corrente, a marca distingue-se pela sua excelência ímpar, que se traduz no lucro dos seus accionistas e no prestígio de que goza na Europa do futebol, das motas e da Fórmula 1. A segunda escola de pensamento adopta uma posição inversa. Para os seus representantes, o conhecido empresário nortenho veria com muito maus olhos o modo como a empresa anda a ser gerida. Não apreciaria, por exemplo, que o milagre que celebremente o ajudou numa altura difícil fosse utilizado para patrocinar eventos sortidos de duvidoso interesse empresarial. O facto é que nunca saberemos ao certo qual o veredicto do fundador. Estamos no domínio do insondável.

O que é seguro é que a “marca Portugal” conhece contradições gritantes. Os velhos, os egrégios avós realmente existentes, morrem como tordos em lugares curiosamente chamados “lares”. E isso apesar de toda a gente, como não se cansa de lembrar a Dra. Graça da DGS, fazer o seu melhor com um saber e uma proficiência impecáveis. Ao mesmo tempo, a sociedade, para não ficar atrás do que se passa no centro do Império, conversa abundantemente sobre o racismo, não vá o resto do mundo julgar que somos uns parolos da pior espécie e que o nosso jornalismo é feito por indivíduos pouco informados e de parcas letras. Não, somos os melhores e podemos falar longamente daquilo de que falam os melhores dos outros. E até mais e mais liricamente. Sobretudo mais liricamente. O lirismo jornalístico é uma das mais sólidas marcas da “marca Portugal”.

É verdade que se pode achar estranho que tão pouco se pense ou fale daquilo que a Dra. Graça crê estar a ser tratado da melhor maneira, a morte dos egrégios avós, e tanto se discorra sobre a questão do racismo, sobretudo na sua variante “sistémica”. Pode, de facto, surpreender. Até porque a teoria do “racismo sistémico” parece feita para dar boa consciência aos racistas empíricos da velha escola. Com efeito, se somos todos racistas, variando apenas o grau em que actualizamos essa nefanda essência colectiva, que razões tem o velho racista empírico para se sentir particularmente culpado do que quer que seja? Não é ele igualzinho a todos nós? Enfim, malhas que o sistema tece…

Seja como for, a “marca Portugal” é fértil em paradoxos. Um daqueles que segundo todas as aparências foi inventado para exercitar mentes lógicas é o célebre paradoxo da Festa do Avante! O mundo inteiro está suspenso do labor intelectual da DGS, que, sem contaminação ideológica alguma ou qualquer interferência externa, mostrará como manter, num espaço fechado, milhares e milhares e milhares de pessoas guardando entre si a tal “distância social” que, por azar, se revelou até agora difícil de obter com números muito mais reduzidos. O saber dialéctico da DGS será imprescindível neste novo desafio que se coloca à “marca Portugal”. A solução do paradoxo da Festa do Avante! será sem dúvida o merecido corolário da grandiosa aventura de pensamento da Dra. Graça Freitas, o seu legado final para a vida do espírito das gerações vindouras. Outros terão super-computadores capazes de inéditas proezas de cálculo. Nós temos a Dra. Graça da DGS. E quem ousará pretender que ficamos a perder?

Não certamente o conhecido empresário nortenho a que aludi no início. A mente do fundador confundir-se-ia certamente com as subtilezas do paradoxo da Festa do Avante! e, mais genericamente, com os vários paradoxos que constituem a existência presente da “marca Portugal”. Mas não duvidemos um só instante que saberia reconhecer a sageza das soluções propostas pela DGS e pelos vários organismos que coordenam os diversos ramos de actividade da empresa por ele fundada. Quer-me até parecer que apreciaria a ambição e a metodologia do combate ao “discurso de ódio” levado a cabo pela ministra Vieira da Silva. Isto para não falar da luta contra o “racismo sistémico”, que, como se sabe, sempre condenou.

Pensando bem, no conflito entre as duas escolas de pensamento que referi acima, é lícito supor que o senhor Afonso Henriques tomaria partido pela primeira, desmentindo os adeptos da segunda. O que ele não daria para ver (pela televisão) a final do torneio da Champions ou mais uma vitória automobilística do cruzado inglês Lewis Hamilton? Tudo isso em solo da “marca Portugal”. O seu peito encher-se-ia de um orgulho vero e legítimo. Talvez até se esquecesse das desventuras dos velhotes nos lares.

A bem da “marca Portugal”.