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Era um dia normal, frio pelas temperaturas negativas, gelado pelos dados epidemiológicos que chegavam. Uma viagem de carro, normal, de todos os dias. Diferente apenas a companhia, um tio muito querido a quem dei boleia.

Para início de viagem e de conversa, a Covid-19. Não podia deixar de ser.

Os mais idosos, como o meu tio, vivem apreensivos com o receio do “bicho pegar” ou levar aqueles que tanto amam. A conversa flui tanto quanto a estrada sinuosa, coberta de geada nas bermas, permite. Partilhamos a viagem com as devidas cautelas, porque o meu tio precisava de comparecer numa diligência em tribunal, fruto de uma burla, à imagem, infelizmente, de muitos outros idosos.

Entre conversa e queixumes sobre a “doença das minas” que afeta a sua capacidade respiratória e os vinte euros que essa incapacidade lhe vale no final do mês, questionou: “És socialista não és, sobrinha?” Respondi imediata e afirmativamente, devolvendo uma questão com surpresa: “Mas porquê tio?” Ele, astuto e matreiro, tendo reparado que tínhamos passado por um cartaz de campanha da Marisa Matias, soltou assim como quem não quer a coisa: “Olha, o PS não tem candidato, vais votar em quem?”

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A resposta já não foi assim tão imediata. Mas foi verdadeira, muito verdadeira. Respondi: “Ainda não sei bem em quem vou votar, mas sei muito bem em quem não voto, tio!”

Ele pegou logo na minha deixa. Falou do desespero da falta de ideias e da falta de seriedade, dos discursos baseados em ressentimento que apostam em colocar cidadãos contra cidadãos, disse mesmo que era “uma imensa desventura” ter alguém no Palácio de Belém que alimenta o ódio, que incentiva o que de pior existe no ser humano. Ri-me com orgulhosa concordância!

Precisamos de um Presidente da República que realce o que de melhor temos, que abra portas para outros mundos, que ajude a escancarar janelas para outros diferentes de nós. Não precisamos de mais muros, precisamos é de mais e melhor comunidade. De conhecer e compreender os outros. Com esse conhecimento vem a esperança, o sentimento de integração e de pertença.

Como que querendo atalhar caminho para um campo que eu não estava a vislumbrar, o meu tio atirou-me com um “olha, eu nunca votei na direita!” Ponto fechado, “eu também não, nem o irei fazer nunca!”, respondi.

Percebi, logo de seguida, ao que ele vinha: “Mas nem sempre votei no PS…”, disse, com voz arrastada de provocação. Armada em espertalhaça, brinquei com ele: “Fugiu-lhe a caneta, tio?”

Levei um saudável sermão. Falou-me que em tudo na vida é preciso mais do que simplesmente ouvir, é preciso escutar o que dizem os outros, pelos seus atos especialmente. As pessoas falam não apenas pela voz, mas com os olhos, com a sua postura, na forma como tratam os outros, comunicam através do que fizeram, e como fizeram, na vida. Mensagem entendida, tio!

Pouco mais de um minuto depois, estávamos no Fundão. Surge outro candidato em mais um cartaz. Sabia que a sua visão, apesar de cansada dos anos e das amarguras de uma vida de grande trabalho, não lhe iria falhar logo ali. Como, de facto, não falhou. Exclamou: “Olha, está ali o João Ferreira, gosto dele.”

Tornei a sorrir: é desta que me vai revelar o voto. É agora, pensei. Mas não. Revelou apenas duas coisas: faz questão absoluta de votar no domingo e que vai votar no João Ferreira ou no Tino (como o apelidou).

Não o questionei mais, não tinha esse direito. Fiquei descansada por saber que vai votar, que o fará com todos os cuidados e recomendações da DGS. E que vai votar bem. Tenho a certeza disso. Ele, nos seus oitenta anos, sabe muitíssimo bem a importância de um voto. Sabe escrutinar, à sua maneira experiente, os candidatos.

Fiquei descansada com ele, porém a minha dúvida persistiu. Em quem vou eu votar no dia 24?

Vou votar. Vou votar em alguém que me represente. Que represente a minha comunidade. Que compreenda este país, este povo e, principalmente, este tempo tão difícil, não só de pandemia, mas de alguma desesperança e desilusão entre os eleitores das democracias ocidentais, de uma certa estagnação do projeto europeu que parece poder colocar em causa os pilares sobre os quais se fundou esta União.

Não vou votar por questões de género ou partidárias, por ondas de apoio no Instagram ou por número de likes no Facebook, não vou dar mais importância ao tópico do momento no Twitter, não vou votar porque alguém aparece mais na televisão ou consegue abrir telejornais.

Vou votar em alguém que traga algo de novo, pretenda algo de bom, saiba transmitir o pulsar da sociedade e agir como promotor de consenso e da boa-vontade.

Quero alguém que não trabalhe para a sondagem, que trabalhe para o povo. O povo que vota a favor, contra ou se abstém. O povo que paga impostos ou que nem isso. O povo com trabalho e sem trabalho. Os que conseguem estar sempre ao sol e os que não conseguem sair debaixo da chuva. Os que podem fazer chegar a sua voz ao poder e os que o poder parece esquecer.

Quero alguém que seja verdadeiro para todos e não apenas útil para alguns.

Já decidi? Ainda não. Lamento. Mas vou votar.

Porque é um direito. Porque é um dever. Porque outros lutaram por este meu direito. Porque não acredito em resultados determinados à partida. Porque quero um homem ou uma mulher totalmente dedicados ao povo. Sem fobias ideológicas ou partidárias, acredito profundamente em algo que nestes dias tem sido mais falado com a tomada de posse do 46º presidente dos Estados Unidos da América. Num regime como o nosso, em que o povo escolhe diretamente o Governo, quero um Presidente eleito que ajude a que verdadeiramente tenhamos e sintamos ter um “government of the people, by the people, for the people” referido por Abraham Lincoln no discurso de Gettysburg.