Aqui há uns tempos, Vasco Pulido Valente escrevia que, a continuarem assim as revelações sobre a corrupção de grande escala, o sentimento de se viver num film noir, o género célebre do cinema americano dos anos quarenta, era praticamente inescapável. A comparação é, é claro, justíssima. Nos films noirs uma das regras fundamentais é existir a percepção de uma ameaça vaga, difusa, cujos contornos e autores não são perfeitamente identificáveis. E, ao mesmo tempo, dizem os especialistas, sentimentos de paranóia, duplicidade, ansiedade, insegurança e medo.

O género conta com imensos filmes memoráveis, mas há uma história que ilustra particularmente bem um dos seus aspectos. Quando Howard Hawks estava a filmar The Big Sleep (1946, em português: À beira do abismo), baseado no romance de Raymond Chandler, telefonou a Chandler para lhe perguntar se um determinado personagem tinha sido assassinado ou se se havia suicidado. Resposta de Chandler: não sabia. A indeterminação não é aqui obviamente o resultado de desleixo de Chandler (verosimilmente o único autor de policiais – e não, não me estou a esquecer de Hammett – a entrar claramente dentro da grande literatura): faz parte da própria natureza do livro.

Não sei se as notícias recentes, com, depois de todas as outras, as últimas coisas que se dizem sobre Ricardo Salgado e Manuel Pinho, induzem essa percepção e esses sentimentos, mas, quase apetece dizer: deveriam. E deveriam ainda mais face à ameaça latente de, a verificar-se a não recondução da procuradora-geral da República Joana Marques Vidal, o combate à corrupção – o combate a uma espécie de sociedade secreta que age no interior da nossa e que se rege por leis que são contrárias às que vigoram na nossa – abrandar de intensidade, rigor e determinação. Claro que Ricardo Salgado continua a afirmar que nunca na vida corrompeu ninguém. Mas creio que nem ele próprio julgará que, para a opinião comum, o propósito pareça credível. A não ser que pretenda por aí dizer que nunca iniciou ninguém na corrupção, tendo os personagens com que lidou, o deletério José Sócrates em primeiro lugar, tido experiências prévias dessa natureza. Neste último caso, é verdade, a afirmação ganha até uma certa plausibilidade.

Ontem, o presidente do PS, Carlos César, declarou que o PS estava “envergonhado” com o que se terá passado nos governos de Sócrates. Como, espera, “todos os outros partidos” estarão com os malandros das suas respectivas cores. Logo se disse que a declaração representava uma ruptura com a distância que o PS tinha até agora mantido no caso, para não falar dos extravagantes propósitos recentes de Arons de Carvalho sobre a naturalidade de longamente se viver, como Sócrates, de dinheiro emprestado. Ignoro se é verdadeira ruptura e a vergonha certamente que nestes casos se recomenda fortemente. Mas pretender, sem cláusula nenhuma, que tal vergonha é partilhada com “todos os outros partidos” que tiveram casos semelhantes é no mínimo absurdo.

O que se passou com Sócrates é comparável ao que se passou em todos os outros partidos? Há algum caso semelhante ao que se passou no PS, não apenas por causa de Sócrates, mas também pelo próprio PS, que se rendeu inteiramente a ele, com requintes de submissão e obscena adulação? Carlos César pensa sem dúvida antes de falar: é pena que pense o que pensa, porque pensa nesta matéria pessimamente. Em matéria de auto-críticas, já vi exercícios mais convincentes.

Longe de mim pretender que a corrupção é uma propriedade exclusiva do PS. Todos os outros partidos, a começar pelo PSD, têm culpas no cartório. Mas o caso do ex-primeiro-ministro José Sócrates é excepcional a todos os títulos e o PS tem direito a uma culpa exclusivíssima no capítulo que não se compadece com generalização nenhuma. O grau de falta de confiança e de insegurança que tal exemplo criou no vulgar cidadão não tem comum medida com outros casos.

O PS, de resto, continua ainda hoje a promover na sociedade um sentimento de incerteza que, por aparentemente não vir com força à luz do dia, não deixa por isso de existir. É uma coisa de natureza completamente diferente da outra, obviamente, mas o sentimento de incerteza existe à mesma. Refiro-me à construção da geringonça, esse expediente de derrotado que nos governa. O que une o PS aos seus apoios, o Bloco e o PC, para além da pertença a uma entidade em parte mítica chamada “esquerda” e de um certo número de reflexos discursivos arcaicos parcialmente partilhados? Como se sabe, e como certamente se verá muito claramente em breve, pouquíssimo. O que há, de facto, é uma soma de divergências que não são conjunturais mas estruturais, como o Bloco e o PC não deixam de repetir, ao mesmo tempo que não tiram disso (vergonha não têm) nenhuma das conclusões lógicas que se impõem.

Que tipo de confiança merece este arranjo? Que a geringonça continue a funcionar não desmente de modo algum essa incerteza e o sentimento de insegurança concomitante. Pelo contrário: a manutenção do acordo, o seu parcial “bom funcionamento”, não revela nada de natural nesta harmonia fictícia: revela o grau do embuste e a falsidade essencial do arranjo, cada vez mais notórios à medida que o tempo passa. O governo vive de uma mentira fundadora, de uma ambivalência política original, muito longe das combinações passadas entre outros partidos. A médio prazo, poderá isto não ter consequências extremamente danosas para a sociedade? Por definição, não pode. Não deve esta situação inspirar-nos insegurança e medo? É claro que deve.

Sob a capa enganadora do quase permanente riso de António Costa, o País vive ansioso na suspeita. Mais uma vez, como nos films noirs. Isso não é patente? À superfície, não. Mas há muita realidade para lá da superfície. E o medo pode ser irracional quando o seu objecto é inofensivo. Acontece que, nestes casos, os objectos são tudo menos inofensivos.