O Dr. Costa é um grande prestidigitador. Porém, tal como toda a gente suspeitava desde 2015, não é possível enganar toda a gente durante todo o tempo. É certo que não faltam idiotas úteis que, nas redes, nos jornais e na academia, tecem loas a tão grande líder e à sua política. Garantem-nos que o Dr. Costa é não só a ponta da espada do centro-esquerda europeu, mas também muitíssimo respeitado internacionalmente. Dizem-no sem se rirem, nem deles próprios, nem das figuras tristes que o Dr. Costa faz quando nos representa. Os ditos idiotas úteis trabalham porque disso depende a sua relevância mediática e, em muitos casos, benefícios materiais para compor os magros salários que o magnífico modelo económico que o Dr. Costa e companhia impõe.

O OE de 2022 poderá ser o início do fim do reinado socialista. Depois de vários anos a ameaçar cair devido a uma crise orçamental, este ano pode verdadeiramente constituir o fim do governo. Mesmo que o governo não caia de imediato, o OE marcará, sem dúvida, uma inflexão na elite que nos pastoreia. Em 2015, a força da Geringonça, largamente baseada numa coligação anti-PSD e Passos Coelho, deu a António Costa uma ilusão de poder que nunca chegou verdadeiramente a ter. Costa ignorou um princípio básico da política portuguesa: os governos minoritários – típicos, de resto, no nosso país – apenas funcionam quando têm pontes abertas à esquerda e à direita. A prazo, os governos minoritários acantonados no seu bloco ideológico têm muitas dificuldades em aprovar as suas medidas no parlamento.

Os parceiros de coligação à esquerda aceitaram dançar o tango por puro cálculo estratégico. No entanto, se nos primeiros anos da solução governativa de Costa os benefícios que PCP e BE obtinham eram evidentes, neste momento é-lhes cada vez mais difícil continuar a apoiar Costa. O caso do PCP é especialmente paradigmático. O partido tem sido penalizado eleitoralmente desde a entrada na Geringonça. Porém, em minha opinião, e ao contrário da maioria da opinião publicada, creio que a Geringonça tem ajudado o PCP. A penalização do partido não decorre do abraço de urso de Costa. Decorre, outrossim, das alterações estruturais na composição demográfica e social do país, que são inevitáveis, com ou sem Geringonça.

O que mudou nas negociações do OE de 2021 é simples. Depois de anos em que obteve benefícios para entregar às suas clientelas, o PCP tem recebido cada vez menos do governo como contrapartida à assinatura do OE. As declarações de Jerónimo de Sousa são interessantes. Desde pelo menos meados do Verão que o líder comunista tem vindo a insistir na necessidade de cumprir o OE de 2021. Isto é, o voto do PCP de Novembro de 2020, viabilizando o OE deste ano foi a assinatura de um contrato em papel molhado. António Costa prometeu um leque de benefícios para conseguir o apoio do PCP, inscreve-os no OE, mas, com o truque das cativações, simplesmente não cumpriu o que havia combinado. Neste cenário, parece cada vez menos provável que o PCP seja de novo enganado por Costa. Para quê pagar o preço reputacional de apoiar um governo desgastado quando os benefícios de políticas públicas prometidos em sede de OE nunca serão cumpridos? A saída desta situação é evidente: não aceitar os custos quando não se colherá benefícios.

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