Rádio Observador

Conflito na Ucrânia

A nova lei de Putin: baixas militares passam a segredo de Estado

Autor
167

Se esta lei não tem nada a ver com a guerra da Ucrânia, que operações especiais as Forças Armadas da Rússia poderão vir a realizar?

O Presidente da Rússia, Vladimir Putin, assinou um decreto que proíbe a publicação nos órgãos de informação e na Internet de informações sobre baixas das tropas russas em operações especiais. A partir de agora, trata-se de mais um “segredo de Estado”.

Semelhante lei existiu na era comunista e foi revogada em 1993.

A oposição apressou-se a acusar o dirigente russo de, com essa lei, tentar encobrir a participação militar russa na Ucrânia.

“Esta lei reflecte e é consequência  do medo perante a verdade. Esta verdade tornou-se evidente para todos os que compreendem o que está a acontecer nas relações entre a Rússia e a Ucrânia, entre a Rússia e o mundo” – declarou Lev Chlosberg, deputado regional russo que denunciou as primeiras baixas entre comandos russos no país vizinho.

Segundo a oposição russa, desde o início do conflito no Leste da Ucrânia que já morreram pelo menos 200 soldados e oficiais russos.

O Kremlin desmente essa versão. Segundo Dmitri Peskov, porta-voz do Presidente Putin, a “lei sobre o segredo de Estado” não está ligada à situação na Ucrânia, mas trata-se de “melhorar a legislação no campo dos segredos de Estado” e para que “o regime de secretismo corresponda melhor aos interesses do Estado”.

Se esta lei não tem nada a ver com a guerra da Ucrânia, que operações especiais as Forças Armadas da Rússia poderão vir a realizar?

Há algumas semanas atrás, as tropas ucranianas capturaram dois oficiais que reconheceram estar no activo ao serviço da GRU (espionagem militar) e que participavam numa “operação de reconhecimento”, mas Moscovo insiste em que eles tinham passado à reserva no início do ano passado. Volta-se a repetir a história dos militares russos que vão combater para o Leste da Ucrânia durante “as suas férias”.

Além de encobrir as baixas militares russas no Leste da Ucrânia, esta lei poderá ser útil se o conflito se alastrar à Transdnistria, território separatista russófono na Moldávia.

Na Transdnistria encontra-se instalado um forte contingente militar russo que serve de garantia do cessar de fogo entre os separatistas e as tropas moldavas. Até à semana passada, a Rússia podia enviar novos soldados e oficiais por via férrea, através do território da Ucrânia, que faz fronteira com a Transdnístria, ou por via aérea, através de Chichinau, capital da Moldávia, mas os dois países decidiram proibir a passagem de tropas e armamentos russos pelos seus territórios.

Moscovo respondeu com a reabertura de um antigo aeródromo militar que existe na Transdnístria para transportar, por via aérea, armamentos e homens para lá, mas a Ucrânia respondeu com a instalação de sistemas de defesa antiaérea S-300 e ameaça abater os aviões que entrem no seu espaço aéreo sem autorização.

Ora isto poderá levar os separatistas pró-russos, com o apoio militar de Moscovo, a conquistarem um corredor terrestre entre a Rússia e a Transdnístria através do Leste da Ucrânia.

As televisões e analistas políticos russos já começaram a preparar a opinião pública para esse cenário, tanto mais que o Presidente ucraniano, Petro Poroshenko, decidiu dar mais um passo que irritou solenemente Moscovo: nomeou governador da Região de Odessa, que faz fronteira com a Transdnístria, Mikhail Saakachvili, antigo Presidente da Geórgia que dirigia esse país em 2008, quando as tropas russas invadiram esse país e apoiaram a criação de dois novos “Estados independentes”: Abkhásia e Ossétia do Sul.

Saakachvili tornou-se cidadão ucraniano para poder ocupar esse cargo.

Normalmente, o Kremlin suporta mal este tipo de “afrontas”.

Seja como for, o conflito no Leste da Ucrânia continua, embora com menor intensidade, e as conversações de paz estão praticamente congeladas. Por isso, o reacender do conflito pode acontecer a qualquer momento.

P.S. Porque será que Vladimir Putin veio em defesa do seu amigo Joseph Blatter, Presidente da FIFA? O dirigente russo deu uma entrevista especial para sublinhar a coragem de Blatter e criticar os EUA por tentarem alargar a sua legislação a todo o mundo. A julgar pelos comentários numerosos da televisão russa, até parecia que Blatter era mais “uma vítima do imperialismo norte-americano”.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Rússia

A Cortina de Ferro volta a fechar-se? /premium

José Milhazes
249

Os cientistas estrangeiros, quando de visitas a organizações científicas russas, só poderão utilizar gravadores e máquinas copiadoras “nos casos previstos nos acordos internacionais".

Rússia

Chega de brincar à democracia! /premium

José Milhazes
360

A polícia e os tribunais russos viram o que ninguém viu e vários manifestantes e candidatos a deputados foram acusados e serão julgados por "organização de desordens em massa", podendo ficar presos.

Ucrânia

Mais umas eleições falsas em Donbas

Inna Ohnivets

A Rússia não quis a paz em 2014 e não quer em 2018. A realização destas eleições fraudulentas é um sinal claro de que a Rússia optou por prolongar o conflito durante mais anos sob o mesmo cenário. 

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)