Era comum, enquanto o Orçamento estava a ser elaborado na Praça do Comércio, os restantes ministros desdobrarem-se em recados nos órgãos de comunicação social. Era, mas há muito que não se via. Na era da troika por razões óbvias. No primeiro Governo de António Costa porque todos pareciam perceber o valor eleitoral de dar ao PS o selo de responsabilidade financeira, ao mesmo tempo que iam distribuindo dinheiro pelos comensais do Orçamento, sem se preocuparem com os efeitos nos serviços públicos.

Mas agora o PS já conseguiu atingir o estatuto de “responsável financeiro” e Mário Centeno corre o risco de passar de grande activo do PS para passivo. O ministro das Finanças mais popular da história recente, que garantiu votos ao PS, é agora um herói que se pode transformar em vilão. Nada que não tivéssemos visto no passado com outros protagonistas, especialmente ministros independentes. Centeno parece agora ser descartável, numa altura em que o Governo parece estar a querer fazer uma gestão a dois anos.

Aquilo que já se ia ouvindo nos corredores transformou-se em notícia no Negócios, com a assinatura de Manuel Esteves e em editorial de Manuel Carvalho no Público. Um dos casos é protagonizado pelo Ministério da Administração Interna. Eduardo Cabrita quer que o seu orçamento aumente 5%, Centeno só quer dar mais 1%, noticiou o Público.

Várias vezes se criticou aqui a política orçamental seguida nos últimos quatro anos. Uma critica dirigida ao caminho que se escolheu para reduzir o défice público, designadamente no que diz respeito ao ritmo da reposição salarial, que poderia ter sido mais lento para, ao mesmo tempo, ir investindo em equipamento nos serviços públicos. Desperdiçaram-se igualmente recursos, que fazem muita falta, ao reduzir o horário de trabalho para as 35 horas. E, do ponto de vista da democracia, assistimos a uma enorme falta de transparência na gestão das contas públicas, por via de uma gestão com cativações. Ao mesmo tempo que tudo se centralizava no Ministério das Finanças, alimentando ainda mais a desresponsabilização de direcções-gerais e gestores das empresas do Estado.

Fez-se uma gestão política pura e não de política económica. Nada de estrutural foi realizado e, pelo contrário, agravou-se o problema da rigidez da despesa – despesas com pessoal mais despesa social -, o que nos fará regressar ao pesadelo das medidas da era da troika, se uma crise financeira nos voltar a assolar.

Mas, dito isto, o objectivo foi atingido. Só não temos ainda excedente orçamental porque “parecia mal” aos parceiros que apoiaram o Governo. Na gestão política pura e dura foi um sucesso. Mas não se resolveu nenhum problema e essa é uma consciência que apenas subsiste, queremos crer, na cabeça de Mário Centeno e eventualmente na do primeiro-ministro. A dinâmica que vinha do Governo de Pedro Passos Coelho e que permitiu alguns dos bons resultados está a desparecer e a hora da verdade começa a chegar, uma verdade que será tanto mais violenta quanto for o abrandamento da economia ou até uma crise.

Talvez por tudo isso Mário Centeno gostaria de ter deixado de ser ministro das Finanças. Mas ficou e agora tem de gerir a sua herança, com um PS menos disponível para uma austeridade à Centeno, na ilusão que com as contas públicas equilibradas o problema está resolvido. E na expectativa, o PS, de que tem um horizonte de dois anos para conseguir regressar a eleições e obter a desejada maioria absoluta.

Resta-nos esperar que António Costa tenha a consciência de que o problema das finanças públicas não está resolvido. Uma coisa é aproveitar os elogios que a Comissão Europeia nos faz sobre o caminho que fizemos, outra coisa é acreditar que resolvemos os problemas que temos. A dívida pública é ainda demasiado elevada para considerarmos que estamos no “porto de abrigo” uma vez referido por Centeno. A dívida total do país atinge o astronómico valor de mais de 700 mil milhões de euros. Como se nada disto existisse, a confiança dos portugueses está outra vez a pecar por excesso, como se tem visto nestes últimos dias de consumismo desenfreado, a relembrar 2010.

Mário Centeno tem pela frente a sua prova de fogo. Terá de ter uma enorme coragem e, especialmente, ser suficientemente livre para lutar pela disciplina financeira. Ao ponto de estar disposto a bater com a porta. O Orçamento 2020 que o Governo nos vai apresentar em meados de Dezembro vai revelar até onde vai Centeno e qual o apoio que ainda tem do primeiro-ministro.