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Rússia

A síndrome de Istambul chegou a Moscovo /premium

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O Kremlin teria um sério teste à sua popularidade se permitisse a realização de eleições municipais em Moscovo e do governador de São Petersburgo limpas e transparentes. Mas isso não deverá acontecer.

O Kremlin fica sempre muito preocupado com eleições fora de casa, “preocupando-se” seriamente com a forma como elas decorrem, mas, no interior do país, mais concretamente em Moscovo e São Petersburgo, o principal é que nem sequer nos boletins de votam apareçam adversários políticos, além dos obedientes comunistas e “russos justos”.

São tantas as notícias nos órgãos de informação controlados pelo Kremlin sobre as eleições parlamentares antecipadas que se realizam na Ucrânia no próximo domingo que se fica com a impressão de que o país vizinho faz parte da Rússia. Não há um movimento de Vladimir Zelinski, Presidente ucraniano, que passe despercebido, nem sequer a cor dos calções com que foi tomar banho.

E claro que os dirigentes russos acenam com grandes descontos no preço do gás russo ao consumidor ucraniano se este der o voto ao “Bloco da Oposição – Pela Vida”, ligado a Viktor Medvetchuk, compadre de Vladimir Putin.

As sondagens dão uma vitória folgada ao partido “Servos do Povo” de Vladimir Zelinski, restando saber apenas se esse partido irá conquistar a maioria necessária para formar governo sozinho ou terá de coligar-se.

Quanto às eleições em casa, o Kremlin teria um sério teste à sua popularidade se permitisse a realização de eleições municipais em Moscovo e do governador de São Petersburgo limpas e transparentes. Mas, pelo que se vai observando, tudo será feito para que na capital russa e na segunda maior cidade do país não se repita as experiência de Istambul e Ancara, que votaram maioritariamente contra o Presidente Erdogan.

A popularidade do partido “Rússia Unida”, principal base de apoio de Vladimir Putin, atinge mínimos históricos. Segundo o Centro de Estudos da Opinião Pública (VTZION), essa força política conquistaria 32,2% dos votos. No Outubro passado, perdeu três eleições regionais. É real a possibilidade de a “Rússia Unida” perder a maioria na Duma (Assembleia Municipal) de Moscovo.

Para evitar semelhante possibilidade, alguns dos candidatos dessa força política apresentam-se como “candidatos independentes” para se distanciar da imagem cada vez mais negativa que tem a “Rússia Unida”.

Outra forma de “vencer” as eleições é não permitir que os candidatos da oposição apareçam nos boletins de voto e aqui vale tudo, sendo o meio mais comum a acusação de “falsificação de assinaturas”. Nove candidatos, alguns dos quais apoiados por Aleksei Navalny, um dos mais conhecidos dirigentes da oposição a Putin, já ficaram de fora nesta etapa alegadamente por terem feito isso.

De nada valeu a Ilia Iachin, outro líder da oposição que foi acusado desse crime, levar à Comissão Eleitoral cidadãos que confirmaram que as suas assinaturas não foram falsificadas.

O Kremlin, através do seu porta-voz Dmitri Peskov, lava as mãos como Pôncio Pilatos e aconselha os opositores a recorrer aos tribunais, que são tão independentes do poder como a Comissão Eleitoral.

Habitualmente, as autoridades russas tentam passar a ideia de que estes opositores não passam de um grupo de marginais sem qualquer apoio social. Mas, se assim é, coloca-se uma questão muito simples: o que leva o Kremlin a impedir que eles participem nas eleições? A sua participação até daria mais legitimidade ao actual regime na Rússia.

Segundo Lilia Shevtsova, comentadora política, “em Petersburgo e em Moscovo, o poder escolheu outra coisa: renunciar à imitação de eleições e aos jogos de democracia. Renuncia de forma aberta e convincente. E não se trata de um acontecimento a nível local”.

Para Vladimir Putin e a sua corte, o principal é não permitir fissuras nas actuais estruturas do poder, não correr riscos num momento em que o descontentamento é cada vez maior entre a população.

“E a reacção do Ocidente?” – pergunta Lilia Shevtsova e responde: “Está-se nas tintas. O Ocidente já está pronto para conversar com Moscovo e há muito que tem saudades de diálogo!”.

Noutras épocas, o Ocidente pagou bem caro por essas políticas, a História que o diga.

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