Orçamento do Estado

Acreditam que desta vez vai ser diferente? /premium

Autor
741

Desde 2015, passamos mais uma vez pela fase em que um governo socialista multiplica os peixes do orçamento. Acreditam que desta vez vai ser diferente?

Parece que é a altura de a nação examinar o orçamento. Mais importante, porém, seria talvez perceber o padrão a que se reduziu a história portuguesa nos últimos trinta anos: após cada ajustamento orçamental, a cargo da direita, vem um governo do Partido Socialista reiniciar a despesa, até ao apertão financeiro seguinte. Desde 2015, concluído o resgate da troika, que passamos mais uma vez pela fase em que um governo socialista multiplica os peixes do orçamento. Acreditam que desta vez o fim, quando chegar, vai ser diferente do que foi em 2001, quando Guterres nos desejou boa noite e boa sorte, ou em 2011, quando Sócrates chamou o FMI?

Por detrás destes ciclos, em que a direita limpa e o PS suja, está um problema por resolver há três décadas: desde os anos 90, Portugal não conseguiu aproveitar a integração monetária europeia e a globalização para expandir a sua economia ao nível a que foi possível no tempo da EFTA (1960) ou nos primeiros anos da CEE (1986). É verdade que em 2008, houve a chamada “grande recessão”. Mas antes e depois, estes foram tempos em que a maior parte do mundo recuperou o atraso em relação aos países mais ricos. O que Portugal conseguiu fazer, nesta época, foi aproveitar o crédito barato da moeda única para financiar a diferença entre aquilo a que aspirávamos e aquilo que esteve ao nosso alcance. A dívida mede essa diferença: é uma das maiores do mundo.

Podemos discutir as origens desta dificuldade. Há quem argumente que o problema está no facto de a nossa mão-de-obra barata, com a globalização, ter deixado de ser a vantagem que foi em 1960 ou em 1986. Certamente. Mas o facto é que nunca procurámos outras vantagens. Pelo contrário: em cima da relativa falta de qualificações, deixámos acumularem-se uma burocracia intratável, uma justiça lenta, e um fisco punitivo e incerto. Azar, ignorância? Nem uma coisa nem outra. Tudo correspondeu muito cinicamente a uma política: a da protecção das clientelas do Estado e das suas rendas, protagonizada sobretudo pelo Partido Socialista. O PS provou como um pequeno clã de amigos e de famílias – sempre os mesmos desde 1995 — podia controlar o país pelo simples expediente de concentrar os recursos nos grupos eleitoralmente interessantes, sem que o sacrifício de tudo o mais, incluindo os sacrossantos serviços públicos, como o SNS nos últimos três anos, alterasse as sondagens.

Não, o problema não está apenas na mão-de-obra, mas no facto de a nossa democracia nunca ter conseguido, por si só, gerar uma alternativa com um mandato forte a este tipo de governação socialista, nem mesmo quando José Sócrates ameaçou tornar o seu domínio completamente asfixiante e suspeito. Só a relutância dos credores externos em continuar a emprestar tem provocado alternância em Portugal. Mas a obra dos governos de emergência, sempre sitiados pelo alarido dos interesses ofendidos, tem sido demasiado temporária ou reversível.

O que nos deve inquietar não é apenas o facto de uma crise mundial, seja por causa de Trump, do petróleo ou da Itália, nos poder apanhar na vulnerabilidade de sempre. Isso seria sem dúvida mau, mas o pior de tudo, um dia, não vão ser as aflições financeiras, por enquanto amenizadas pela UE, mas a impressão das oportunidades perdidas. Pensem nisto: é muito provável que nunca Portugal tenha beneficiado, em teoria, de tantas condições para atingir o nível de riqueza requerido pelas nossas aspirações e compromissos. Em vez disso, andámos todos a servir os Mários Nogueiras e os Ricardo Salgados do regime socialista. Deveríamos e poderíamos ter feito muito melhor nos últimos trinta anos. Não fizemos.

Todos queremos saber mais. E escolher bem.

A vida é feita de escolhas. E as escolhas devem ser informadas.

Há uns meses o Observador fez uma escolha: uma parte dos artigos que publicamos deixariam de ser de acesso totalmente livre. Esses artigos Premium, por regra aqueles onde fazemos um maior investimento editorial e que mais diferenciam o nosso projecto, constituem a base do nosso programa de assinaturas.

Este programa Premium não tolheu o nosso crescimento – arrancámos mesmo 2019 com os melhores resultados de sempre.

Este programa tornou-nos mesmo mais exigentes com o jornalismo que fazemos – um jornalismo que informa e explica, um jornalismo que investiga e incomoda, um jornalismo independente e sem medo. E diferente.

Este programa está a permitir que tenhamos uma nova fonte de receitas e não dependamos apenas da publicidade – porque não há futuro para a imprensa livre se isso não acontecer.

O Observador existe para servir os seus leitores e permitir que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia. Por isso o Observador também é dos seus leitores e necessita deles, tem de contar com eles. Como subscritores do programa de assinaturas Observador Premium.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Eleições Europeias

Salve-se quem puder /premium

Rui Ramos
347

É este o governo que temos: não tem nada a dizer ao país, enquanto conjunto dos cidadãos, mas tudo para dizer aos lóbis e grupos de interesse que lhe parecem importantes para continuar a mandar. 

Eleições Europeias

Não há eleições europeias /premium

João Marques de Almeida

O parlamento europeu serve sobretudo para reforçar o poder dos grandes países, cujos partidos dominam os grupos políticos e, principalmente, as comissões parlamentares se fazem as emendas legislativas

Política

O caso Berardo e o regresso a Auschwitz

Luís Filipe Torgal

A psicologia de massas, manipulada pelos novos cénicos «chefes providenciais», vai transfigurando a história em mito, crendo num «admirável mundo novo», depreciando a democracia, diabolizando a Europa

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)