Uma pessoa sai pouco mais de 24 horas de um país e quando regressa parece que todos ensandeceram. Pior: parece que todos nos tomam por tontos capazes de engolir os mais desconchavados contorcionismos.

Estão a ver do que falo. Quinta-feira passada, quando ao fim do dia tomei um avião para um rápido compromisso em Cabo Verde recolhiam-se as canas de um foguetório parlamentar em torno de uma obsessão da extrema-esquerda doméstica, para quem é melhor um doente morto do que um doente tratado num hospital PPP. Sábado, quando aterrei, aterrei também em cima da ameaça de demissão do primeiro-ministro se for aprovada pelo Parlamento uma lei que, parece-me, não é no seu fundamento muito diferente de uma que o partido do Governo votou no final de 2017.

Leio os jornais, revejo as imagens teatrais que passaram nas televisões, e apetece-me voltar para Cabo Verde. Há limites para a pantominice.

1. Mas vamos por partes, pois nada me entristece mais do que assistir a debates e ler análises que se deliciam com os dribles mas pouco ou nada se ocupam do que está realmente em causa no grande jogo. Ou seja, no país.

Primeiro ponto: os 9 anos, 4 meses e 2 dias reivindicados pelos professores. Já escrevi, reescrevi e repito: não têm razão. Não o fiz ontem. Fi-lo em Novembro de 2017. Antes de o PS aceitar inscrever na Lei do Orçamento de 2018 uma frase onde lhes dava razão. Não vou repetir argumentos, vou apenas sublinhar que não são os de Mário Centeno, pois quem arranjou dinheiro para pagar o disparate das 35 horas ou o dislate do IVA da restauração sabe o mesmo que eu sei: que essas medidas também foram injustas, que no primeiro caso levaram à degradação dos serviços públicos e a um aumento da despesa que ele nem se atreve a admitir, e no segundo não se traduziu num cêntimo de vantagem para os consumidores.

Segundo ponto: as contas de Mário Centeno são enganadoras pois não deduzem ao que o Estado iria pagar a mais aquilo que iria receber a mais em impostos e outras contribuições (como se mostra neste texto de Nuno André Martins, se tivermos como referência os encargos líquidos com as progressões na administração pública, o valor real a suportar pelo Estado não chegará a 60% dos números de que se tem falado). Ou seja, são “números de arremesso” que têm um objectivo político (já lá vamos) e um significado orçamental: faço parte dos que não acreditam na solidez do actual processo de consolidação orçamental, dos que acompanha os alertas do Conselho de Finanças Públicas e dos que suspeitam que há lixo escondido debaixo dos tapetes do torreão nascente da Praça do Comércio e por isso acha demasiado etéreo o Plano de Estabilidade entregue em Bruxelas. Por outras palavras – Mário Centeno sabe melhor do que ninguém que caminha sobre gelo fino, que o seu brilharete é fruto de uma conjugação excepcional de factores favoráveis e que já atirou canga que baste para a próxima legislatura. Ou seja, “não há dinheiro” porque nunca haverá mesmo dinheiro enquanto mantivermos o Estado paquidérmico que temos, sendo que o Governo da geringonça só o tornou ainda mais paquidérmico.

2. Se tivéssemos estadistas em vez de politiqueiros era por estes pontos que começávamos. Mas não temos. Temos farsantes, uns maus, outros sem vergonha. Duas fotografias revelam tudo. Duma já quase tudo se disse, a outra estranhamente pouca gente incomodou.

A primeira é a do grupo de deputados do PSD, CDS, PCP e Bloco que “cozinham” – literalmente “cozinham”, linha a linha, palavra a palavra – os termos da projecto de lei que seria votado na comissão de educação. Esta promiscuidade da direita com a extrema-esquerda, mesmo sendo para essa extrema-esquerda se abster numa lei proposta à direita, revela um oportunismo de circunstância que, como escreveu Miguel Pinheiro, deixa a direita sem “sem argumentos nem discurso”. E o pior, na minha perspectiva, é que pelo menos o PSD (via David Justino) há muito defendia os “9 anos, 4 meses e 2 dias”, mesmo que condicionados à evolução da economia, sem se aperceber de enorme injustiça que isso comportava. Porque é que o fazia? Suspeito porque também ele, PSD, é cada vez mais um partido de funcionários do Estado, pelo menos no seu aparelho, pouco sensível à sociedade civil.

A segunda foi orgulhosamente distribuída, via Instagram, pelo Governo e mostra-nos a reunião do “núcleo de coordenação política do Governo” reunido na residência oficial do primeiro-ministro. Acontece porém que, à mesa, está sentada Ana Catarina Mendes, que não faz parte do Governo, antes é secretária-geral adjunta do PS. Ou seja, é como se fosse tudo deles, não há o mínimo de respeito pelas instituições, PS e Governo são uma e a mesma coisa, tanto faz reunir em São Bento como no Largo do Rato. Podiam fazê-lo discretamente, mas até colocam fotos no Instagram. Desfaçatez não lhes falta – mas convenhamos que a indiferença da cidadania, pelo que me foi dado registar, é igualmente assustadora. Fazem de nós tolos e nós deixamos.

3. E este é mesmo o mote para a terceira e última parte deste meu desabafo.

Comecemos pelo PSD e pelo CDS que se enfiaram numa camisa de onze varas por absoluta infantilidade e irresponsabilidade. É verdade que o próximo governo pode, de acordo com a sua proposta de lei, passar toda a legislatura sem recuperar um só dia da antiguidade dos professores, pois nada ficou calendarizado, mas não sei se é melhor passar por irresponsável financeiro, se andar a prometer o que não se tenciona cumprir.

Mas o verdadeiro número de circo foi o protagonizado por António Costa. “De mestre”, aplaudiram os comentadores quase unanimemente. “Assim talvez vá à maioria absoluta”, chegou-se a alvitrar. Certo, seguro, é que desta forma o primeiro-ministro já metera no bolso o “eleitorado do centro” e esvaziava o PSD (coitado, como se este não estivesse já suficientemente esvaziado no que a eleições legislativas diz respeito). Tudo isto é capaz de ser verdade na bolha de Lisboa e talvez chegue a Cascais, mas duvido que seja assim entre quem não está sempre ligado à política ou ao twitter.

Houve de resto um comentarista – e não de direita – que divergiu deste coro, numa sentida fúria que o levou a uma confissão desassombrada: “Infelizmente, tudo em António Costa é tática, nada em António Costa é convicção. Isso é coisa que toda a gente de dentro do PS me avisa há anos.” Pois é Daniel Oliveira, pois é, e só estranho que tenhas levado tanto tempo a chegar lá, pois os sinais estão por todo o lado.

Ora esse é precisamente o grande problema desta manobra de dramatização. Todos sabemos – até porque o próprio já o confessou publicamente – que António Costa tem uma obsessão com as contas públicas. Não por convicção, claro está, pois ele até se manifestou contra as regras europeias, mas uma obsessão eleitoralista porque foi por causa de os portugueses desconfiarem das más contas do PS que ele perdeu as eleições impossíveis de perder de 2015. Foi para limpar essa mancha que andou a enganar os parceiros da geringonça com cativações e cortes sem paralelo no investimento público ou que forçou todos os ministros a “serem Centeno”.

Agora, já em cima da corrida para as Europeia, deu o bónus dos passes sociais – e aí sem pestanejar sobre os milhões que vão custar. Mas as agulhas das sondagens não mexeram, pelo contrário. Era preciso carregar na tecla das “contas certas”. O caso dos professores foi a oportunidade que não desperdiçou. Temos ladainha para as próximas semanas, talvez meses. Com os tais “números de arremesso” que ninguém pode verificar.

Acontece porém que não se veste a pele de uma espécie “Passos II” depois de anos a diabolizar o Passos autêntico. Por uma questão de autenticidade.

António Costa pode encantar os treinadores de bancada com os seus dribles e não duvido que baralha facilmente os cálculos de Rio e mesmo de Cristas, mas nenhum daqueles miríficos eleitores “do centro” que ele agora quer cativar sabe – e jamais poderá saber – que Costa vai comprar. O que “virou a página da austeridade”, como repetiu anos a fio? Ou aquele que, afinal, apenas disfarçou a austeridade, como agora confessou o seu ministro das Finanças? O pai pródigo dos passes sociais ou o pai tirano de professores e enfermeiros? O que um dia envia um documento ao Bloco e ao PCP a acabar com as PPP na Saúde ou aquele que, depois, já não acaba com as PPP? O que no final de 2017 deixava o PS aprovar uma alínea a prever a recuperação de todo o tempo de congelamento de carreiras, ou aquele que se demite se esse princípio for aprovado? O bonacheirão para quem tudo corre sempre às mil maravilhas ou o guia cauteloso que avisa para as armadilhas que o caminho esconde?

Não se pode ser tudo e o seu contrário, mas há quem se encante com políticos assim. Eu, um velho chato, é que sempre achei que eles são apenas homens do poder pelo poder que acabam a fazer mal à democracia.

E depois, caramba, que futilidade: demitir-se para provavelmente ter as eleições no mesmo mês de Setembro? Ficar o em gestão até lá, perdendo-se quatro meses de governação? Deitar para o lixo leis quase prontas e que há dois dias o próprio Costa dizia serem estruturantes (habitação, saúde, trabalho)? E tudo isto sacrificado como quem arrisca o resto do dinheiro numa derradeira jogada de póker?

Definitivamente, não é o meu estilo nem penso que sirva o país.