Rádio Observador

Legislativas 2015

António Costa, príncipe do Bem

Autor
959

António Costa não se poupou a uma boa série de auto-elogios que o apresentavam como o cúmulo das virtudes governativas. Haverá quem aprecie o género. A mim, deixa-me sempre um bocadinho envergonhado.

Pois lá vi o debate. E, custa-me confessar, não fosse por uma coisa ou outra, António Costa teria o meu voto a 4 de Outubro. Porque o belo e diversificado pacote de promessas que ofereceu me pôs sonhador de sonhos belos que, a serem realizados, me davam um jeito que não digo. Ainda por cima falou com notória distanciação em relação a Sócrates por várias vezes, até com alguma rispidez a roçar o desprezo, como quem se quer desembaraçar de uma tralha incómoda. A acreditar nele, Sócrates pertence definitivamente ao passado para o PS. Por mim, apesar de algumas dúvidas sobre a grandeza moral da atitude, acho bem. E fez isso com um grande sentimento de convicção e energia verbal. E esteve agressivo, tomou a iniciativa e essas coisas todas que se disseram, o que, do estrito ponto de vista circense, merece aplausos. Parabéns!

Mas vamos à uma coisa ou outra. A primeira delas é ninguém saber muito bem de onde é que vem o dinheirinho todo para as belas promessas, as que referiu no debate e as que, a um ritmo intenso, tem andado a divulgar nas últimas semanas. Costa, como de costume, não foi excessivamente claro sobre o modo como o vai arranjar. E vai ser bem preciso arranjá-lo para acabar com a famigerada “austeridade” e nos pôr a viver já para o ano como antes da crise. O que, parecendo que não, abre o espírito a algumas dúvidas. Como é que é possível alguém, tendo o país vivido o que viveu, exibir uma tão manifesta indiferença face a uma questão que é tudo menos despicienda: como arranjar o dinheiro para cumprir essas promessas? António Costa, adepto do argumento de autoridade, assegura que os seus sábios lhe garantiram a pés juntos que é tudo exequível. É? Se fosse assim eu clonáva-os e, deixando os originais aqui, por puras razões de patriotismo, mandava os duplos para as altas instâncias europeias. São também muito precisos por lá e fica-nos mal sermos egoístas.

Depois, há a questão da história da troika. Contradizendo a atitude anteriormente mencionada em relação a Sócrates, e fingindo não reparar nisso, Costa parece pensar que a culpa toda da vinda da troika cabe a Passos Coelho e nenhuma ao PS de Sócrates e dele. Ora, a imaginação necessária para acreditar nisso atinge proporções verdadeiramente extraordinárias. Toda a gente conhece a história com grande detalhe, incluindo o conflito entre Sócrates e Teixeira dos Santos, um episódio que, por várias razões, é impossível de esquecer. Tal facilidade em reescrever a história ultrapassa de longe os costumes habituais da política e não augura, é o mínimo que se pode dizer, nada de bom. Costa bem pode afirmar que o PS assume as coisas boas, as coisas menos boas e as coisas más, de Mário Soares a Sócrates, mas abre, muito claramente, certas excepções a essa regra de ouro. E excepções de muito, muito peso.

E quais as razões pelas quais Passos Coelho teria sido o principal fautor da vinda da troika a Portugal? Um desejo, um desejo profundamente perverso, um desejo neoliberal de destruir o Estado Social. Esta coisa das palavras (neste caso: “neoliberal”) é fascinante. Uma boa palavra pode em muitos casos servir para tapar a realidade, não há nisso nada de novo. O que é surpreendente é que consiga sempre produzir esse efeito em algumas cabeças. Portanto, foi a mente perversa de Passos Coelho, habitada pela mais torpe das ideologias, que o levou a aplicar uma dose razoavelmente brutal de sofrimento aos portugueses e a levar a cabo políticas que não o tornaram, durante anos, a criatura mais bem-vinda por esse país fora? O mal devia ser mesmo radical, para o cegar às consequências danosas para a sua própria pessoa que daí adviriam. E se tentássemos pensar que a origem dessas políticas residia na própria situação de Portugal, que correspondiam a necessidades reais? Não explicaria tudo melhor? António Costa acha que não. A coisa, para ele, saiu mesmo da quase diabólica vontade de Passos Coelho. Uma crença que, é triste dizer, não abona muito a favor da racionalidade de António Costa.

Como não podia deixar de ser, a indicação da perversidade ideológica prolonga-se na acusação de carácter. Passos mente, Passos esconde as contas, Passos é um passa-culpas. E, designado o mal, cabe também designar o bem, o que, além de útil, pode ser um prazer quando somos nós que o encarnamos. O que acontece com António Costa, que não se poupou a uma boa série de auto-elogios que o apresentavam como o cúmulo das virtudes governativas. Haverá certamente quem aprecie o género. A mim, deixa-me sempre um bocadinho envergonhado. Além disso, representar o bem implica alguma intransigência. Por isso, enquanto Passos apelou pelo menos duas vezes a entendimentos em matérias específicas, Costa recusou-os de forma mais ou menos taxativa. Um príncipe do bem, ainda por cima em pleno exercício de entusiasmar as hostes, não se compromete com o mal.

Foi isto, do que vi, o que me meteu mais medo. Por isso não falei do que disse Passos Coelho, que me pareceu, com uma excepção ou outra, correcto e verídico. Não esteve a representar um papel. E Costa, isto é essencial, esteve. Não estou a dizer, é claro, que António Costa, ou o personagem a que deu vida, não acredite no que diz. A crer nas aparências, ele até parecia imune às dúvidas que aqui e ali se adivinhavam em Passos. Estou a dizer que ele estava ali a representar um papel e que precisava desesperadamente de representar esse papel para se salvar. E foi aquilo que tradicionalmente se considera um bom desempenho nestes papéis (agressividade, iniciativa, até uma certa propensão à chacota) que pôs muito boa gente – Marcelo Rebelo de Sousa, é claro, em primeiro lugar – logo a falar da “vitória” de Costa. Não digo que, circunscrita a coisa ao seu aspecto circense e histriónico, não faça sentido falar assim. Simplesmente, não me parece ser o mais elevado exemplo de juízo político. Nem a mim nem, aposto, à maioria das pessoas. De gente sumamente hábil em transformar-se num personagem que navega pela superfície das coisas, longe dos atritos da realidade, a maioria das pessoas está farta.

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