1. Durante grande parte da campanha para a liderança do PSD, Rui Rio atacou as alegadas “trapalhadas” de Santana Lopes. Afinal, parece que Rio também não está imune às trapalhadas. Vejam o que aconteceu desde o Congresso do PSD. Logo no Congresso, a eleição da Comissão Política correu mal. Recebeu a segunda votação mais baixa, depois da de Luís Filipe Menezes, na história das lideranças do PSD. Além disso, a sua composição foi uma desilusão. Os elementos de qualidade, como David Justino, Morais Sarmento, Castro de Almeida e Mota Pinto, não constituem qualquer novidade. As novidades, Elina Fraga e Salvador Malheiro, constituem dois potenciais problemas para Rio. Deixando agora de lado as investigações sobre ambos, a escolha da antiga bastonária da Ordem dos Advogados parece ter sido uma provocação gratuita ao governo de Passos Coelho, como se viu com a enorme assobiadela que ouviu no Congresso. A escolha de Malheiro confirmou a dependência de Rio em relação aos caciques locais do partido. Todos os antigos líderes do PSD também ficaram a dever votos a cacique locais, mas a diferença é que Rio gosta de se apresentar com um discurso novo, sublinhando a “ética na política”. Lamento, mas até ao momento, não passou no escrutínio. O comportamento é o mesmo do passado. Não há qualquer abertura do partido à sociedade civil, e a ética não passa de propaganda barata.

A escolha do novo líder do grupo parlamentar do PSD constitui uma sucessão de trapalhadas que ainda não acabou. É óbvio que a maioria dos deputados do PSD não está a facilitar a vida ao novo líder, mas é a Rio que compete construir a unidade no PSD. Não basta fazer listas conjuntas com Santana Lopes para o Conselho Nacional. É preciso muito mais. Rui Rio falhou completamente no caso da liderança do grupo parlamentar. Por que razão um político com a experiência de Rio não deu uma oportunidade a Hugo Soares? Teria sido um sinal fortíssimo de respeito pelo grupo parlamentar, que elegeu o antigo líder com uma ampla maioria, e uma forte contribuição para a unidade do partido. Se Rio tratasse a unidade do PSD como uma prioridade, teria permitido a continuidade de Hugo Soares adiando uma avaliação da sua prestação para daqui a seis meses. É deste modo que se devem comportar os verdadeiros líderes. Se passado o período de avaliação, não estivesse satisfeito teria toda a legitimidade para o substituir. Rio que se orgulha de trazer uma cultura de diálogo para a política nacional, está disposto a fazer acordos com o governo e não é capaz de colaborar com os deputados do seu próprio partido. É extraordinário.

Rui Rio estará convencido que a revolta dos deputados será temporária por causa das listas para as eleições de 2019. Talvez tenha razão. Mas pode também acontecer que, por causa desse receio, a maioria dos deputados faça tudo para afastar Rio da liderança do partido. Esta guerra entre a liderança do PSD e o grupo parlamentar é ainda mais estranha no actual contexto da política portuguesa. A construção da geringonça elevou o parlamento a uma posição central do sistema político. Rio quer negociar com um PM cuja legitimidade vem inteiramente do parlamento, mas ao mesmo tempo ostraciza os seus deputados.

A escolha dos temas para chegar a entendimentos com o governo também é incompreensível para a maioria dos portugueses. A decentralização e a reforma do sistema político nada interessam à vida dos portugueses. O estado da justiça só preocupa aqueles que estão a ser investigados (ou os seus amigos), quanto à maioria dos portugueses, desconfio que acham que a justiça funciona melhor agora do que no passado. No caso da reforma da segurança social, Rio tem toda a razão mas nunca conseguirá chegar a qualquer entendimento sobre a matéria com este governo. Por que carga de água, não propôs entendimentos sobre a redução da carga fiscal, nomeadamente para as empresas, e sobre medidas para acelerar o crescimento económico? Essas questões é que são importantes para o nosso país.

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No meio desta aproximação ao governo, Rio já colocou o PSD numa posição subordinada em relação ao PS. Continua a a sugerir que poderá viabilizar um governo minoritário do PS. Mas Carlos César já disse muito claramente que os socialistas nunca estarão disponíveis para viabilizar um governo minoritário do PSD. Rui Rio vai aprender rapidamente que, no essencial, as esquerdas continuarão a tratar o PSD do mesmo modo que o fizeram quando Passos Coelho estava na liderança.

2. Agora que Passos Coelho abandonou a liderança do PSD, gostaria de salientar a sua capacidade para captar figuras com talento e carreiras brilhantes fora do nosso país. Entre essas pessoas, apontaria Vitor Gaspar, cujo valor foi reconhecido em Frankfurt, em Bruxelas e agora no FMI; Miguel Poiares Maduro, com uma carreira académica brilhante na Europa e nos Estados Unidos tal como no Tribunal de Justiça Europeu; Carlos Moedas, cujo desempenho na Comissão Europeia tem sido elogiado por todos em Bruxelas e noutros países europeus; e Álvaro Santos Pereira, com uma posição de destaque na OCDE. Nenhum deles precisa da política para ter sucesso e, como se tem visto, o seu valor é muito bem reconhecido fora do nosso país.