“Quando estava em Nova Iorque, havia no meu hospital um programa que se chamava ‘adopte uma Avó’, o que me pareceu do maior interesse e preferível às opções ‘hamster’ ou ‘coelho da Abissínia’”. Cito João Lobo Antunes, num artigo com quase vinte anos, que escreveu na condição de avô consorte, condição com a qual agora me identifico inteiramente por também ter tido a sorte de herdar onze netos por casamento.

“Adopte uma Avó” americana é um conceito tão terno, real e actual como o português “A Avó veio trabalhar’, projecto criado em 2014 pela jovem designer Susana António e pelo psicólogo Ângelo Compota. Cada uma destas iniciativas interpela por convocar todas as gerações a apoiarem-se mutuamente. Adoptar uma avó implica dar passos no sentido de escolher uma mulher mais velha entre muitas condenadas à solidão e, porventura à exclusão, para construir com ela laços de ternura e proximidade. Por outro lado, convencer a avó a voltar a trabalhar, optando por fazer coisas de que gosta muito, também revela cuidados e aposta na valorização, permitindo que os netos olhem para as mães das suas mães, e dos seus pais, com outros olhos.

Num par de décadas as famílias deixaram de ser o que eram e os papéis dos pais e das mães passaram a não se distinguir tanto como no passado. Uns e outras dividem mais tarefas, partilham mais funções e diluem aquilo que outrora se convencionou ser tipicamente masculino e feminino. Muitas mães fazem o papel de pai, assim como muitos pais fazem facilmente o papel de mães. Só os avós não mudaram. Tal como escreveu João Lobo Antunes no artigo que comecei por citar, o avô continua a ser avô e a avó, avó. Ou seja o papel de cada um não se confunde com nenhum outro. Mas, mesmo assim, houve evoluções assinaláveis.

Há mais avós a reformarem-se tardiamente, há menos avós com casas onde se junta toda a família e também há mais avós divorciados ou recasados. Isto, para não falar dos viúvos, claro, mas essa fatalidade atravessa todos os séculos. Os tempos mudaram, mas os avós continuam a ocupar um lugar significativo na vida dos netos e têm grande influência na construção da sua personalidade. Mesmo aqueles que não estão presentes nem tentam ser imprescindíveis, têm um impacto enorme nos netos. Seja porque não se apropriam deles, seja porque realmente moram longe ou de alguma forma estão distantes, basta que existam para serem referências fortes. A sua influência pode ser directa, mas também pode ser exercida por interpostas pessoas, nomeadamente através das suas histórias de vida, contadas por terceiros, ou pelos exemplos que deram e aquilo que deixaram como herança.

A esmagadora maioria das crianças e adolescentes gosta dos seus avós e vê neles uma referência para a vida. Gostam dos suplementos de mimos que recebem nos primeiros anos, adoram as suas atenções e a paciência com que os avós tentam ir ao encontro dos seus gostos e necessidades, mas também admiram a sua fortaleza e a sua memória, quando lhes contam histórias do passado e se revelam resilientes, pois muitos avós mais velhos atravessaram tempos de escassez ou doenças a que resistiram com atitude combativa.

Claro que haverá sempre avós que estragam netos, deseducam e perdem a cabeça, assim como também sempre houve e haverá avós indisponíveis, sem paciência nem criatividade. Há de tudo, certamente, mas o que me faz escrever são os bons avós. Aqueles que marcam para a vida (os outros também deixam marcas, mas destrutivas) e deixam no coração dos netos traços indeléveis que eles levam consigo e, muitas vezes, tentam imitar.

Nesta lógica impressiona sempre conhecer avós com abertura de espírito para acolher cada um dos seus netos. Esta maneira de acolher todos, fazendo sentir a cada um que é especial, é fabulosa. Conheço muitíssimos avós capazes de individualizar a ligação que têm com todos os netos, tratando-os de forma absolutamente única. Mais, fazendo cada um acreditar que é o seu neto preferido.

Na vertigem dos dias, no corre corre em que vivemos de manhã à noite, nem sempre somos capazes de olhar para os filhos com esta mesma abertura. Primeiro, porque não temos distância crítica, depois porque as exigências de pais para filhos são muito maiores e finalmente porque o stress atravessa sempre a relação parental, mas pode estar muito diluído na relação entre avós e netos. De tal maneira que por incrível que pareça uma senhora de oitenta anos consegue aceitar mais facilmente o rabo de cavalo e os piercings dos netos, ou as tatuagens das netas, que os seus próprios pais. E quem diz cabelos compridos, tatuagens e piercings também diz outras circunstâncias mais complexas, agravantes ou fracturantes.

Conheço muitos avós que aceitaram melhor as opções pessoais e profissionais dos netos do que os próprios pais. Falo de questões abrangentes que vão de vocações e cursos superiores a opções familiares; de temas que têm a ver com homossexualidade, mas também com vidas alternativas e fora do padrão. Ou, pelo menos, distantes das expectativas dos pais. Felizmente os bons avós já viveram muito, já viram tudo e já sabem o que de verdade importa. Estes avós não se desperdiçam em braços de ferro por pormenores. Que lhes importa o cabelo apanhado em rabo de cavalo se conhecem bem o neto e sabem que ele é solidário e revela a sua humanidade de formas criativas? Ou que interesse têm as calças rasgadas da neta, se ela mostra que gere bem as prioridades essenciais? E por aí adiante.

Volto ao João Lobo Antunes de há vinte anos para um sublinhado final: “Não estou ainda graduado na ‘arte de ser avô’ porque ainda tenho pouca experiência na matéria, mas gostaria de partilhar convosco algumas observações. A primeira é que os laços de ternura que nos unem aos netos são de outra cor: mais rosados, mais sorridentes, mais amoráveis. Os laços da paternidade não têm cor e atam-nos os filhos contra o peito, chegando-os tão perto de nós, que quase não nos deixam ver como tão depressa crescem e, quando bruscamente se soltam e voam para longe, ficamos mudos de supresa. São também laços de missão: nutrição, educação básica (não escolar), saneamento básico, polimento social, condicionamento moral – enfim, tudo o que é necessário para sobreviver na selva”. Ainda que nesta selva existam mães leoas e pais leões, é bom saber que os avós também são reis.