Tem acesso livre a todos os artigos do Observador por ser nosso assinante.

1 Foi um certificado. Tão claro e inequívoco que tornou o júbilo (?) da direita perante a sua vitória (?) – onde foram buscá-la? – um episódio constrangedor: diga-se ou escreva-se o que se quiser ou convier, a direita saiu esfrangalhada de Janeiro de 2021 (sim, retenham a data). Não terá concerto tão cedo: o igualmente confrangedor espectáculo da noite eleitoral – discursos politicamente incompreensíveis, excitações indigestas, imperdoáveis imaturidades políticas, percentagens medíocres – foi um pré-aviso de catástrofe mesmo se já anunciada há largos meses (anos?). E os day after, enfeitados com “cartas” sulfúricas e recados hostis, foi outro: revela o que se suspeitava: o quadro de mediocridade é tão ressentido que o motor da vingança começou já indisfarçavelmente a carburar. Tudo más noticias.

2 A bem dizer ganhou Marcelo Rebelo de Sousa, ponto. Veremos para quê, veremos como. Houve um alívio açucarado que subiu aos céus do país, alguns comentadores pareciam “au bord des larmes”, os adversários travestizaram-se de rendidos, só faltou irem a Fátima. Agradecer o milagre que nunca esteve para não ocorrer. Não ironizo, constato. O mérito desta vitória real e transversalmente desejada pelo país, não me impedirá a constatação. Foi aliás um serão dominical que apesar da sua pobreza política exigia tanta observação – não é contraditório – que temo até que tenha passado desapercebido que os já semi-publicamente posicionados candidatos à sucessão de Marcelo o fazem com a autorização e a bênção do seu ícone. Eis o que não deixa de ser interessante. Tanto certificado: depois de uma direita já certificada pela esquerda e de uma liderança de direita à espera de ser certificada – como ajudante – pela esquerda, agora aterraram candidatos a presidente certificados pelo próprio.

E tudo isto tão complacente, tão trágico, tão derisório: um país a cair aos bocados, uma pandemia tão cruel onde já nem se pode cuidar dos vivos nem enterrar os mortos, uma ausência de compaixão, uma inteira falta de horizonte. Mas sim, houve pelo menos alguém que esta noite compreendeu isto muito bem: o Presidente da República. Quem atentasse no seu rosto cansado e no olhar inquieto ao discursar, na sua linguagem gestual, nas duas máscaras, no percurso solitário por Lisboa (o Chefe do Estado não tem motorista? Nem alguém que cozinhe para si? Assessores que lhe tivessem evitado o quase demencial passeio pela cidade a que o país assistiu estupefacto?) teria alcançado o tamanho da sua real aflição. Tem razão. E sofrer sozinho dói mais. Julgo ser o caso.

3 Não sei se André Ventura escreveu às televisões ou telefonou à extrema esquerda a agradecer a “certificação” que lhe deram através da parte considerabilíssima de votos que lhe coube directamente remetidos por elas  – media e esquerda radical. Mas deveria agradecer: como se deixaram capturar assim por alguém recém chegado a política e com 1% de votos? Como foi possível, por exemplo, que devido a uma graçola apatetada de “batons”, centenas de portugueses tivessem pintado a boca de escarlate? Quantos votos ofereceu a Ventura a reportagem – faltam-me os adjectivos – da SIC sobre o Chega? Abrevio: poucas vezes se viu na política uma estratégia que conduzisse ao exacto contrário daquilo para que foi gizada, tão obsessiva foi ela na imbecilidade gratuita da perseguição, difamação, condenação, manipulação. Ventura foi tratado como um assassino além de que o jornalismo lidou com ele como se estivesse num tribunal, em regime e registo acusatório — punitivo. Nunca encarnando o papel de medianeiro que face a plateia do país questionasse um actor político (mesmo que ele não tivesse nada para dizer). Enquanto isto prosseguir Ventura crescerá em votos e não haverá – com as duas/três excepções, sempre as mesmas – jornalismo nem livre, nem inteligente, nem útil. Nem decente, que é o pior de tudo.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

4 Mas há pior e era aqui que eu queria chegar (pedindo desculpa ao leitor por ter levado três parágrafos a aterrar no meu ponto). O pior é que tudo isto que se vive hoje politicamente no espaço à direita do PS – um indesatável nó – ter sido tão (tão!) previsível. Não foi só a “media” nem duas candidatas presidenciais pouco inspiradas que deram honras de cidade a Ventura. Não: a imensa responsabilidade desse direito de cidade foi-lhe certificada, de há longuíssimos meses para cá, pelo PSD e pelo CDS. Ainda não tenho claro se o fizeram por inércia, por fraqueza política, por distração (há casos), por pura inconsciência. Inclino-me para uma preguiçosa ignorância sobre a importância real de algumas bandeiras do Chega. Isto é, uma clamorosa ignorância sobre a razão da escolha daquelas concretas bandeiras políticas.

Mês após mês, debate após debate, intervenção após intervenção, Ventura tem vindo a denunciar um mal estar real que em qualquer circunstância – repito, em qualquer circunstância – teria que ter sido prioritariamente, obrigatoriamente (bem) acolhido pelo CDS e pelo PSD. Em vez de definitivamente arrumado numa gaveta que dizia por fora “politicamente incorrecto – não mexer” (dos ciganos ao “sistema”).

E assim sendo, tivemos o enlevo com que Rui Rio tenta desastradamente dançar valsas há anos com o PS, ou que virevolteia entre falar só para o centro esquerda ou só para a direita, numa confusa interpretação do que sempre foi o insubstituível lugar do PSD na política e na sociedade portuguesa. (hoje não é nenhum, ou quase). Testemunhámos depois a desgovernação de Assunção Cristas no CDS: entontecida pela sua votação autárquica em Lisboa? Mal aconselhada pelos seus pares na escolha dos pontos cardeais ideológicos do CDS? Demasiado “ocupada” com um debate político-parlamentar exclusivo entre ela própria e António Costa? Não sei. Mas sabemos todos que a aventura culminou na passagem dos 15 ou 16 deputados que contava o CDS quando ela o ganhou, para os 4 ou 5 com que o deixou. Seguiu-se, após um congresso altivo e tempestuoso, um líder jovem, promissor e descomprometido com este passado – Francisco Rodrigues dos Santos — incapaz porém e, aparentemente, de prometer um futuro aos seus, enquanto se debate com um presente ingrato.

Claro que a Iniciativa Liberal trouxe frescura e novidade e nesse sentido pode ter atraído gente do CDS e prejudicado o seu líder (também ele mal tratado pela media que sempre lhe preferiu barões mais mediáticos), mas seja como for, o Chega cresceu e não só devido às ajudas “externas” e ao talento e argúcia de quem o anima. Não: cresceu porque tinha de crescer. Tivessem sido reflectidas, acolhidas e audivelmente discutidas as suas razões e desfraldadas as suas bandeiras pelo centro direita e pela direita; tivesse havido um comprometimento por parte de quem de direito perante os milhares de portugueses que progressivamente se iam sentindo à “margem” da cidadania e sem sombra de representação pública ou política e… outro galo teria cantado.

(Já agora uma nota a propósito, depois posso esquecer-me: acaso este naufrágio ocorreria com Passos Coelho no PSD?

5 E finalmente: se há responsabilidades partidárias na debacle deste espaço político, no crescimento do Chega, na falta de oposição à indecência dos abusos do Governo socialista já só pendurado em Belém, que dizer das imensas responsabilidades da sociedade civil? Da mais abúlica, inoperante, indolente das sociedades civis? E as (supostas) elites? As associações, os organismos, as instituições, os movimentos ou o que for , que guardem ainda uma réstia de fôlego independente do governo e do PS? Vendo a ausência de oposição parlamentar desistiram do seu papel cívico?  Desinteressaram-se? Não lhes faz impressão este estado de coisas? Ou é melhor estar calado e fingir que não se vê? Disfarçar e estar sempre de bem com Deus e com o diabo? Talvez seja isso. Deve ser isso: em Portugal ou se vive do Estado ou se tem medo.

País submisso.

6 Não é de estranhar que tenhamos chegado ao tal indesatável nó. Sabem qual? Um dia terá de se governar com o Chega sem se poder governar com o Chega.