(…) no céu um risco branco, Dmytro K. no posto de comando prepara o disparo, recebe as coordenadas do veículo de radar, fixa o tiro e lança o míssil Buk M-1, a que a Nato chama SA11 Gadfly, um belo pássaro com 70 kg de explosivos na cabeça e que chegará ao alvo a uma velocidade de quase três vezes a do som: pam pam pam, e depois…

Caem anjos do céu.

Do voo MH370 da Malaysian Airlines, a meio do percurso entre Kuala Lumpur e Pequim, depois de um simples “boa noite” do comandante dirigido aos controladores aéreos, nem mais um sinal. Nada. Na noite escura, a meio de um oceano hostil, não se sabe quando nem onde nem porquê, 239 pessoas mergulham em direcção ao esquecimento e à escuridão. Anjos.

Anjos, também, nos aviões do 11 de Setembro, corpos em queda infinita, homens e mulheres que Caronte não censura, e cujo fim, o dia final e derradeiro, chega sem avisar, de surpresa, no mais inocente e inesperado dos cenários. Morrer às 8h da manhã em plena Manhattan atingido por um avião? God, so stupid.

Anjos ainda, acreditem, as crianças de Gaza e da Síria, os inocentes do Sudão, as vítimas dos narcotraficantes do México, os chacinados nas Filipinas, os esfaqueados na estação de Kunming, no sudoeste da China.

O que vai, afinal, na cabeça dos perpetradores? Crendo-se investidos na ira do Senhor, portadores do fogo divino das ideologias ou das identidades, não veem pessoas, gente ou anjos no bojo dos aviões, nos diferentes andares das torres gémeas, nas cidades fronteiriças do norte do México, em Gaza, só alvos designados por Maomé, símbolos do inimigo a obliterar, odiados baluartes de soberanias ocupantes. E com estupor achar-se-ão face à “ribeira triste de Aqueronte” juntamente com todos os que “(…) morrem na ira do Senhor (…)” pois ali “(…) não passa nunca uma alma boa” (Divina Comédia, na tradução de Vasco Graça Moura). Esses que ferem com suas mãos acreditando ser o instrumento de Deus, morrem afinal na ira do Senhor.
Anjos caídos.

Dante Alighieri, na Comédia citada, refere-se amiúde a anjos. Os bons, os maus, os neutros. Mas os revéis, os que contra Deus se revoltaram, foram pelo Senhor expulsos do céu:
A estes que agora caem, inocentes vítimas do mal que Arendt chamou de absoluto e burocrático mas que é sobretudo sinistro e maquiavélico, põe-lhes Deus a mão por baixo e leva-os ao paraíso onde o seu sacrifício, involuntário e brutal, se lhes torna em doce reencontro, com ambrósia e mel.

Mas não é deles que vos quero falar; nem dos outros a que chamei perpetradores, os que se explodem, explodem, emboscam, atiram e matam, os Dmytros ao comando dos Gadfly, estúpidos de mais, malvados de mais, um pouco menos que humanos porque manipulados, marionetas dos do poder, dos que mandam, dos que não se explodem mas fazem explodir, dos que não emboscam mas fazem emboscar, dos que não matam mas mandam matar; destes vou-vos falar agora.

São os manipuladores; quase sempre, não dão a cara. Não se assumem responsáveis por guerras, guerrilhas, ódios e vinganças, pela estupidez que varre o globo. Não sentem sequer remorso quando caem anjos do céu. Por mor de si próprios, gerem ganância e lucro fácil, gerando e alimentando os conflitos, em tráficos diversos, das armas às drogas, passando pelos humanos. São os barões disto e daquilo, à cabeça de exércitos de miseráveis, que manobram os Buks e as bombas traiçoeiras; os que, em busca de poder fácil, estimulam com demagogia separatismos e violências gratuitas, para se promoverem, tornarem chefes, receberem prebendas, comendas e honras militares.

Às vezes, raras vezes, são indiciados e presos. Sofrem em vida a humilhação do opróbrio alheio, ocasionalmente universal. Quando regressam à liberdade, e regressam quase sempre, espera-os um resto de vida descansado e rico, graças aos milhões reservados em várias off-shores. A maior parte, contudo, escapa à justiça terrena. Eles não sabem, nem sonham, que acabarão num dos infernais círculos de Dante, onde inutilmente aguardarão pelo fim do sofrimento.

Mas há outros além dos perpetradores e dos manipuladores. Refiro-me aos que, podendo, nada fazem. Aos que conhecem os responsáveis sem os nomear, escrevem em jornais e falam em telejornais sobre práticas censuráveis com respeito e desculpa, aprovam o tráfico de armas e fecham os olhos ao tráfico de drogas ou de pessoas, aceitam práticas e comportamentos que encorajam o flagelo. São os coniventes.

Dante, nas palavras em português do nosso poeta, descreve-os assim: “(…) Vão misturados ao molesto coro/dos anjos que não foram nem revéis/nem fiéis a Deus, senão ao próprio foro./Por mor beleza, o céu expulsa-os; eis/que a acolhê-los o inferno não se atreve:/seriam glória aos réus de eternas leis (…)”.

Fiéis ao próprio foro, eis como melhor podem ser descritos. Somos nós, muitos de nós, mesmo que por vezes o não reconheçamos.

Perpetradores, manipuladores, coniventes. Sempre que um anjo cai, é por causa deles. É por nossa causa.

Professor da Católica Estudos Políticos