Sabemos que o surgimento das ciências sociais no século XIX/ século XX, vem associado a vários filósofos, nomeadamente Durkheim, Weber, Marx, Comte, que, em virtude das mudanças sociais e questionamentos mais frequentes, consideraram que estas deveriam gozar da mesma verificabilidade que as chamadas ciências “exatas”. Também a Doutrina Social da Igreja (DSI), com Leão XIII e a Encíclica “Rerum Novarum” surge como forma de resposta a mudanças e situações sociais novas no mundo, nomeadamente a revolução industrial. O Papa Francisco e a sua vertente social e ecológica não é mais do que um corolário desta doutrina.

Como “terceira via” ao comunismo e ao liberalismo selvagem, surge então o humanismo cristão. Têm estes ensinamentos a finalidade de fixar princípios, critérios e diretrizes gerais no que toca à organização política e social dos povos e nações. Trata-se de um convite à ação. A finalidade da DSI é, em suma, “levar os homens a corresponderem, com o auxílio também da reflexão racional e das ciências humanas, à sua vocação de construtores responsáveis da sociedade terrena” (João Paulo II, Sollicitudo Rei Socialis, 1987).

João Paulo II afirma na encíclica “Fides et Ratio” (sobre as relações entre a fé a razão – 1998) que “na verdade, (a fé) vê, na filosofia, o caminho para conhecer verdades fundamentais relativas à existência do homem. Ao mesmo tempo, considera a filosofia uma ajuda indispensável para aprofundar a compreensão da fé e comunicar a verdade do Evangelho a quantos não a conhecem ainda”. Mais à frente diz, “Tanto no Oriente como no Ocidente, é possível entrever um caminho que, ao longo dos séculos, levou a humanidade a encontrar-se progressivamente com a verdade e a confrontar-se com ela. É um caminho que se realizou — nem podia ser de outro modo — no âmbito da autoconsciência pessoal: quanto mais o homem conhece a realidade e o mundo, tanto mais se conhece a si mesmo na sua unicidade, ao mesmo tempo que nele se torna cada vez mais premente a questão do sentido das coisas e da sua própria existência”.

Se a filosofia é “a mãe de todas as ciências” e pode encetar um diálogo frutuoso com a fé, esta é também outra forma de conhecimento, porque não as ciências sociais realizarem o mesmo diálogo? Tal como as ciências chamadas “exatas”, as sociais e humanas usam o método científico como base para as suas conclusões. A diferença é que estas estudam a vida social dos indivíduos e grupos humanos. Podem as ciências sociais  provar a existência de Deus ou as suas evidências seguem no sentido contrário? Se ciência significa “conhecimento” e se as várias ciências pretendem descrever e conhecer melhor o mundo e as pessoas, pode a fé ajudar nesta compreensão ou é incompatível? Pode o conhecimento do transcendente revelar o “homem”, tal como Pilatos dizia de Jesus Cristo, “Ecce Homo”, (“Eis o homem”), ou a fé é algo que é meramente parte da prática privada de cada um?

Para debater este tema, eis que surge pela primeira vez em Portugal um ciclo de Jantares-Conferência, organizado pelo Centro de Espiritualidade Dehoniana e a PDB Consulting, com a primeira conferência já no próximo dia 17 de Outubro. Conta com um painel de luxo de profissionais de cada ciência social e humana, para nos ajudar nesta reflexão. Desde a história, a filosofia, a gestão, a psicologia, mais do que teoria, gostaríamos de ouvir das suas bocas como veem o papel da fé na compreensão da “sua” ciência e vice-versa. Em que medida a fé os ajuda a compreender a “sua” ciência melhor e, mais, exercê-la melhor no dia a dia ou são campos distintos e não comunicáveis? Por outro lado, essa ciência que os auxilia na procura da verdade, na demanda do conhecimento do homem, que alarga a compreensão das relações e problemas humanos e seus grupos, podem iluminar o intelecto no sentido de os aproximar do mistério? Por fim, em que medida este diálogo nos ajuda a melhorar a nossa vida e as nossas relações?

O Pe. Leão Dehon, fundador da Congregação dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos), deu uma especial ênfase do seu trabalho ao estudo e divulgação da DSI. Datado de 1894, o “Manual Social Cristão” de Léon Dehon constitui, porventura, “um dos primeiros e mais autorizados comentários à Encíclica papal “Rerum Novarum”, de 1891, reconhecido de resto pelo próprio pontífice Leão XIII que por várias vezes lho exprimiu mediante calorosas palavras de reconhecimento” (Amaral, António (2018). Léon Dehon: personalismo e ética social-cristã no séc. XIX. In:. CULTUM. Excursos de Hermenêutica, Política e Religião. Covilhã: Editora LabCom.IFP, 235-254).

Muitas mais questões são pertinentes e cabe a estes convidados formulá-las e interpelar-nos com um tema, num tempo em que os “estudos” são lei para compreender tudo, mas que apenas nos suscitam mais perguntas e colocam-nos na demanda de mais respostas. Numa era da “meditação”, “rezar na era da técnica”, como dizia Gonçalo M. Tavares, pode ser uma ajuda?

A pedra de toque é a presença de todos e a partilha de ideias. Que cada um traga as suas questões para os convidados e assim nos ajudarem a trazer mais luz para estes temas.

António Pimenta de Brito é gestor