Parece que não está fácil, o reerguer da geringonça. Será porque o céu está mais cinzento por estes dias? Será porque o PCP e o Bloco constataram que não há nada de tão evidente a ganhar com o apoio à maquineta, que causou sangria de votos a todos? Será que estes dois partidos se sentem apenas impotentes para dar mais a mais e tomaram consciência de que não vão poder satisfazer as reivindicações dos professores, dos enfermeiros, dos médicos, dos pensionistas, dos jovens, dos animais e de outras classes de géneros vários – correndo o risco de se verem colocados, assim, do lado “errado” da História, ao abdicarem do protesto enquanto arma e da rua enquanto refúgio?

Será que António Costa perdeu o mojo? Terá ele sido despojado dos seus poderes de negociador-mago e de construtor de pontes entre gregos e troianos, na sequência dos frustrantes resultados das eleições (sim, insisto, o conjunto dos partidos da geringonça teve menos votos… apesar do sucesso retumbante que a comunicação social lhe atribuiu depois do malabarismo festivo de Costa e Catarina na noite eleitoral)?

Uma coisa é certa – não será por falta de incentivos por parte dos media que o PS falhará a construção de um novo modelo governativo mais ou menos seguro e que terá a vida mais dificultada. A comunicação social pátria, na verdade, demitiu-se do escrutínio da governação e desinteressou-se, durante os últimos quatro anos, de pedir responsabilidades a António Costa (com algumas excepções, onde pontua este jornal onde escrevo).

Mas basta um olhar rápido pela imprensa internacional para perceber que o mundo vê aquilo que os portugueses não vêem e que não é universal a eficácia ilusionista com que António Costa consegue esconder toda a poeira debaixo do tapete – e não me refiro a prestar atenção à comunicação social que publica, uma vez por ano, um artigo elogioso das finanças lusas, que logo é amplificado pelos spin doctors mediáticos e transformado em vassalagem global ao génio socialista.

Um exemplo do que a imprensa estrangeira vê em António Costa e que poucos escribas nacionais foram até hoje capazes de sintetizar está no insuspeito EL PAÍS, de 7 de Outubro passado: “El primer ministro se irrita si no se le reconocen sus méritos, pero es un equilibrista con los pactos en la política (…) Pero la habilidad más que en los éxitos se demuestra en los fracasos. Si Costa puede ser generoso en compartir los aplausos con sus ministros (…), más mérito tiene que las desgracias y los escándalos que brotaron en este tiempo en Portugal siempre acabaron pareciendo ajenos al Gobierno. En junio de 2017 morían 66 personas en los incendios de Pedrógão, en octubre, 50 más morían en otros incendios. La desgracia no debilitó al Gobierno de Costa, que repartía culpas entre la compañía telefónica, los eucaliptus o los propietarios de los montes”. 

Esta súmula explosiva preocupa-me sobremaneira.

Irresponsabilidade misturada com prepotência, condimentada com arrogância e servida com baixa tolerância à crítica, reflectida numa comunicação social servil, costuma dar maus resultados (que o diga o idoso que foi maltratado na véspera das eleições).

E é por todos estes motivos e por ter lido no mesmo artigo a clarificação da maior competência de António Costa (“imbatível nas distâncias curtas”) que antevejo um novo Governo (que de novo nada tem, na verdade) em que o mote será navegar com vista curta… ou com costa sempre à vista.

Será um governo que olha apenas para o imediato, que colocará sempre o interesse do jornal da noite antes do interesse nacional e apostará nas manobras tácticas antes de pensar em encarar (quanto mais em resolver) os problemas estruturais do país.

E navegar com costa à vista, em tempos que se avizinham tempestuosos, especialmente na frente económica, será muito arriscado. Não é preciso ser especialista em navegação para perceber que perto de costa as águas são tumultuosas, as correntes são traiçoeiras e os rochedos afiados aparecem onde menos se espera.

Lamento o pessimismo com que encaro os próximos 4 anos, mas navegar com Costa à vista é receita segura para naufrágio!