Tailândia

Costa devia ir à Tailândia. E aprender várias lições /premium

Autor
  • Filomena Martins
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O que aconteceu na Tailândia não foi um milagre. Foi uma operação altamente profissional. Já por cá continuaremos sempre à espera que os deuses nos acudam. Por isso, Costa podia passar por Chiang Rai.

Portugal devia retirar várias lições com o que acaba de acontecer na Tailândia. Podia ser que assim não voltassem a acontecer tragédias como as dos fogos do ano passado. Primeiro aquela enorme fatalidade de Junho. Depois a repetição inaceitável e imperdoável de Outubro. Podem já estar a dizer que estou a ser demagógica. Populista. Infelizmente não estou. Há mesmo muito a aprender com os tailandeses. Passo já a explicar, feitas as devidas distâncias e estabelecidas as devidas diferenças.

Em Portugal, há uma tentação parola do país se gabar de ser evoluído, ocidental, moderno, vanguardista e estar sempre à frente dos acontecimentos. A que se junta a necessidade de fazer sobressair aquele lado de macho alfa lusitano: temos sempre os melhores bombeiros, os melhores investigadores, os melhores especialistas, os melhores qualquer coisa. Mas depois a política, ou melhor, a politiquice, acaba sempre por ser predominante. E não, nós não temos os melhores políticos.

Vamos recuar então a 2017. Como acontece com todos os governos, António Costa estava a acabar de reverter tudo o que fizera Passos Coelho. É sempre assim. Tenham sido boas ou más as mudanças feitas, entra um novo executivo e altera-se tudo outra vez. Ou simplesmente porque sim. Ou porque ideologicamente se pensa de maneira diferente. Ou, na maioria dos casos, porque há um regime partidário para alimentar com cargos para distribuir por muitos e muitos boys. Há anos que este ciclo vicioso perdura e não parece estar para parar tão cedo, como prova a recente operação Tutti Frutti tão oportunamente investigada por Joana Marques Vidal.

Ora foi graças a esta histórica convenção nacional que em abril do ano passado, a três meses da época de fogos, o Governo mudou praticamente todas as estruturas da Protecção Civil. Que mandou para Coimbra, a zona de Pedrógão, um dos seus políticos, que não era nem da terra, nem conhecia o terreno, muito menos como combater fogos numa região problemática como aquela. Mas o Governo ignorou muito mais. Não ligou aos avisos da falta de material e meios dos bombeiros. Guardou na gaveta a promessa de rever o contrato e os problemas do SIRESP. Foi adiando a contratação de meios aéreos. Não leu nenhum dos relatórios de especialistas internacionais a alertar para os riscos de incêndio que já vinham de trás. Deixou arrastar a lei sobre as florestas entre os gabinetes ministeriais.

Depois a tragédia aconteceu. Faço o resumo e nem vou aos pormenores. Penso que todos os temos na (má) memória. Acotovelaram-se dezenas de políticos no terreno. Empurraram-se culpas. Multiplicaram-se desculpas. Constituíram-se comissões e grupos de trabalho. Fabricaram-se milhares de relatórios. Fizeram-se outras tantas promessas. Mas nada mudou. Nem a ministra. E tudo se repetiu quatro meses depois. Ficaram 110 mortos num registo criminal sem culpados.

(faço um parêntesis para lembrar que os avisos, os relatórios e os alertas dos especialistas continuam a chegar. Até agora valeu-nos a chuva. Depois, no desenrasca português, logo se verá)

Vamos agora à Tailândia, país que muitos julgam pobre e do terceiro mundo. Mal as crianças desapareceram, foram os especialistas no terreno a procurá-las. Mais ninguém. Quem assumiu o controlo foi o governador local. Lendo o Bangkok Post e o relato dos dois principais jornalistas que cobriram este caso, sabemos que houve visitas do primeiro-ministro ao local, absolutamente discretas, para dar apoio às famílias e às forças no terreno. Não falou aos media. Do rei (mesmo sendo pouco apreciado pelo povo, o seu pai é que era adorado), apenas se sabe que mandou disponibilizar todos os meios para que o resgate se realizasse com todas as condições.

Na maior discrição, a operação foi montada usando os melhores mergulhadores tailandeses (sem guerras ‘bombeirísticas’ de Marta Soares). Depois foram chamados os melhores dos melhores do mundo. Sem demoras ou burocracias, alguém teve de ler muitos relatórios e documentos para saber quem eram e depois contactá-los e convencê-los a participar. Ninguém soube quem o fez, nem como. Certo é que a operação juntou os principais especialistas de vários países (não houve bombeiros espanhóis mandados para trás), de Inglaterra ao Japão, da Islândia aos EUA. O médico que comandou toda a operação e deu a ordem final para os rapazes serem retirados da gruta é australiano. O próprio governador só apareceu a dar informações pontuais à imprensa, nunca no meio dos operacionais.

Ao impulsivo Elon Musk foi agradecida amavelmente a ajuda oferecida – uma engenhoca sem garantia de eficácia. Por cá teria estacionamento garantindo entre o parque Eduardo VII ou até a Avenida da Liberdade e talvez pudesse testar uns aviões anti fogos especiais numa pista do aeroporto de Lisboa ou do Montijo e fosse recebido na câmara de Lisboa, S. Bento e Belém.

A operação da Tailândia foi meticulosamente preparada, estudada ao detalhe, incluía planos B. Impôs regras rígidas a pais, media, forças de segurança. Quem não as cumpriu foi imediatamente punido. O local da gruta foi desimpedido horas antes do resgate começar, com tudo a postos. Ninguém a atrapalhar. E no fim, mesmo agora, ainda só se conhecem os rostos de meia dúzia de heróis e de um único político.

Em resumo, o que aconteceu na Tailândia não foi um milagre. Foi uma operação altamente profissional. Já por cá continuaremos sempre à espera que os deuses nos acudam, porque o profissionalismo dos nossos políticos é usado para outras coisas. Por isso, antes de ir a Angola, Costa podia passar por Chiang Rai. E levar uma larga comitiva. Para aprender.

Só mais duas ou três coisas

  • Da peça teatral em curso na Geringonça sobre a aprovação do último Orçamento de Estado desta legislatura, a única coisa com graça foi António Costa ter-se chamado a si próprio carochinha e garantir que o seu PS não anda à procura de um João Ratão. Mas a verdade é que se não está à janela, não se sabe onde anda o líder deste Governo. Aquele que não vê o que se passa na saúde, das demissões no S. José, aos problemas no S. João e na Maternidade Alfredo da Costa. Da chantagem dos professores que vão provocar o caos no arranque do próximo ano lectivo. Da falta de material para reparar carruagens dos comboios da CP e do metro. Da ausência total de investimento que está à vista de todos. Mas como o ano é eleitoral e ninguém quer cair no caldeirão, o OE será aprovado pelos parceiros da esquerda e o casamento de conveniência durará mais um ano com discussões cada vez mais acesas para depois acabar mal. O único que pode ficar ‘pelado’ no meio disto tudo pode mesmo ser Rui Rio.
  • Quatro anos depois da primeira condenação, não sei quantos milhões em negócios depois graças às suas constantes viagens a Angola, Armando Vara talvez, talvez, venha agora a ser detido. O Tribunal Constitucional rejeitou-lhe o último recurso, o que pode colocar em prisão preventiva nos próximos dias. Mesmo assim, o ex-ministro do PS vai apresentar uma reclamação junto do plenário para impedir o trânsito em julgado imediato. E a sua prisão ainda pode ter de esperar pela decisão de recursos de outros arguidos. Quatro anos depois, repito, de ter sido condenado a cinco anos de pena no processo Face Oculta (porque ainda há a Operação Marquês).
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