Tem-se dito, e bem, que estamos numa guerra mundial. Felizmente, não se trata de um enfrentamento entre povos, como aconteceu nas duas Guerras Mundiais do século passado, mas de toda a humanidade contra um vírus particularmente contagioso e letal. Numa guerra mundial, como é a actual, todos os meios devem ser utilizados nesta luta pela sobrevivência da humanidade: os meios humanos – médicos, enfermeiros, auxiliares, etc. – e técnicos, de que a medicina se serve para curar os doentes; científicos, porque os investigadores devem estar empenhados na descoberta de antivirais; e industriais, pela reconversão de algumas fábricas, adaptadas para a montagem de ventiladores. Uma vertente não menos importante é a espiritual, que em Portugal, por medidas eventualmente feridas de inconstitucionalidade, está a ser proibida.

É compreensível que, estando o país em estado de emergência, algumas liberdades individuais sejam restringidas ao mínimo indispensável: as forças de segurança devem impedir que as pessoas infectadas abandonem a zona a que foram confinadas, como também devem evitar ajuntamentos ou viagens que não sejam imprescindíveis. Mas, da mesma forma como têm que respeitar a liberdade de pensamento e de expressão, têm também que salvaguardar a liberdade de consciência e religiosa, que a Constituição da República portuguesa estabelece no seu artigo 41º, e o decreto que estabelece o estado de emergência não suspendeu, nem restringiu.

Ora, como o Expresso referiu na sua edição do passado dia 28, não é isso que está a acontecer no nosso país, onde os “hospitais vedaram qualquer acesso dos capelães hospitalares aos doentes infectados com covid-19 e as medidas de contenção foram alargadas à assistência religiosa prestada a todos os outros internados actualmente no Serviço Nacional de Saúde”. O Padre Fernando Sampaio, responsável da Pastoral da Saúde do Patriarcado de Lisboa e capelão do Hospital de Santa Maria, há mais de trinta anos que de trabalha nos hospitais, “mas só agora sente que está na primeira linha do combate, mas foi condenado a ficar nos bastidores”, porque “os planos de contingência elaborados pela Direcção Geral de Saúde não contemplam a assistência espiritual”. Como disse, em jeito de desabafo, “são estes tempos muito duros”.

Também o Padre Pedro Durrer, capelão do Hospital Curry Cabral, igualmente em Lisboa, está no “olho do furacão” mas de mãos algemadas pela Direcção Geral de Saúde, que impede aos doentes o recurso aos capelães hospitalares, contrariando um seu direito fundamental. Apesar de dispensado de todos os serviços pela administração hospitalar, o Padre Pedro Durrer faz questão de se apresentar “todos os dias” no hospital de que é capelão, onde está disponível para “quem precisar”. Até à data, não lhe foi transmitido nenhum pedido de assistência por parte de doentes, ou familiares de infectados com o novo vírus, mas pode ser que a administração hospitalar, da mesma forma como impediu aos capelães o exercício das suas funções, também tenha proibido que lhes sejam referidos os pedidos dos doentes com o novo coronavírus.

Curiosamente, no país vizinho, que vive circunstância sanitárias análogas e também tem um governo socialista, em coligação com uma força política de extrema-esquerda, respeita-se a liberdade de consciência e religiosa dos doentes. Não só se permite que os capelães hospitalares continuem a exercer as suas funções pastorais, como até se lhes autoriza que, neste período excepcional, o possam fazer para além dos horários laborais.

Da situação dos capelães hospitalares espanhóis deu conta o Padre Benito Rodríguez Regueiro, em declarações a Religión en libertad. Como capelão do Hospital Álvaro Cunqueiro, em Vigo, tomou uma decisão invulgar: não abandonar o hospital enquanto esta pandemia durar. Aí, no seu posto, servindo os doentes e familiares com o seu serviço pastoral, não menos necessário do que o dos médicos e enfermeiros, quer ficar até ao fim. Decidiu tomar esta atitude por duas razões: prestar, a todos os doentes que queiram, e seus familiares, os serviços espirituais para que está habilitado; mas também evitar que outros sacerdotes, indo a esse hospital, se possam contagiar, em cujo caso ficariam, como é óbvio, impedidos de posteriores contactos com os fiéis.

Nas situações mais extremas a que pode ser obrigado um ser humano, como é a doença ou a reclusão, é também quando mais precisa de apoio espiritual. Não se trata de aproveitar essa debilidade passageira para daí retirar dividendos religiosos, mas ajudar que essa experiência, tantas vezes dramática, não resulte num maior sofrimento, mas seja ocasião de reencontro consigo mesmo e de superação, ou seja, de conversão. Por isso, o capelão, hospitalar ou prisional, não se impõe a ninguém, mas a todos oferece os seus serviços, para que quem queira, seja ou não católico, possa beneficiar da sua ajuda espiritual.

Como confidenciou o Padre Benito Rodríguez, trata-se de ajudar o doente a viver a sua doença: “procurar que esteja calmo, ou aliviar o seu sofrimento, é o propósito da sua família, mas também uma grande oportunidade para que o paciente se consciencialize de como está a viver essa solidão. É um momento oportuno, se for o caso, para preparar a sua despedida deste mundo: os doentes terminais têm muito que agradecer, muito que perdoar e muito que confiar”.

As peculiares circunstâncias desta pandemia dificultam, como é óbvio, o exercício do ministério sacerdotal, que pressupõe e exige proximidade, também física, porque também os capelães estão obrigados a observar as normas de segurança impostas a todos os que convivem com pessoas infectadas com este novo coronavírus. Como reconhece o capelão do Hospital Álvaro Conqueiro, um dos aspectos mais dolorosos desta pandemia é “não poder abraçar, não poder tocar, não poder chorar com os doentes”. Mas essa separação física, não é razão para que o sacerdote não exerça, com a devida prudência, o seu ministério: “o que não se pode fazer, é uma pessoa enterrar-se vivo: a vida continua e tens que continuar a fazer o que tens que fazer, com serenidade, com a ajuda da oração e das amizades”.

Ante os numerosos óbitos verificados no país vizinho, uma enfermeira comentou ao Padre Benito que, seguramente, agora tinha muito que fazer, com tantos funerais. A sua resposta foi expressiva: “Oxalá tivesse mais trabalho, mas fosse no confessionário! Quero com isto dizer que as pessoas precisam é de pedir perdão e viver como agora se está a viver: que os vizinhos falem uns com os outros e que isto não seja apenas uma coisa para agora. Também quando rezamos, o não podemos fazer a um desconhecido, mas alguém concreto, que tem um rosto. Há muitas pessoas que procuram no ioga uma resposta: com certeza que essa prática é muito boa como exercício físico e mental, mas essas experiências não são uma resposta, nem levam a pessoa a ter uma atitude de serviço aos outros. Só o Evangelho o permite, que se vive quando uma pessoa se entrega, e não quando recebe”.

Que o Serviço Nacional de Saúde tenha por pai um socialista laico não pode ser razão para que se negue, a todos os doentes do Serviço Nacional de Saúde, os serviços religiosos a que não só têm direito como necessidade, para enfrentarem o medo e rencontrarem a esperança. Como dizia o Padre Pedro Durrer: “Estamos cá para estar na frente do combate. Não há medo (…). Talvez a minha missão seja mesmo essa: ser profeta da esperança.”