A persistência autojustificada no erro é uma caraterística da psicologia humana. Com a maturidade, alguns de nós aprendem a reconhecer que se enganam, pedem desculpa e tentam não repetir. Quando confrontado com uma afirmação disparatada, a de que a Champions em Lisboa seria um prémio para os profissionais de saúde, de teor marcadamente ofensivo e demonstrativo de completo desconhecimento do que é prestar cuidados de saúde, o Dr. António Costa defende-se com uma das formas mais primárias e infantis das que existem no repertório político. Podia ter sido pior. Poderia ter dito que não tinha dito o que disse. “Eu disse que era um prémio para os profissionais, não falei na saúde de ninguém”. Poderia ter dito que não tinha sido ele a dizer a frase. “Era um tipo parecido comigo, mas não fui eu”. Preferiu dizer que os que justamente se queixaram de sentir-se insultados estavam com muita “má-fé”. Logo, insiste na soberba de entender que os sentimentos dos visados são menos relevantes do que aquilo que ele pensa dos ditos sentimentos. Teria sido mais inteligente e politicamente útil ter apenas reconhecido que não tinha, nunca teria, intenção de ofender ninguém (do que eu não duvido), pedir desculpa se tinha sido mal interpretado e reafirmar o agradecimento público a quem tem continuado a tratar dos Portugueses. Não o fez e, com marcada falta de hombridade, remete para o Presidente da República a defesa da sua tosca justificação. Confesso que esperava mais do nosso Primeiro-Ministro que, até há umas semanas, tinha sido o político ativo com mais senso nas afirmações em tempo de pandemia.

Digo “tinha sido”, porque esta mais recente bravata está na linha da justificação de que temos mais COVID-19 porque fazemos mais testes à procura do vírus escondido. Um argumento de artolas. Imaginemos que eu decido escavar no jardim do Campo Grande, em Lisboa. É provável que encontre o Metro. Improvável que encontre ouro, até porque quando escavaram o túnel para os comboios, não se depararam com um filão. Com os testes de despiste só se encontra o que está lá. Não há mais COVID-19 por fazer mais testes. O nosso PM foi avisado da tolice que tinha dito e passou a dizer que descobrem mais casos porque procuram mais. Melhor. Mas não disfarça a realidade de que se encontram, é porque há. Nem será por se fazerem mais testes que a maioria dos doentes internados está na região de Lisboa, nem que haja mais doentes em cuidados intensivos na mesma região.

Seria longo e mais complexo descascar a confusão completa que foi a tentativa de comparação de números nacionais com os de outros países europeus. Foi triste demais. Coitado, o Dr. António Costa disse o que lhe deram para ler. Confundiu tudo. Nem reparou que estava a comparar realidades diferentes para terminar, feitas as comparações, dizendo que não era possível fazer comparações. Tudo bem encaminhado para concluir que o melhor atestado sanitário tinha sido o da UEFA. Qual OMS, ECDC, DGS? UEFA!!! Mais nada! Ó homem, despeça essa gente toda que o aconselha. Só querem o seu mal.

Há SARS-CoV-2 em circulação e não vai desaparecer. Logo, ficam várias perguntas para responder e uma conclusão.

Sem questionar que o período de quarentena geral, a que se chamou de “confinamento”, foi útil para impedir o sufoco imediato no SNS, resta começar por perguntar se não teria sido mais útil, mesmo já em fase de pandemia, organizar a resposta sanitária com todos os atores do sistema? Seguramente mais importante do que persistir na ideia de que o SNS “aguentou-se”. Aguentou-se à custa de centenas de milhares de procedimentos adiados, de que não conseguiremos recuperar com a facilidade que nos querem impingir.

Um dia, quando finalmente houver dados e distanciamento suficientes, poderemos avaliar o impacto sanitário real das medidas de confinamento. Interessa começar por perceber que a questão dos “milhões de vidas salvas” pode ser uma patranha. Não se pode calcular letalidade em base real, dado o inquantificável número de assintomáticos portadores. Nem mesmo usando só sintomáticos ou sintomáticos graves será possível afinar a estatística antes de termos um critério reprodutível e uniformemente reconhecido do que é um caso com sintomas. A maioria dos mortos com a COVID-19 padecia de outras doenças ou eram idosos. No caso de terem outras doenças, cancro por exemplo, é diferente morrer com o cancro em remissão, sob tratamento, ou com doença terminal. O mesmo se aplica aos mais velhos, já de si sofredores da mais natural e prevalente situação clínica mortal, a idade avançada. Quando olharmos para as estatísticas e percebermos quantas mortes evitáveis foram salvas pela prevenção da COVID-19, teremos um quadro real. Com dois aspetos fundamentais na planificação em saúde. Em primeiro lugar, a determinação de quanto custou cada vida salva, usando a delapidação económica como fator de custo. Em segundo, a determinação da mortalidade excessiva evitável não associada à COVID-19, cujo número nos pode fazer repensar estratégias e respostas a pandemias de baixa mortalidade, como tem sido a da COVID-19.

E que tal, em vez de preservar na ideia de que tudo se resolve com ventiladores, tivessem organizado a resposta nacional em cuidados intensivos sem olhar apenas para a COVID-19? É que, se olharem para os números, a maioria dos doentes graves com COVID-19 não tem critérios para ventilação assistida mecanicamente. São demasiado idosos e com co-morbilidades que comprometem o resultado de intervenções com suporte ventilatório. Não é ao governo que se deve a não saturação da capacidade de ventilação que tem existido. Os médicos do SNS tiveram o bom senso e o saber suficientes para gerir a oferta de cuidados intensivos, sem que ninguém tivesse sido privado do tratamento indicado. Volto a perguntar. Vamos ter mais camas de cuidados intensivos à custa de que diminuição de espaço para outros cuidados e com que profissionais habilitados? O ministério deve clarificar todo o equipamento que foi comprado para reforço do SNS. Na verdade, não sabemos. Comprámos camas? Quantas? Temos mais bombas de perfusão? Quantas? Há mais monitores? Quantos? Etc. E, obviamente, onde e quando foram instalados?

E, já que o nosso PM anda impante com o número de testes, não devemos questionar se andamos a testar só quem beneficia de ser testado? Começámos mal, com testes espúrios e sem saber por onde começar. Demorámos uma eternidade até completar ações de rastreio em grupos de risco. Andamos a testar assintomáticos que não teriam justificação para ser testados rotineiramente. A cena da camioneta de propaganda a uma empresa do ramo da energia, que andou a passear em Portugal com foros de cobertura televisiva, há de ficar nos anais do oportunismo publicitário e da inconsequência sanitária. Doentes sintomáticos, se não forem a um serviço de urgência, ainda hoje, esperam dias para serem chamados ao teste.  Doentes com “necessidades” de testes de rotina – p.e. com cancro – enchem a capacidade existente sem que isso tenha utilidade comprovada (voltarei a isto num texto futuro). Fazemos testes a pessoal de saúde que não tem de ser testado. Acima de tudo, o que pretendem fazer com os testes que vão sendo feitos? Isolam as pessoas? Não há lei que as obrigue a isso. Lamento lembrar, mas é assim mesmo. Foi por isso que teve de haver estado de emergência, lembram-se?

Querem conhecimento epidemiológico? Façam testes de forma organizada, mas com um objetivo claro de controlo. Fazer testes não é êxito. Controlar a epidemia é que é o objetivo. Anunciar números de novas infeções, crescentes e preocupantes, para depois justificá-los com a eficiência do sistema de prevenção é uma palermice. Acreditam que os testes são vacina? Será por testar os profissionais que eles ficarão menos contagiosos? Ainda negativo hoje, sei lá o amanhã. Testar implica uma estratégia e, como a senhora Ministra da Saúde já reconheceu, é impossível cortar as cadeias de transmissão de base populacional em curso, por mais que se teste e nada se faça depois disso.

Conclusão. É fundamental que toda a população, com especial enfoque nos grupos de risco e nos profissionais que lidam com muitas pessoas, tenham atenção às regras de distanciamento, ao uso permanente de máscaras – NÃO É VISEIRAS – e lavagem regular das mãos.  Acima de tudo, é imperioso que se acabe com ajuntamentos populares. São perigosos e prejudicam-nos a todos. As forças de segurança pública são necessárias para a prevenção da criminalidade mais grave e violenta. Não podem andar a correr atrás das festas.

Os profissionais de saúde precisam de ter tempo e espaço para tratar de todos e não apenas os casos da COVID-19. As pessoas de bem, a sociedade, todos nós que temos sofrido com a pandemia que é grave, devem manifestar o seu repúdio para com a eventual realização de jogos com espetadores na fase final da Liga dos Campeões e pedir, já que o mal está feito, medidas de controlo rigoroso e eficaz à entrada de fãs das equipas em confronto. Se houver aumento de casos nos dias e semanas subsequentes aos jogos, os Portugueses terão de exigir que os responsáveis, os que decidiram trazer a competição para Portugal, sejam devidamente punidos, nem que seja politicamente.

Esqueçamos o incidente da frase infeliz do Senhor Primeiro-Ministro. Deixem-no estar com as ideias de perseguição e da má-fé. Resistamos. Só se deixarmos é que o SNS não durará mais do que a vigência de quem nos governa e preside, o que basicamente é a mesma coisa, com relevância da primeira na razão direta da irrelevância da segunda. Coisas de UEFA.

P.S.: Desde há anos, com a ajuda de várias ONGs, o Estado distribui preservativos a grupos de risco, incluindo a jovens que frequentam, ainda bem, a diversão noturna. Faz bem. Muitos são deitados fora. Faz mal quem os desperdiça. Lembro que todos os anos, desde há muitos anos, o Estado, com a ajuda das farmácias, suporta a distribuição de seringas a dependentes de estupefacientes injetados. Faz bem. O VIH mata, se o deixarem, quase 100% dos que infeta. Li alguns comentários e reações à decisão de se distribuírem cachimbos a pessoas consumidoras de crack. Poderemos discutir a prioridade, mas a verdade é que essa distribuição será feita por ONGs, com um donativo de uma fundação. Boa medida e seja bem-vinda a doação. Pretende-se, com esta intervenção, tentar diminuir a propagação de infetantes por via oral e respiratória. Parabéns ao SICAD. A toxicodependência não se combate deixando morrer quem por ela e com ela sofre.