As conversas do povo com o Presidente russo, Vladimir Putin, voltaram a bater recordes na sua 13ª edição: foram enviadas mais de 3 milhões de perguntas, mais um milhão do que o ano passado, e o dirigente russo falou 3 horas e 57 minutos, ou seja, mais dois minutos que em 2014.

Putin respondeu a 74 perguntas, mas não revelou novidades nem sensações. No campo interno, fez promessas semelhantes às feitas em iniciativas anteriores: ocorreram melhoras e o país vai sair da crise em menos de dois anos, as sanções irão contribuir para o aumento do fabrico de produtos alimentares russos, o governo presta apoio aos produtores do leite, é preciso melhorar o clima para os negócios, o sistema de crédito, os sistemas de segurança pública, judicial.

Ficou foi por responder a pergunta sobre porque é que isso não foi feito durante os 15 anos que Vladimir Putin se encontra no poder.

Em vésperas do 70ª aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial, em que Moscovo pretende ser o centro das cerimónias, Putin condenou as tentativas de “comparar o nazismo e o estalinismo”. “Claro que é impossível colocar ao mesmo nível o nazismo e o estalinsmo, porque os nazis anunciaram publicamente como objectivo da sua política o extermínio de etnias inteiras: judeus, ciganos, eslavos. Não obstante todo o aspecto repugnante do regime estalinista, não obstante todas as repressões e mesmo todas as deportações de povos inteiros, o regime estalinista nunca colocou perante si objectivos de extermínio”, explicou.

Certamente que esta explicação, no mínimo, estranha, não irá consolar os milhões de vítimas do regime comunista na União Soviética e fazer com que os poucos que ainda estão vivos perdoem o tirano José Estaline.

No plano da política, Putin repetiu o que sempre disse e que se pode resumir em poucas palavras: nós fazemos tudo bem, eles fazem tudo mal porque querem prejudicar a Rússia. Segundo o dirigente russo, as sanções ocidentais não têm sentido porque o seu país cumpre os Acordos de Minsk em relação à Ucrânia, esquecendo-se de recordar que as sanções foram lançadas quando ele sancionou a ocupação da Crimeia.

“A principal condição para restabelecer relações normais é o respeito pela Rússia e os seus interesses”, frisou. Ou seja, os países ocidentais devem resignar-se com a invasão da Ucrânia, pois este país faz parte dos seus interesses.

Em relação à Ucrânia propriamente dito, Putin desmentiu existirem tropas russas no país vizinho, prometeu continuar a ajudá-lo “com descontos no preço do gás” e excluiu a possibilidade de uma guerra entre os dois países vizinhos, porque “em geral, não vejo diferença entre ucranianos e russos, considero que são um só povo”.

Se existem problemas entre Kiev e Moscovo, isso deve-se ao facto de “a actual direcção da Ucrânia cometer muitos erros e os resultados serão negativos, mas essa é a escolha do Presidente e do Governo”.

Em geral, Vladimir Putin manifestou preocupação com “o nível de endividamento” dos Estados Unidos, com os problemas na zona euro “que está a rebentar pelas costuras”. E deu um exemplo concreto de como ajudar a resolver o problema. Por exemplo, ele revelou que, afinal, para a segurança do seu país o porta-helicópteros Mistral, que foi construído em França, mas não foi entregue à Marinha Russa devido às sanções, “não tem qualquer importância”, mas tudo foi feito porque “na altura, esses contratos foram assinados a fim de apoiar os nossos parceiros e garantir trabalho aos estaleiros”!

As autoridades russas não têm meios financeiros para pagar os salários aos seus trabalhadores que constroem o Cosmódro “Vostotshny”, no Extremo Oriente, mas dá-se ao luxo de “ajudar” os franceses.

Alexei Kudrin, antigo ministro das Finanças que assistiu in loco à longa intervenção de Putin e teve até possibilidade de lhe fazer algumas perguntas, comentou no final das conversas que não viu no Presidente Putin vontade de fazer mudanças estruturais na economia do país e que o actual governo russo até pode conseguir  tirar o país da recessão, mas não tem um programa a médio e longo prazo para o país.