A tão aplaudida unidade nacional durou pouco. Esta semana, Portugal conseguiu transformar a celebração da democracia numa guerra cultural. O culpado? Tem um nome: Eduardo Ferro Rodrigues. Mais uma vez, o presidente da Assembleia da República revelou a sua total inaptidão para o cargo que desempenha. Nos últimos quatro anos, assistimos, impávidos, aos seus discursos em receções de Estado com frases inteiras tiradas do programa eleitoral do PS, às suas idas aos jantares do grupo parlamentar dos socialistas, aos seus louvores “ao nosso camarada António Costa” e a comentários anti-regimentais às intervenções de deputados, como se ainda fosse líder de bancada e pudesse andar a defender a honra da esquerda sendo segunda figura do Estado. Não pode, mas faz. E já chega de impunidade.

A sua posição ortodoxa acerca das comemorações do 25 de Abril não é mais do que o cristalizar da sua oposição ao Estado de Emergência. Ferro Rodrigues foi o maior adversário institucional à decisão de Marcelo Rebelo de Sousa, depois aprovada maioritariamente pelo parlamento, o que tem a sua ironia: Ferro usa o parlamento para escudar as suas opiniões, quando a função do Presidente da Assembleia é o oposto disso: é escudar o parlamento da sua opinião para proteger devidamente as opiniões do parlamento.

Desta feita, Ferro não fez só o contrário do que devia; fez pior.

A insistência em avançar com as comemorações do 25 de Abril na Assembleia, com um número de presentes bem superior ao permitido no último Estado de Emergência, além de dar um péssimo exemplo ao povo que representa, manchou o Dia da Liberdade e trouxe-o para o combate político. Ferro transformou uma sessão solene num momento de insolência.

Ana Catarina Mendes, atual líder parlamentar do PS, juntou-se ao festim e veio dizer que as críticas à cerimónia do 25 de Abril são “ideológicas”. Ficámos a saber que João Soares, filho de fundadores do seu partido, deixou de ser socialista, que Vasco Lourenço, capitão de Abril, já não apoia a Revolução, e que Ramalho Eanes, primeiro Presidente em Democracia, se tornou um perigoso fascista – tudo por discordarem do PS.

O Partido Socialista chefia o governo e, na pessoa de Ferro Rodrigues, encabeça a Assembleia. A sua tentativa de fabricar uma clivagem entre uma facção “pró-cerimónia” e uma frente “anti-Abril”, quando as críticas vêm de todo o lado, é irresponsável e um desrespeito pela sua própria história. Nos EUA, nenhum governo usa o 4 de Julho (dia da independência) para arremesso político. Em França, nenhum governo usa o 14 de Julho (tomada da Bastilha) para arremesso político. No Reino Unido, nenhum governo usa o 11 de Novembro (aniversário do armistício) para arremesso político. Em Portugal, um partido fundador da Democracia anda a fazer política com a data da fundação da Democracia.

Mas o que, para mim, é verdadeiramente imperdoável está na inconsciência de Ferro Rodrigues. Ao convidar três ex-Presidentes da República para a cerimónia, estando os três numa idade considerada de risco perante a pandemia, Ferro obrigou Ramalho Eanes, Jorge Sampaio e Aníbal Cavaco Silva a escolherem entre a sua saúde (segundo as recomendações da DGS) e o seu sentido de dever (estarem presentes). É isto uma segunda figura do Estado? Alguém que coloca a vida de três homens em choque com a celebração da Democracia que presidiram? A resposta é evidente: a petição não deve pedir só o cancelamento das comemorações nestes moldes; deve exigir a demissão de Eduardo Ferro Rodrigues, que os impôs.

Não tem condições para continuar algo que foi, mas que nunca deveria ter sido.