Se o turismo lisboeta entrar em crise – o que não se prevê, afinal Lisboa é magnificamente bonita e, comparativamente, barata e confortável – sugiro um slogan para captar novos visitantes: “Lisboa, cidade acolhedora para os pequenos criminosos”. Catita, não?

Nem precisaríamos de nos esforçar. No site O Corvo, de notícias sobre Lisboa, descobri que já somos muito afetuosos, permissivos e acolhedores para os vândalos que poluem a cidade e empestam a propriedade alheia com os seus grafitti. Até os importamos e tratamos bem melhor do que outras cidades europeias. Deixo de lado as passagens fascinantes sobre as motivações de um destes vândalos (resultantes, estou certa, de misturas de estupefacientes diversos) ou os ainda mais curiosos processos através dos quais ajuda a estragar Lisboa. Mas coloco aqui algumas frases assaz curiosas da entrevista ao delinquente.

“Eu venho de Roma, e lá, pintar é uma tarefa mais difícil. Quando saio à rua é só mesmo de noite ou de madrugada. Sinto mais pressão e ando com mais cuidado pelas ruas. Pinto sobretudo em sítios abandonados ou completamente escondidos. Cá, os polícias são mais permissivos, não têm tanto ódio às pessoas que fazem graffiti.”

“Acho que em Lisboa tenho uma abordagem ao graffiti mais natural porque sinto menor proibição.”

E à pergunta “Na tua opinião, os lisboetas são recetivos ao graffiti?”, o pequeno criminoso responde: “Depende muito do sítio em que pintas mas geralmente são bastante recetivos, comparando com outras cidades onde pintei.”

Em suma: em Lisboa há grande permissividade – das pessoas que passam até aos polícias – aos vândalos que enchem de lixo as paredes. Sem surpresa. Afinal, a cidade está repleta de graffiti pelas paredes, pelas portas de garagem, pelas montras das lojas e pelas grades das portas, pelos reclames luminosos dos mais variados negócios. Sem que aparentemente haja qualquer esforço de segurança que vise manter em bom estado quer a propriedade pública quer a propriedade privada – apesar de os privados pagarem impostos precisamente para receberem de volta bens como segurança pública e um ambiente amigável à propriedade privada. Sendo que, de resto, e graças aos vários últimos governos, os impostos sobre o imobiliário são cada vez menos meigos. O Estado central e as autarquias deviam, pelo menos, retribuir de forma proporcional aos impostos crescentes sobre os imóveis. (Mas onde é que já se viu contribuintes a exigirem serviços públicos em troca dos impostos que pagam? Se esta moda pega, onde vamos parar?)

Da minha parte, reservo desejos de várias pragas do Egito às pessoas que argumentam que graffiti são arte. Atenção: não sou indiferente a esta discussão. É certo, Banksy existe. Um artista anónimo, proveniente de Bristol, que grafita paredes de várias cidades com imagens com carga ideológica. O que faz é graffiti – e ilegal. Mas não se compare desenhos e stencils individualizados para cada local, pensados, com mensagem e interpelação aos locais das várias cidades onde são feitos, com qualidade reconhecida (não há site de arte respeitável que não tenha escrito uma coisa ou outra sobre Banksy) com gatafunhos horrorosos que nada mais trazem que nomes (tags) dos vândalos que os desenham.

Os graffiti de Banksy são considerados arte de rua e, apesar da sua motivação contestatária e anti-burguesa, podem mesmo acrescentar valor ao imóvel onde foram pintados. Haverá outros Banksy por aí a pintar, podemos encontrar casos que estejam no fio da navalha entre a poluição visual e a arte de rua, porém a maioria esmagadora dos graffiti não levanta dúvidas: é apenas sujidade nas paredes e outras superfícies. Danificam a propriedade de outros ou os edifícios e espaços públicos e tornam Lisboa menos bonita.

Por tudo isto valia a pena repensarmos a permissividade de todos perante os graffiti. Verdade: não somos particularmente exigentes em se tratando do espaço público. Pessoas que convivem bem com a calçada portuguesa – irregular, sem valor estético em quase todos os passeios, mal mantida – é normal que não se incomodem com paredes pintalgadas. Não vejo grandes sobressaltos pela quantidade de lixo que se acumula pelas ruas de Lisboa. Os atentados arquitetónicos são encarados com normalidade, bem como equipamentos municipais de gosto mais que duvidoso. Seria bom sentirmo-nos todos convocados a adotarmos comportamentos que tornem a cidade mais apelativa — e a pedirmos mais harmonia.

Do lado da câmara municipal, juntas de freguesia e polícias também há trabalho a fazer. Por um lado, policiar mais as ruas de forma a espantar estes pequenos criminosos e, encontrando-os, não sendo permissivos – como os considera o alegado artista da entrevista d’O Corvo. Por outro lado, regulamentando – e aplicando — pesadas multas a quem grafita paredes, bem como indemnizações aos donos das superfícies grafitadas.

Para convencer Fernando Medina a agir avanço já com o (único) argumento que parece ter peso na sua decisão. Fernando Medina que pense que Madonna (ou Monica Belluci ou Michael Fassbender) pode fotografar uns gatafunhos numa qualquer parede lisboeta e colocar essa foto maldosa no seu Instagram. Não queremos desagradar a Madonna ou aos seus seguidores, pois não?