Sendo o novo ministro das Finanças Grego Varoufakis professor de Teoria dos Jogos, diferentes analistas e comentadores internacionais têm-se divertido a comentar o aparente impasse situação da Grécia como um jogo.

O problema em causa tem uma teorização aparentemente bastante simples e é conhecido como o “Game of Chicken”. A tradução literal seria o jogo da galinha, mas aqui galinha tem o significado de cobarde. Com efeito, a Grécia e a Europa podem ser comparadas a dois carros que andam a grande velocidade em direcção um ao outro, em risco iminente de choque frontal. Como as consequências de um choque frontal são verdadeiramente dramáticas, um dos jogadores muito provavelmente se desvia ao último minuto, sendo assim chamado cobarde ou “chicken”.

Graficamente, pode-se representar este jogo como uma matriz de resultados em que os resultados para a Grécia estão representados a azul e os resultados para a Europa estão representados a amarelo. O jogo tem três equilíbrios possíveis. Os dois primeiros são os casos em que um jogador desvia e o outro não desvia. Nesses casos um dos jogadores sabe com certeza que o outro vai desviar-se. O terceiro equilíbrio, mais complexo, implica que cada um dos jogadores atribui uma probabilidade de o outro não se desviar e desvia-se ou não consoante essa probabilidade. Esse terceiro equilíbrio implica que existe uma pequena possibilidade nenhum dos jogadores se desviar e haver um desastre.

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Mas o que poderá ser esse desastre? No caso da Grécia, a ausência de acordo implicará necessariamente a incapacidade por parte do Estado de pagar a dívida externa num prazo relativamente curto. Apesar de existirem alguns fundos nos cofres do Estado antes das eleições, as notícias recentes apontam para que a quebra de receitas fiscais nos últimos meses tenha sido significativa. Acresce que o plano do primeiro-ministro Tsipras relativo a um pacote de emergência social de 2000 milhões de euros, à contratação dos funcionários públicos despedidos no valor de cerca de mil milhões de euros e à suspensão das privatizações deverá eliminar o saldo primário que a Grécia previa acumular este ano.

No que diz respeito ao sector financeiro, a saída de depósitos que começou com a subida do Syriza nas sondagens poderá intensificar-se de forma dramática no caso de as negociações falharem. Como os bancos Gregos perderam a possibilidade de usar dívida Grega nas suas transacções com o BCE, existe uma hipótese séria de pelo menos uma parte do sector financeiro colapsar.

Neste cenário, a saída da Grécia da zona euro poderá ser inevitável, com consequências difíceis de medir, dada a particularidade da construção da zona euro. Ainda assim, é possível avaliar quais seriam os principais canais de ajustamento, utilizando como exemplos a experiência da Argentina em 2002 e da Islândia em 2009:

– Desvalorização do novo dracma face ao euro: no caso da Argentina a taxa de câmbio passou de 1 peso por dólar para perto de quatro pesos por dólar e no caso da Islândia o câmbio passou de cerca de 90 coroas por euros antes da crise para 340 coroas no pico da crise. Essa desvalorização restauraria a competitividade mas tornaria as importações impossíveis, como foi o caso em particular na Argentina.

-Limitação ao levantamento de depósitos, como o “corralito” na Argentina em Dezembro de 2001, e/ou impedimento de saída de capitais, como na Islândia em 2009 para estabilizar o sector financeiro.

– Recessão relativamente profunda mas limitada no tempo: O PIB desceu 15% na Argentina em 2001 e 2002 e 10% na Islândia em 2009 e 2010. No primeiro ano pós-recessão, a Argentina cresceu 9% e a Islândia 2,7%.

– Aumento da inflação com redução correspondente do poder de compra: variação de 40% homóloga na Argentina em Dezembro de 2002 e 18% na Islândia em Dezembro de 2008.

– Aumento da taxa de desemprego de 17% para 23% em dois anos na Argentina e de 1,6% para 8% na Islândia no espaço de um ano. A redução do desemprego para o nível antes da crise demorou dois anos na Argentina e nunca aconteceu na Islândia

– Restruturação da dívida pública. No caso da Argentina depois de uma troca de dívida em 2001, o Governo reestruturou 132 mil milhões de dólares na última semana de 2001 que obrigou a Argentina a manter saldos orçamentais primários (isto é, excluindo pagamentos de juros) positivos desde essa altura e até 2010.

Já no caso da Europa, as perdas num cenário de desastre podem separar-se em dois grupos:

– Perdas financeiras directas: Os Estados membros da zona euro detêm dívida, sob forma de empréstimos e garantias num valor de 200 mil milhões de euros, o que corresponde a cerca de 2% do PIB. O BCE também detém títulos de dívida Grega. Qualquer nova restruturação reduz o valor actualizado desta dívida, no limite até zero, se houver um “default” total. Para alguns países, tais como a Itália ou a Espanha, esse valor poderá ser difícil de encaixar nas contas públicas já de si um pouco fragilizadas.

– Perdas políticas: se a Grécia sair da zona euro, existe uma série probabilidade de os mercados começarem a olhar para os países mais fragilizados e assumirem que esses também poderão vir a sair mais cedo ou mais tarde. No curto prazo, o programa de compras de títulos de dívida que o BCE anunciou deverá evitar um cenário de contágio. No entanto, o fim desse programa que está previsto a partir de Setembro de 2016 poderá ficar seriamente condicionado à situação dos países com dívidas públicas elevadas.

Por enquanto os mercados financeiros têm reagido à situação na Grécia atribuindo uma pequena probabilidade de acontecer um desastre e uma probabilidade maior de se chegar a um acordo. Mas ainda que na próxima semana se consiga chegar a um acordo que seja minimamente razoável para começar a negociação, as perdas que já foram infligidas à Grécia em termos de fragilização do sector financeiro, fugas de depósitos, contracção da actividade, redução da qualidade de vida, poderão ser difíceis de recuperar no curto prazo.

O Economista à Paisana é uma coluna quinzenal de Inês Domingos onde a autora explora temas do quotidiano vistos da perspectiva de uma economista