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Mário Soares e Aníbal Cavaco Silva são os pais fundadores da nossa democracia. Há outros, com certeza. Sá Carneiro e Ramalho Eanes, Freitas do Amaral e Pinto Balsemão são seguramente nomes incontornáveis da nossa gratidão democrática.

Mas Soares e Cavaco Silva foram determinantes. E, nestes momentos conturbados que vivemos em Portugal, na Europa e no mundo, é importante — é mesmo muito importante — recordar porquê.

Mário Soares e Maria Barroso lideraram a resistência democrática ao antigo regime autoritário de Salazar e Caetano. Era nessa época muito tentador fazer uma frente comum com os comunistas e a estrema-esquerda — uma frente comum que o actual primeiro-ministro António Costa inexplicavelmente resolveu agora promover. Mas essa não foi a escolha de Mário Soares, que insistiu em manter a minoritária CEUD contra a voragem unitária da CDE.

Ele sabia porquê. Como explicou nos três volumes de entrevistas com Maria João Avillez, ele simplesmente sabia o que hoje foi esquecido: que os comunistas e a extrema-esquerda são inimigos da democracia ocidental.

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Essa dupla oposição de Mário Soares ao salazarismo e ao comunismo não lhe deu popularidade imediata. Aliás, ao contrário do que se diz por aí, Soares nunca procurou prioritariamente popularidade imediata. Ele tinha uma bússola: a bússola da democracia ocidental que aprendeu a admirar no exílio em França — e a bússola para a qual foi empurrado pela “vacina” resultante de ter sido comunista na juventude.

Foi essa bússola anti-autoritária, contra o autoritarismo de direita e de esquerda, que lhe permitiu emergir como líder da resistência demo-liberal após o 25 de Abril contra o totalitarismo comunista.

O que Soares começou, convém agora acrescentar, foi prosseguido e levado a bom termo por Cavaco Silva. Foi o primeiro-ministro Cavaco Silva, entre 1985 e 1995, que liderou as reformas estruturais que efectivamente permitiram a Portugal juntar-se ao clube das democracias europeias e ocidental. Foi Cavaco Silva que devolveu ao sector privado os vastos sectores empresariais que o PREC tinha confiscado. Foi Cavaco Silva que pôs termo ao monopólio estatal na televisão e em boa parte dos jornais. Foi Cavaco Silva que libertou a legislação laboral da ditadura comunista-corporativista dos sindicatos comunistas. A longa lista de reformas estruturais promovidas pelos governos de Cavaco Silva seria quase infindável.

Numa palavra, foi o primeiro-ministro Cavaco Silva que, entre 1985 e 1995, realmente integrou Portugal na comunidade das nações civilizadas ocidentais e europeias. E foi o Presidente Cavaco Silva que, entre 2006 e 2016, manteve essa mesma âncora ocidental e europeia face à deriva irresponsável de políticos menores e sem bússola, como José Sócrates e associados.

Porque Soares e Cavaco tiveram sucesso, os superficiais analistas de hoje tendem a pensar que o que os moveu foi o sucesso. Mas esse é um erro monumental e um esquecimento monumental. Soares e Cavaco enfrentaram no seu tempo tremendas oposições — e oposições que pareciam na época dominantes e imbatíveis. Soares e Cavaco não podiam saber de antemão que iam vencer. O mais provável, na época, era que iriam perder.

E, no entanto, venceram. Porquê?

Soares e Cavaco foram capazes de resistir porque acreditavam em alguma coisa, para além da popularidade passageira. Resistiram porque acreditavam na democracia liberal. E acreditavam na possibilidade de ganhar as pessoas comuns para a causa da democracia liberal. Soares e Cavaco venceram porque acreditaram que os valores perenes do Ocidente podem ser compreendidos e defendidos pelas pessoas comuns — apesar das modas passageiras e dos disparates vulgares das redes sociais e dos “reality-shows”.

Numa época de grande instabilidade e perturbação, na Europa e até na América, convém recordar estas verdades elementares. Também entre nós elas devem ser recordadas — sobretudo quando a actual liderança socialista parece tê-las esquecido.