Há semanas que somos convidados a venerar a democracia na Grécia, como se a Grécia estivesse outra vez perante os Persas, e não perante os seus outros 18 parceiros do euro, onde os governos também são eleitos e os cidadãos manifestam livremente a sua vontade – nomeadamente a de não darem mais dinheiro à Grécia, como se viu nas eleições regionais de Hamburgo no passado fim de semana.

É tempo de perguntar quem é que põe em causa a democracia na Grécia? Os seus 18 parceiros da zona Euro, que requerem as garantias do programa de assistência para lhe emprestarem mais dinheiro, ou o Syriza e a extrema-direita, que estão a arrastar para fora da moeda única um país onde 81% da população quer o Euro e apenas 30% admite negociar até à ruptura?

Sim, a Grécia tem um regime democrático, a começar por um sistema eleitoral que produz resultados aceites como genuínos. Mas esses sistemas podem ser manipulados, sobretudo num ambiente como o gerado no Ocidente pela crise de 2008, que comprometeu expectativas e situações dadas por adquiridas. Na Grécia, tudo foi pior, porque a oligarquia política e as suas clientelas viviam de capturar fundos externos, os quais lhe permitiam poupar fiscalmente o resto da população. O ajustamento não limitou apenas a distribuição de rendas pelo Estado, mas forçou a oligarquia a enfrentar a necessidade de mudar. Não conseguiu, não quis. O Pasok desfez-se, a Nova Democracia falhou, e subitamente uma série de pequenos grupos de extrema-esquerda viram a porta aberta.

Sem a construção imprevidente da zona Euro e sem a irresponsabilidade dos velhos partidos de governo, a extrema-esquerda não teria tido a oportunidade que teve na Grécia. Mas a verdade é que também estava preparada para a agarrar. O facto de, ao contrário de Portugal, não haver um PCP, deu aos maoístas e trotskistas gregos uma margem de manobra que, por exemplo, o BE nunca teve. Puderam assim subir ao palco como uma nova classe de tecnocratas oriundos das universidades e dos media. Sem gravatas, mas com títulos académicos. A foto de grupo incluía até economistas, do género “banqueiro anarquista”, como Varoufakis, marxista não-praticante. Falaram de um “novo consenso”, e não de “revolução”. Ofereceram soluções para a dívida e receitas para o crescimento, com as devidas fórmulas matemáticas e notas de rodapé. Por um lado, explicaram que não vinham para “alternar”, mas para “mudar”; por outro, deram a entender que a “mudança” seria apenas a preservação do velho estatismo contra uma suposta agressão “neo-liberal”. Assim tentaram e conseguirem participar e liderar uma maioria “anti-austeridade” e “anti-dívida”. Entretanto, a imprensa ajudava lembrando o PT brasileiro como prova da disponibilidade da “esquerda radical” para substituir a corrupção da velha oligarquia pela corrupção de uma nova oligarquia.

O Syriza fez mais: persuadiu os eleitores de que seria possível arrancar ainda mais concessões à UE, devido ao medo que a todos inspiraria a reversibilidade da zona euro (a teoria do “castelo de cartas” de Varoufakis). Durante a campanha eleitoral, Tsipras chegou a insinuar na televisão que Merkel já teria aceite a ideia de um novo pacto de assistência, faltando apenas um sinal da Grécia. Muitos gregos acreditaram, e começaram logo a deixar de pagar impostos: em Janeiro, a perspectiva de vitória do Syriza inspirou uma queda de 40% da receita fiscal prevista. Outros, com menos fé, trataram de extrair o seu dinheiro da Grécia, num movimento de capitais equivalentes a 4% do PIB só em Dezembro.

O Syriza não tem mandato para tirar a Grécia do euro. Levará a chantagem até esse ponto? A questão é a de saber qual o verdadeiro projecto do Syriza. É substituir a social-democracia como parceiro de alternância num país da UE? Ou é provocar a saída do euro, num país em que ninguém quer sair? O “plano secreto” de abandono da moeda única foi um tema do debate eleitoral, inspirando negações veementes ao Syriza. Mas o Syriza também nunca mencionou a aliança com a extrema-direita, falando sempre de outras forças de esquerda como seus aliados preferenciais. É muito provável que nem toda a gente que votou ou que foi eleita pelo Syriza saiba ou perceba o que a extrema-esquerda, que constitui a única força organizada dentro do Syriza, verdadeiramente pretende.   

Consideremos a hipótese de saída do euro. Significaria, como muita gente já explicou, desvalorização, inflação e falências. Para um Syriza que aspire a suceder ao Pasok como alternativa à Nova Democracia, seria um desastre e justificaria muitas concessões, embora o risco de descrédito fosse grande depois das promessas eleitorais. Mas para um Syriza determinado em fazer uma revolução na Grécia contra o “capitalismo” e a “democracia burguesa”, faz todo o sentido: mesmo depois de todos os anos de austeridade, continuava a não haver sovietes na Grécia e quase toda a gente preferia continuar na zona Euro; terá sido, portanto, necessário envolver os gregos com propostas aparentemente “moderadas”, mas apenas para, uma vez dentro das instituições, iniciar um processo de radicalização. O objectivo fundamental não seria isentar o poder em Atenas dos constrangimentos orçamentais europeus, mas romper com o enquadramento ocidental da Grécia. A encenação de negociações serviria apenas para culpar os alemães, aliás já devidamente demonizados, por todas as dificuldades futuras, tal como a ditadura plebiscitária da Venezuela culpa os americanos.

Na Europa do sul, especialmente nos países que emergiram de ditaduras na década de 1970, como Portugal, a Grécia e a Espanha, a democracia foi sempre pensada segundo os modelos da Europa ocidental e, enquanto tal, dependente da integração europeia. Os partidos democráticos de esquerda e de direita propuseram a integração europeia, e a extrema-esquerda e a extrema-direita sempre a contrariaram, por verem na integração europeia uma redução do leque das possibilidades políticas. Por isso, extrema-esquerda e extrema-direita sonharam sempre com “jangadas de pedra” (romance de José Saramago publicado no ano da adesão de Portugal à então CEE). A crise da Grécia na zona euro é, desse ponto de vista, uma ocasião única para a extrema-esquerda cortar as amarras europeias do país. Os 81% de gregos que querem o euro estão assim sujeitos a descobrir um destes dias que, ao serem convidados a rejeitar a “austeridade”, foram afinal levados, sem saber, a renunciar a muito mais.