Confesso que me encheu a alma daquela alegre nostalgia a que chamamos saudade. Fez-me bem, mas ficou-me um leve pesar, a mágoa de uma ausência.

Foi há alguns dias que vi, por insistência de uma pessoa amiga, um documentário sobre São João Paulo II, que foi projectado na RTP 2 e que continua acessível em “À direita da foto”, da RTP Play. Ao surgirem as primeiras imagens, senti uma profunda emoção porque, nos meus anos romanos, tive a graça de conhecer aquele santo Papa. Não exagero se disser que o Concílio Vaticano II foi, para os fiéis nascidos na primeira metade do século vinte, o que foi São João Paulo II para os que nascemos depois.

A vida de Karol Wojtyla é comentada, entre outros, pelo Cardeal Stanislaw Dziwisz, que foi seu secretário até 2005, quando João Paulo II morreu e ele regressou à Polónia, como Arcebispo de Cracóvia. As suas palavras exprimem um profundo sentimento filial: sabe bem ver aquela amizade tão viril e tão terna, tão polaca e tão universal, tão humana e tão santa.

Karol Wojtyla foi, sobretudo, um gigante da fé, que ele anunciou ao mundo, em termos desassombrados, logo no início do seu pontificado: “Não tenhais medo de acolher Cristo e de aceitar o Seu poder! […] Não, não tenhais medo! Antes, procurai abrir, melhor, escancarar as portas a Cristo! Ao Seu poder salvador abri os confins dos Estados, os sistemas económicos assim como os políticos, os vastos campos de cultura, de civilização e de progresso! Não tenhais medo!”

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A Polónia era, então, uma nação mártir: depois de ter sofrido os horrores da invasão nazi, padecia a ocupação soviética, que perseguia a Igreja com igual sanha. O jovem Karol sofreu na pele os rigores do totalitarismo nacional-socialista e, depois, já como sacerdote e bispo, o flagelo da repressão comunista.

O então Arcebispo de Cracóvia sabia que, em casa, as suas conversas eram escutadas pela polícia secreta e, por isso, dizia em alto e bom som o que queria que as autoridades soubessem, como quem brinca com o inimigo. Quando a confidencialidade era necessária, tinha que procurar um lugar seguro, como fez quando se encontrou com Lech Walesa, o histórico líder do Solidariedade.

A sua primeira visita à Polónia, como Papa, foi apoteótica. Sem nunca resvalar para o discurso político, nem faltar à prudência, soube animar os milhões de compatriotas, que, para o verem e ouvirem, se comprimiam nas ruas e praças. As suas celebrações eucarísticas evidenciavam os grandes amores da sua vida: Jesus Cristo e Maria, sem esquecer a Igreja e a sua amada pátria.

Foi dessa semente de esperança cristã que brotou o movimento sindical Solidariedade, que foi pioneiro na luta pela libertação da Polónia e, por arrasto, dos outros países da cortina de ferro. A liberdade religiosa, de pensamento e de expressão e os direitos humanos foram, desde sempre, o seu programa pastoral. Incansável lutador pela verdade e pela liberdade, a todos contagiava o seu amor a Deus, mas também à humanidade, à cultura, à poesia e ao teatro, que cultivou na sua juventude. Era também um amante do desporto e da natureza, que gostava de contemplar apaixonadamente, com o assombro e a simplicidade das crianças e dos místicos.

Depois de declarado o estado de sítio na Polónia e ilegalizado o sindicato Solidariedade, foram suprimidas as poucas liberdades permitidas e o país passou a ser, ao jeito do Gulag, um imenso campo de concentração.

Nessas penosas circunstâncias, João Paulo II não abandonou os seus compatriotas. Cumprindo com a obrigação evangélica de socorrer os presos, foi visitá-los, como também foi à prisão entrevistar-se com o mercenário turco que o quis matar. As multidões encheram-se de esperança e o milagre aconteceu: o movimento sindical renasceu das cinzas. As televisões de todo o mundo passaram aquelas inacreditáveis imagens dos operários de Gdansk amotinados nos estaleiros, assistindo à Missa e confessando-se! Para infelicidade de Karl Marx, não foi o capital, nem o exército, nem a burguesia, mas os operários que derrubaram o regime que era suposto ser do proletariado!

Que bravura também a daqueles padres, que souberam estar com o seu povo nos momentos mais difíceis da sua luta pela liberdade, e que tiveram a santa audácia de desobedecer às ímpias autoridades, para cumprir o mandato apostólico de Cristo! Alguns, como o Padre Jerzy Popieluzko, entretanto beatificado, chegaram a pagar com a própria vida.

Se alguém realizou, literalmente, o propósito pastoral de uma Igreja em saída foi, sem dúvida, João Paulo II, o Papa globetrotter.  Wojtyla não se trancou no palácio apostólico, apesar dos riscos que corria em cada viagem apostólica – em Fátima sofreu um atentado, como o que, um ano antes, em Roma, quase o matou – foi aos países onde os católicos eram milhões, mas também onde eram apenas alguns milhares, como a Turquia, Israel, a Polinésia, etc. Aonde quer que houvesse uma ovelha do seu rebanho, lá ia o bom pastor, incansável no seu peregrinar pelo mundo inteiro, levando a Cruz de Cristo como bordão. Por isso, quando nos deixou para ir para a casa do Pai, milhões de fiéis foram, espontaneamente, ao seu encontro. Depois de sete ou oito horas de espera, quando se detinham, por breves segundos, diante do corpo sem vida de João Paulo II, diziam-lhe a palavra que todos tínhamos na mente e no coração: obrigado!

Dei comigo a sonhar o que teria feito João Paulo II, se a actual pandemia tivesse acontecido quando estava ao leme da barca de Pedro. Não sei, mas tenho uma certeza: não se teria fechado no apartamento pontifício, à espera de que passasse. Não teria interditado as igrejas, mas tê-las-ia aberto, escancarando as suas portas, como disse na inauguração do seu ministério petrino.  Não teria cancelado as celebrações das Missas, mas tê-las-ia celebrado ao ar livre, como fez em Nowa Huta, a cidade modelo do socialismo em que, tendo as autoridades proibido a construção de uma igreja, Wojtyla celebrou a Missa do Galo ao relento, com temperaturas negativas. Não teria suprimido as confissões, mas teria pedido aos padres que, como nos estaleiros de Gdansk, improvisassem confessionários nos locais de trabalho e em todas as encruzilhadas humanas. Não teria deixado sós os que agonizam nos hospitais, nem os que estão abandonados nos lares, nem os que estão isolados nas suas casas. De facto, quando os seus compatriotas sofreram o confinamento, João Paulo II foi ter com eles, para os consolar com a sua palavra, fortalecer com a graça dos sacramentos e abençoar com a força da sua oração.

Graças a Deus, o propósito evangelizador de São João Paulo II encontrou continuidade no presente pontificado: o Papa Francisco também quer uma Igreja em saída, como se prova por esta sua viagem pastoral ao Iraque, cujos católicos tanto precisam e merecem o alento do sucessor de Pedro.

Sem receio de acordar, há que continuar a sonhar o que, há quarenta anos, vivi em Roma: uma nova primavera para a Igreja e para o mundo. É um sonho que a todos os cristãos, unidos aos seus bispos e ao Papa, compromete e responsabiliza, sem desalento nem saudosismos estéreis, porque, como dizia um brasileiro, a saudade também machuca.