O vídeo da campanha de Le Pen às presidenciais francesas é, sem dúvida, um exemplo de como fazer boa comunicação. Sobre política não faltarão, neste país como no mundo inteiro, politólogos e outros analistas para formularem conclusões sobre a ideologia. Podia até fazer aqui um “disclaimer”, afastando-me politicamente destes princípios muito embora não seja esse o intuito deste escrito. Gostaria de falar antes do filme de Le Pen ao invés de falar de política. Dedico-me assim à forma e não tanto ao projeto veiculado. O exercício que faço, curto como os dois minutos e catorze segundos de filme, apenas pega em palavras, imagens e frases para as dissecar. É isso que me importa.

Momento 1 – Le Pen e apresentação inicial de um mundo aparentemente maior que o seu

Primeira imagem dominadora – o mar – logo contraditada pela parte verbal em força: a imensidão objetada. Não, não se interprete o mar como imagem do mundo francês, do acolher quem venha, do abrir fronteiras ou braços ao universo. A representação é contestada pela fraseologia grave: desde sempre que Le Pen se lembra (ah, como o velho saudosismo faz milagres!) de sentir uma ligação visceral, passional ao seu país e história, para acabar num “amo a França”.

Momento 2 – Le Pen e a constatação da situação (circunstância) atual e do choque em que se vive

Entre a imagem da praia, onde a sua capa negra (imagine-se porquê!) esvoaça ao vento, e a imagem do álbum fotográfico (as memórias, ai o que fazem as memórias!) em que Le Pen revive o passado, afirma-se mulher (circunstância) e mulher em situação de perda das liberdades mais elementares (choque), as mesmas de um povo milenar com uma história extraordinária que se vê coagido pelos males do mundo islamita.

Depois, a afirmação de ser mãe (circunstância) e de mãe que se preocupa com os seus filhos e os filhos dessa nação que é França. A inquietude (choque) em que vivem os filhos de França. E eis que não passa despercebida a imagem do Arco do Triunfo.

Finalmente, a advogada (circunstância) que sente a injustiça e que interpreta essa injustiça da barra como uma injustiça que se generaliza ao povo, ao seu povo. A injustiça que não condena os culpados e que não protege a sua gente de França (choque).

Mas se tivesse que se definir teria que ser firmemente, evidentemente e intensamente (num sublinhado que tem de existir para consumo comunicacional) francesa (circunstância incontornável). E lá vem mais um pouco de história para aparecer em fundo a Torre Eiffel (e o choque, e o dilema, em que vive França; não esquecer que a torre se tornou o símbolo mais proeminente de Paris e de França, tendo nascido com a Exposição Internacional de 1889).

Momento 3 – Le Pen e o arrebatamento dos males, o apontar dos responsáveis e a formulação da esperança

Nesta parte do filme Le Pen chama a si os insultos à pátria, a França. Os insultos, sente-os como seus. As dores, toma-as como suas. Quer sejam as dores da violência, da insegurança ou da miséria dos seus compatriotas… as dores são suas. Os sofrimentos dos franceses são sofrimentos seus, pessoais. Entre um bar e o trabalho – em imagem – é definido o quão crucial, o quão fundamental é a próxima eleição: civilizacional. Nada mais: C-I-V-I-L-I-Z-A-C-I-O-N-A-L. A sua marcha é a marcha contra todos os que mentiram, traíram e enganaram o povo francês. Contra os que perderam a França.

Momento 4 – Le Pen, a salvação e a resposta em conformidade

A decisão, parece claro mas nunca é demais afirmar, é do povo. Não obstante, será com Le Pen que virá a ordem. A liberdade. A independência. A segurança. Uma França respeitada. Próspera. Unida. Orgulhosa. Durável. Uma França que possa viver o sonho. A justiça. Tudo isto é tão-só, tão-somente, tudo aquilo por que Le Pen se bate. Por um Estado que seja capaz de tudo isto e de muito mais. Tudo o que ficou por dizer. E tudo em nome de um povo. O seu povo. A França.

A receita é simples. Projeto para França? Fechar-se sobre si própria. Caminhos a seguir? Desconhecidos. Como fazer um filme e um discurso poderosos? Quatro momentos como são quatro os momentos de um ciclo de mudança: Apresentação inicial, constatação da situação – sublinhando a sua gravidade – arrebatamento dos males e sua posse, finalmente, esperança e salvação como resposta.

Que salvação e que resposta? Pergunte-se aos politólogos e aos analistas. Como fazer um filme que passa os quatro grandes momentos de um ciclo de mudança/gestão de mudança/gestão de expectativas? Simples, vejam-se estes dois minutos e catorze segundos. Conclusões gerais? Muito boa comunicação. Conclusões e ilações políticas? Outras fontes se encarregarão desta parte.

Professor Catedrático da NOVA SBE – NOVA School of Business and Administration
crespo.carvalho@novasbe.pt