Não, Isabel Moreira não podia estar a pintar as unhas no Parlamento. Nem ela podia estar a aplicar verniz, nem Assunção Cristas a arranjar as sobrancelhas, nem Hugo Soares a engraxar os sapatos, nem Catarina Martins a tirar borbotos da camisola, nem nenhum deputado a consultar os signos do dia.

Podem dizer que isto é apenas um fait divers no meio de tanto assunto sério e importante que estava a ser discutido sobre o futuro do país. Pois é exatamente por isso (e até porque existiam demasiadas coisas graves e a merecer escrutínio em debate) que ela não podia estar a fazer o que estava a fazer. Porque mesmo que isso não lhe diminuísse a atenção, a futilidade é, no mínimo, um tremendo sinal de desrespeito.

Podemos e devemos discutir o modelo de apresentação, debate e votação do Orçamento. É um formato esgotado há muito tempo. Já levou pequenos acertos, mas nunca mudou radicalmente, nunca foi feita uma ruptura. Como na maioria das coisas neste País, vai-se fazendo assim porque sempre foi assim e pronto. É óbvio, e há muitos estudos que o provam, que é impossível manter a atenção de alguém mais do que um determinado tempo. É por isso impensável que os 230 deputados se mantenham concentrados ao longo das cerca de 12 horas dos dois dias que este debate envolve.

Por isso, sim, é preciso repensar todo este modelo esgotado, como é urgente mudar as celebrações do 25 de Abril, do 10 de Junho ou do 5 de Outubro, já quase completamente ignoradas pela população. Tornaram-se formalidades. Bacocas. Sem qualquer motivo de interesse para as pessoas. Reduzidas aos recados políticos, sobretudo do Presidente. E aos protestos de uns sindicatos, com a Fenprof à frente no top da gritaria e das emboscadas. Não tenho nenhuma solução, mas com tanto grupo de trabalho para tanta coisa e tanto cargo para tanta gente, mal não fará criar mais um para algo realmente importante.

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