Quase toda a gente tem opinião sobre André Ventura e o partido Chega. É uma  das suas vantagens, num tempo em que a maior desgraça é ser ignorado. Riccardo Marchi, porém, não quis ter mais uma opinião. Quis estudar Ventura e o Chega, e desse estudo fez um livro, A Nova Direita Anti-Sistema. O Caso do Chega (Edições 70, 2020). Esse livro, entretanto, tornou-se objecto de opiniões. Nomeadamente, a opinião de 67 universitários que, em vez de o comentarem e criticarem pelas vias normais na academia, resolveram fazer um “abaixo-assinado”, publicado nos jornais, a proclamar, a pretexto de uma entrevista do autor, que não deveria haver liberdade na universidade para fazer investigações e publicar livros como os de Riccardo Marchi. Sim, sim, foi isso que proclamaram. Tenham ao menos a coragem do vosso ódio.

Tudo isto seria espantoso, se, como muita gente já notou, as universidades ocidentais não estivessem há muito a reduzir-se a focos de intolerância da extrema-esquerda, o motor óbvio deste manifesto. Mas no meio de tantas opiniões, vale talvez a pena lembrar quem é Riccardo Marchi. Não, não é um activista político, nem tem da academia a ideia de que deva ser activismo político, como muitos dos que se manifestaram contra ele. É um professor de Ciência Política com um CV dificilmente mais respeitável: bolseiro da Fundação para a Ciência e Tecnologia, bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, investigador do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE-IUL, etc. Coordenou obras colectivas em que colaboraram professores de várias universidades e perspectivas. O seu tema de estudo? A “direita radical” em Portugal, antes e depois do 25 de Abril. Há quem, com o mesmo direito que Marchi, estude a “esquerda radical” e o Partido Comunista. Nunca vi manifestos contra isso, nem nunca vi ninguém preocupado em que o “estudo universitário” pudesse “branquear” ou “higienizar” o comunismo e a extrema-esquerda.

O novo livro de Marchi – e é fundamental notar esta coisa óbvia — vem na sequência dos seus estudos anteriores, é publicado por um grupo editorial especializado em textos académicos, e está integrado num projecto financiado pela FCT. A badana contém uma recomendação de António Costa Pinto. O autor começa por confessar que o fracasso histórico da “direita anti-sistema” depois de 1974 o levara a menosprezar o Chega. O resultado eleitoral, que não lhe parece “notável”, induziu-o a estudar a sua formação, organização, literatura e recepção do partido, num estilo sóbrio, e com um vocabulário consagrado (“onda populista de direita”, etc.). No seu estudo, sugere várias coisas: que o Chega não está na genealogia da antiga direita nacionalista; que Ventura não tem as características do tipo de líder dessa tradição; que o discurso do partido é indefinido, devido à variedade de origens dos seus autores; que tudo tem dependido de oportunidades habilmente exploradas, com poucos meios, na imprensa e nas redes sociais; e que a deficiência de organização o deixa vulnerável a “infiltração de extremistas” (p. 117). Admite, finalmente, que o Chega possa servir, mais do que para derrubar o “sistema”, apenas para o alargar, com novos temas e actores. Nem por isso deixa de encerrar o estudo com uma dúvida sobre o sucesso do Chega, o que, presumo, não entusiasmará os activistas do partido

Perguntam-me: Marchi chegou a conclusões com as quais todos temos de concordar? Não, de maneira nenhuma. O livro de Marchi é universitário também no sentido em que se expõe honestamente à crítica: explicita os seus métodos, indica as suas fontes (entrevistas, documentos, imprensa), e admite o carácter hipotético das suas explicações. Para usar as expressões do autor, não é uma “apologia”, mas também não é uma “demonização”: é apenas uma tentativa de compreender. Ora, parece que para alguns cães de guarda da universidade, só a “demonização”, sem estudo, é aceitável.

Perante monografias deste tipo, era costume a academia reagir com recensões ou com debates em seminários. Não foi assim que 67 universitários resolveram reagir, mas com um abaixo assinado a propósito de uma entrevista. Ah, mas não, ninguém quer proibir o livro. Pois não, é pior: querem proibir o autor. O objectivo do manifesto – porque senão, para quê mandar um abaixo-assinado para os jornais? – é tornar Marchi um “autor maldito”, fechar-lhe as portas, sujeitá-lo aos rigores da nova cultura de “cancelamento” e “desconvite” – em linguagem chã, “lixá-lo”. Porquê? Porque ele se atreveu a estudar em vez de se limitar a ter as opiniões da extrema-esquerda universitária. E porque é preciso dar exemplos para inibir quem por acaso pense em sair do rebanho para investigar o que não deve ou concluir o que não lhe é permitido. Sim, este é um abaixo assinado contra a liberdade de pensar que é a razão de ser de uma verdadeira universidade.

Não me custa admitir que haja entre os assinantes quem não tenha essas intenções. Mais: quero acreditar que haja quem não tenha essas intenções, porque conheço alguns dos assinantes, a quem estimo e respeito. Vejo os seus nomes na lista, não como prova de que já não são as pessoas que eu conheci, mas como prova da força da extrema-esquerda, agora amparada pelo governo socialista, para criar na universidade e na comunicação social vagas de “grande peur”, capazes de ludibriar os menos avisados e arrastar os mais vulneráveis. Mas é ainda por esses nomes – que, repito, estimo e respeito -, que me custa dizer que este é talvez um dos actos mais vergonhosos da história da universidade portuguesa. Não vou dizer que é a mesma coisa, porque não é, mas merece ficar ao lado da resolução do conselho de ministros de 14 de Junho de 1947, em que vários professores universitários, então no governo da ditadura, usaram os seus poderes administrativos para expulsar da universidade muitos colegas que não partilhavam a fé salazarista. No caso do abaixo-assinado contra Marchi, o objectivo é o mesmo; os poderes dos signatários é que ainda não chegam a tanto. Aos que prezam a liberdade universitária, resta esperar que nunca estes signatários cheguem a ter o poder dos seus colegas salazaristas. Porque agora já não pode haver dúvidas sobre como o usariam.