1. Quanta desfaçatez cabe num tempo de antena de 50 segundos? Tal como naqueles anúncios em que 50 pessoas se encaixam dentro de um Renault Clio, a resposta é esta: cabe muita mais do que se poderia imaginar. Numa das suas publicações das redes sociais, o PS lançou um spot de campanha no qual, embalados por um piano melancólico, o candidato Pedro Marques e dois responsáveis da campanha socialista tecem considerações teatralmente emocionadas. Sobre o quê? Sobre a possibilidade de famílias separadas pela crise e pela emigração (no período da troika) se poderem juntar novamente com o regresso dos jovens emigrantes – tudo tornado possível pelas políticas do governo (exemplificado pela organização do WebSummit em Portugal). A ideia é simples: associar PSD-CDS aos cortes orçamentais e à crise económica e, do outro lado, atribuir ao actual governo o final de um calvário social, aliás na linha do que tem sido a campanha do PS, que sugere que votar na direita é apelar por sanções económicas. Ora, escusado será dizer que a realidade é outra coisa bem diferente: os socialistas faliram as contas públicas (2007-2011) e estenderam a mão à troika, com todas as consequências que daí resultaram – incluindo o aumento da emigração – e das quais hoje limpam as mãos, responsabilizando terceiros e puxando para si os louros de um ajustamento financeiro que, durante anos, criticaram.

O spot tem todos os ingredientes necessários para ilustrar um ponto fundamental. Não, não se trata apenas de desmentir a propaganda eleitoral do PS, que não cede a limites demagógicos, nem a questão consiste em lamentar que, em período de campanha para as europeias, os partidos tradicionais (PS-PSD-CDS-BE-PCP) tenham optado por guiar as suas campanhas para longe dos assuntos europeus. O ponto que importa assinalar é o contra-senso de um partido com as responsabilidades do PS manter este discurso demagógico no coração da sua mensagem política e, simultaneamente, se apresentar como bastião contra as ameaças do populismo na Europa. Desculpem, mas não dá para engolir.

A história verdadeira conta-se ao contrário: o PS não é um bastião de resistência aos extremismos, mas sim uma semente que faz crescer à sua volta populismos anti-sistema. Porque não abdica de campanhas que iludem quanto às suas responsabilidades políticas. Porque foi a plataforma política que serviu um plano de domínio da sociedade portuguesa – através de Sócrates e do aparelho partidário nos seus governos, sucedendo-se ainda hoje as investigações a actos de corrupção. Porque é o grande protagonista da colonização do Estado e da distribuição de cargos públicos por redes familiares ligadas ao partido. Porque reage com silêncio e indiferença perante as denúncias de abusos dos seus dirigentes e deputados. Porque não se envergonha do seu passado recente e até recompensa quem o encabeçou: muitos estão actualmente no governo, outros estão em Bruxelas, como Pedro Silva Pereira que, apesar de estar escondido da campanha, integra as listas do PS às actuais eleições. Porque vive actualmente de oportunismos políticos – tanto se alia a Macron (contra os socialistas europeus) e aos liberais, como celebra o património das esquerdas unidas na geringonça, que aproximou radicais do poder.

2. Há uma lição que em Portugal ainda poucos assimilaram: nada dá mais força aos populismos do que o sectarismo de partidos que, de tão instalados, se comportam como donos disto tudo. A nível europeu, as bases eleitorais dos partidos de governo têm sido corroídas pela corrupção e pela desfaçatez dos seus líderes. Em Portugal, essa onda de devastação ainda não chegou. Aliás, o PS e, para todos os efeitos, o PSD e demais partidos tradicionais portugueses confiam que não chegará. Mas estão iludidos. Tal como está iludido o PS sobre o seu papel neste combate ao populismo.

A crise de representação política já é um facto indesmentível, com um número recorde de movimentos e partidos a nascer e apresentar-se a votos. Mais cedo ou mais tarde, as muralhas que defendem o status quo partidário irão ceder. Esta campanha eleitoral foi, por isso, uma oportunidade perdida para os maiores partidos se renovarem atempadamente. O destaque desta campanha eleitoral é aliás esse contraste: as campanhas de Paulo Sande (Aliança), Ricardo Arroja (Iniciativa Liberal) e Rui Tavares (Livre) distinguiram-se pela positiva porque foram sérias, elevadas, inteligentes e guiadas por ideias. Foram, em síntese, um farol de decência no meio da habitual indecência das campanhas negativas e da demagogia que nivela os cidadãos por baixo – ao lado de qualquer um deles, a campanha do PS e Pedro Marques (dos spots à própria mensagem) é uma vergonha total. Olhando às sondagens, destes candidatos apenas Paulo Sande tem hipóteses de ser eleito (pessoalmente, espero que o seja). Mas, aconteça o que acontecer no domingo, o exemplo está dado e o país ganharia caso os partidos com assento parlamentar o seguissem: para combater o populismo e ser viável nos próximos anos, a política terá de vencer o cinismo e recuperar o brilho de quem defende ideias em que realmente acredita.