Rádio Observador

Eleições

Uma grande coligação da direita /premium

Autor
187

É agora que PSD e CDS terão de decidir como pretendem sair da noite eleitoral de Outubro e em que condições farão a refundação da direita: sozinhos e derrotados, ou juntos e eventualmente vitoriosos?

Saídos de uma estrondosa derrota eleitoral, PSD e CDS analisaram os resultados e garantem que deles souberam retirar as devidas lições. O que concluíram então? No PSD, considera-se que é preciso passar a mensagem aos eleitores “até à exaustão” – como quem acredita que a escassez de votos teve raiz em falhas de comunicação. No CDS, a estratégia consiste agora em abandonar o discurso ideológico (e mais conservador) da campanha de Nuno Melo e adoptar um estilo mais pragmático de propostas concretas. Ora, ambos falham no diagnóstico. O problema do PSD não está na comunicação da mensagem, mas na ausência de uma mensagem. O problema do CDS não começou na campanha de Nuno Melo às europeias, mas há dois anos quando fixou o objectivo de liderar a direita portuguesa sem exibir um projecto político para o país. Ou seja, PSD e CDS sofrem de um mal comum: pedem votos mas não oferecem uma resposta à pergunta fundamental – quem é que PSD e CDS representam e que visão defendem para o país? É este o ponto onde Rui Rio e Assunção Cristas estão a falhar: antes de ser eleitoral, o vazio da direita é intelectual, cultural e político.

Recuemos 10 anos. Em 2009, a crise internacional e os erros do governo PS na promoção de mais endividamento do Estado afundaram as contas públicas. Nessa altura, PSD e CDS assumiram-se como os bastiões de reformas estruturais da economia, no sentido de prevenir que Portugal caísse no buraco negro da bancarrota. Mais: a direita propôs libertar a sociedade portuguesa do plano de domínio encabeçado por Sócrates. Sim, ambos os objectivos falharam porque PSD e CDS perderam as eleições legislativas desse ano. Mas, apesar da derrota, construíram o projecto político que guiou a sua actuação nos dois anos seguintes e com o qual se apresentaram a votos em 2011, nessa altura já com o debate temperado pelas propostas liberais de Passos Coelho (publicadas em livro). Gostasse-se dele ou não, existia um projecto político perceptível.

Nos anos de governo PSD-CDS (2011-2015), foi naturalmente esse projecto político que enquadrou o posicionamento da direita parlamentar – com virtudes e com erros próprios de quem governa num contexto tão ingrato quanto aquele. Foi também esse projecto político que deu substância à coligação “Portugal à Frente”, que venceu as eleições legislativas (2015) contra as expectativas gerais. E, por fim, foi esse projecto político que forçou a esquerda (no limiar da sobrevivência) a forjar uma improvável geringonça – que desse poder ao PS, que travasse privatizações e que salvasse os sindicatos do PCP.

Hoje, em 2019, esse projecto político está esgotado. Sucumbiu há dois anos quando, através de Mário Centeno, o governo PS vestiu a camisola do Eurogrupo, das contas certas e dos défices baixos. Não que o projecto fosse apenas isso, mas a trave-mestra do discurso de PSD e CDS foi absorvida pelo governo. E, portanto, desde 2017, PSD e CDS deixaram de ter uma oferta estruturalmente diferenciadora, ficando sem guião – não só nada de concreto têm a dizer ao seu eleitorado como a sua própria actuação deixou de estar enquadrada por alguma coerência. O desnorte no caso da reposição do tempo congelado nas carreiras dos professores foi a prova mais espectacular: PSD e CDS fizeram um cálculo táctico errado, sim, mas que só foi concebível na cabeça das suas lideranças porque, precisamente, não existe uma orientação política que estabeleça um rumo e linhas vermelhas. Afinal, só anda aos ziguezagues quem não se sabe para onde quer ir.

Esse vazio de projecto político já não tem como ser preenchido a tempo de ir a votos. Mas é agora, a 4 meses das eleições legislativas, que PSD e CDS terão de decidir como pretendem sair da noite eleitoral de Outubro e em que condições farão essa necessária refundação da direita: sozinhos e derrotados, ou juntos e, eventualmente, vitoriosos? Porque é possível repetir o resultado eleitoral de 2015: vencer e pressionar o PS a formar uma coligação de derrotados (como a geringonça o é). Porque, no curto prazo, uma união das direitas seria uma prova de vida e a forma mais eficaz de mobilizar o eleitorado – não será com propostas sectoriais avulsas, mesmo que interessantes, que a direita se irá reabilitar. E porque uma grande coligação estabeleceria a base política para a refundação que ocupará a direita a partir de 2020 – uma reflexão que só fará sentido se envolver todos, dos sociais-democratas aos centristas, dos conservadores aos liberais. É esta grande coligação um cenário muito improvável no actual contexto? Sem dúvida que sim. Mas são momentos como estes, em que o caminho certo é o mais arrojado, que definem as lideranças. Estarão Rui Rio e Assunção Cristas à altura?

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros de órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Racismo

Quotas raciais? Uma péssima solução /premium

Alexandre Homem Cristo
180

Só com informação fiável se podem realizar bons diagnósticos e só com estes se conseguem desenhar políticas públicas eficazes – em vez de soluções “faz-de-conta” para problemas incompreendidos.

Crescimento Económico

Portugal na liga dos últimos /premium

Alexandre Homem Cristo
207

A economia pouco cresce. Mas o discurso oficial ignora a existência dos desafios económicos e não reage ao facto de, comparativamente aos seus parceiros europeus, Portugal estar a ficar para trás.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)