Apesar da sua idade avançada, o Cónego Jeremias gosta de estar a par da actualidade. Se, no cenário internacional, sofre com as guerras na Ucrânia e na Terra Santa, a nível nacional, são as próximas eleições legislativas que mais o preocupam.

– Bom dia, Senhor Cónego! Que me diz destas eleições?

Se quer que lhe diga, não estou entusiasmado com o panorama: os candidatos são, em geral, fracos e os debates pouco esclarecedores. É tudo mais do mesmo!

– Mas vamos ter uma nova Assembleia da República e um novo governo.

Sem dúvida e há esperança de que as mudanças sejam para melhor. 

– Como sabe, a Conferência Episcopal Portuguesa emitiu um comunicado sobre as próximas eleições …

Sim, mas não teve impacto na comunicação social, nem na opinião pública. Temo que a irrelevância mediática da Igreja Católica, cuja voz quase não é tida nem achada, seja uma consequência da pandemia, quando o Estado se habituou a mandar na Igreja! 

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– Com efeito, até a Direcção-Geral da Saúde publicou uma nota sobre o modo como os fiéis deviam comungar! Um total desrespeito pela independência e autonomia da Igreja numa questão fundamental, que é da exclusiva competência das autoridades eclesiais!

Pois foi: o Estado mandou e a Igreja obedeceu, numa gritante violação dos direitos, liberdades e garantias constitucionais, bem como da lei da liberdade religiosa. Criou-se um perigoso precedente, de que agora estamos a sofrer as consequências.

– E o Senhor Cónego acha que a Igreja deveria alertar os fiéis para alguns temas a ter em conta nas próximas eleições legislativas?

Pois claro! Estes últimos oito anos foram terríveis não só para a saúde pública, para a justiça e para a habitação, como é sabido, mas também para a família, para a educação e para a vida!

– Quer dar alguns exemplos?

Com certeza! Como sabe, foi recentemente promulgado um diploma que pune, com penas de prisão, quem pretenda ajudar alguém no sentido do que é natural e cristão. Se alguém quiser mudar de sexo – embora de sexo ninguém muda, como é óbvio – pode fazê-lo à conta do Estado. Mas se alguém quiser, consciente e livremente, reverter uma sua tendência afectiva, não pode contar com a ajuda de profissionais porque, se estes a prestarem, arriscam-se a perder o direito ao exercício da profissão e até podem ser condenados a uma pena efectiva de prisão!

– E na educação?

Quer maior aberração do que a ideologia de género?! Apesar de a Constituição proibir que o ensino seja ideológico, a ideologia de género está a ser implementada, a nível nacional, através da disciplina de Cidadania e Desenvolvimento. E olhe que quem o diz é o deputado socialista Sérgio Sousa Pinto que, numa entrevista na televisão, até leu o temário dessa disciplina que, na realidade, mais não é do que ideologia de género pura e dura.

– Em relação à vida, que fez o último governo?

Então, foi o governo que introduziu no nosso país, ao arrepio da Constituição, a eutanásia e o ‘direito’ ao suicídio assistido!! Como sabe, o partido que tinha maioria absoluta aproveitou essa circunstância para impor essa aberração constitucional. O PSD tinha-se comprometido a exigir um referendo nacional sobre esta questão, mas depois deu o dito por não dito. E o Presidente da República, que nunca disse que era contra a eutanásia, nem sequer na campanha para a sua reeleição presidencial, promulgou esta lei iníqua, quando poderia e deveria não o ter feito.

– Mas há, agora, alguma esperança de que sejam revistas as leis que permitem a eutanásia e o aborto em Portugal?

Se havia, agora já não há! Com efeito, o candidato a deputado pelo CDS/PP, Paulo Núncio, teve a coragem de dizer que a actual lei do aborto poderia ser revertida por um referendo, mas foi logo desmentido pelo chefe do seu partido e pelo líder da AD. Depois de dois referendos sobre o aborto, com resultados contrários, agora pode não ser o melhor momento para fazer uma terceira consulta popular, mas a questão da defesa da vida não é negociável para um cristão coerente. É uma das tais linhas vermelhas que não podem ser ultrapassadas.

– Então, que acontecerá se a AD ganhar as eleições?

Se a AD ganhar as eleições e houver um governo PSD/CDS, o mais provável é que fique tudo na mesma, no que diz respeito à defesa da vida desde a concepção e até à morte natural, a não ser que precise de apoio parlamentar e o mesmo não lhe seja dado se não se comprometer a rever as leis da eutanásia e do aborto.

– Não lhe parece lamentável que, num país em que 80% das pessoas se identificam como católicas, não haja políticos que defendam a vida humana?!

De facto, é triste. Jesus Cristo disse, há dois mil anos, que os filhos das trevas são mais astutos do que os filhos da luz (Lc16, 8).

– Não há também excessiva passividade por parte dos políticos cristãos?!

Salvo alguma honrosa excepção, são tíbios. Diz a Bíblia: “conheço as tuas obras, que não és frio, nem quente. Oxalá fosses frio ou quente. Mas porque és morno, nem frio nem quente, vou vomitar-te da minha boca” (Ap 3, 15-16).

– Quer isso dizer que o Senhor Cónego não vai votar nas próximas eleições?!

Votar vou, porque é um direito e um dever de todos os cidadãos, mas ainda não decidi em quem. Depois das declarações do líder da AD sobre o aborto, um católico coerente tem dificuldade em votar, em consciência, em (Monte)negro … Ora, em boa lógica, se não pode votar em negro, não tem outra opção que não seja votar em branco, porque em caso nenhum votaria nos partidos que aprovaram a eutanásia: PS, BE, IL, PAN e Livre. 

– Mas o voto em branco, como o voto nulo, é um voto inútil …

Como é óbvio, estava apenas a contrapor ao nome do líder da AD o voto em branco e não a propor esse voto que é, de facto, irrelevante. Mas deixe-me que lhe diga, agora a sério, que só há duas formas de estar na política: por valores e princípios, ou então por interesses. Ou seja, só há dois géneros de votos: o voto em consciência e o voto útil. Pode-se e deve-se votar no partido menos mau, para evitar uma opção pior, segundo o princípio do mal menor, mas não votar num partido péssimo, para evitar um partido igualmente mau. Na Alemanha nazi, um católico não poderia votar em Hitler, nem em Stalin, mesmo sabendo que este era o pior inimigo do outro, e vice-versa. Felizmente, não é essa a situação actual do nosso país, mas mais vale um voto em consciência, embora inútil, do que um voto útil contrário à liberdade e à dignidade humana.