Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és. Ditado certeiro, a sua luz ilumina a decisão do Governo português de romper fileiras com os seus aliados tradicionais – o Reino Unido antes de todos os demais, os aliados da NATO e da União Europeia e também os Estados Unidos – e não expulsar nenhum diplomata russo.

Sibilina e hipócrita, a nota do Ministério dos Negócios Estrangeiros justifica a decisão argumentando que “Portugal acredita que a concertação no quadro da União Europeia é o instrumento mais eficaz para responder à gravidade da situação presente”.

Como? Li bem? Então a maioria dos países da União Europeia concerta a decisão de expulsão de dezenas de diplomatas russos e Portugal não expulsa nenhum porque… “acredita na concertação”?

Não sei de que “concertação” estará o ministro Augusto Santos Silva à espera – sobretudo se considerarmos que esta concertação nas expulsões (deixadas porém ao critério de cada país) foi decidida no Conselho Europeu da semana passada, onde António Costa esteve presente. Mais: uma tomada de posição formal, de força, da União Europeia, tratando-se de um assunto de política externa onde se requer a unanimidade, já se tinha visto ser impossível de conseguir. Países com governos próximos de Moscovo, ou líderes admiradores de Vladimir Putin, com a Grécia de Alexis Tsipras à cabeça, já se tinham oposto a essa possibilidade, daí resultando apenas uma declaração comum suficientemente desvitaminada para nada representar.

O que entretanto 19 dos 28 países da União – incluindo todos os grandes – e mais um conjunto de outros aliados com os Estados Unidos à cabeça (mas incluindo o Canadá, a Austrália, a Noruega, a Ucrânia, a Albânia, a Croácia e a Macedónia) decidiram fazer foi enviar a Moscovo um sinal poderoso através da expulsão de mais de 100 diplomatas, um gesto a que a NATO também se associaria na terça-feira. Se isto não é concertação, o que é concertação?

Mas se o cinismo desta declaração é evidente, a vergonha de olhar para a lista daqueles que nos acompanham na falta de solidariedade com o Reino Unido é a vergonha de sentir que este Governo nos atrelou ao comboio de putinistas e proto-autoritários.

Quem, na União Europeia, ficou de fora deste gesto colectivo? Aqui fica a lista: Portugal, Grécia, Áustria, Malta, Chipre, Eslováquia, Eslovénia, Bulgária e Luxemburgo,. Vale a pena perceber a quem Portugal resolveu juntar-se:

Primeiro que tudo, a Grécia, que tem feito por diversas vezes papel de cavalo-de-troia de Moscovo no seio da União Europeia, que chegou a considerar virar-se para a Rússia como aliado preferencial durante a crise da dívida e que tem na coligação governamental um partido putinista.

Depois a Áustria, um país que ainda tem o argumento da “neutralidade” – não faz parte da NATO –, mas onde o mais significativo é que o partido de extrema-direita que integra a coligação no poder é também putinista.

Malta é aquele país onde os oligarcas russos têm comprado a cidadania europeia em troca de 650 mil euros, um país governado por um governo socialista que se eterniza no poder apesar dos endémicos escândalos de corrupção, uma ilha onde uma jornalista que investigava esses casos foi friamente assassinada.

Chipre, para quem não se recorda, é o país cujo sistema bancário depende de depósitos russos, uma realidade para que despertamos durante a crise financeira.

Passando à Eslováquia voltamos a encontrar um socialista no poder, um autocrata que tem utilizado métodos muito semelhantes aos do húngaro Victor Orbán – trata-se de Robert Fico, que este mês foi obrigado a demitir-se, mas passando o poder ao seu braço direito, isto depois do assassinado do jornalista Ján Kuciak, conhecido pelo seu trabalho de denúncia da corrupção com ligações à máfia italiana.

Quanto à Eslovénia tem neste momento um governo enfraquecido, tal como a Bulgária, sendo que a dependência deste último país de negócios com a Rússia, em especial na frente energética, é muito grande.

Por fim o minúsculo Luxemburgo que, ao menos, deu uma desculpa plausível: como só tem dois diplomatas em Moscovo, uma possível retaliação do governo de Putin poderia deixar o Grão-Ducado sem representação na capital russa. Mesmo assim convém notar que é país que depende do seu sistema financeiro e, quando falamos de um sistema financeiro em regime de quase off-shore, falamos também de dinheiros russos.

É esta a companhia em que o governo de António Costa resolveu colocar o nosso país. São estas diferentes situações disfuncionais com que a União Europeia tem convivido pacificamente, sem sobressalto e muitas vezes fazendo que não vê, são estes governos muitas vezes pouco dignos da UE cuja natureza se tornou mais gritante nesta crise e que, agora, ganharam a companhia política de Portugal.

De certa forma não devemos surpreender-nos. As porcas e parafusos que vão mantendo a geringonça de pé não fazem esquecer que, para o actual Governo se manter em funções, depende do apoio de dois partidos que não gostam dos nossos aliados – não gostam do Reino Unido, não gostam dos Estados Unidos, não gostam da NATO, não gostam da União Europeia. Creio que o Bloco ainda alinharia numa demonstração de força anti-Putin, mas do lado do PCP continuam a fazer lei as velhas referências e, mesmo não sendo a Rússia a URSS de outros tempos, quando as coisas apertam é do lado da Rússia que encontramos os comunistas. E não se pense que estes disfarçam ou têm remorsos: ainda esta semana, no Avante, o que se está a passar em Ghouta, na Síria, onde as forças do regime de Bashar al-Assad com o apoio russo têm provocado verdadeiros massacres, é descrito como sendo a “libertação” pelas tropas de Damasco desse enclave rebelde.

O desalinhamento do governo português é tão mais grave como o que está em causa é mostrar ao regime de Vladimir Putin que não pode continuar a actuar impunemente, sem respeitar quaisquer regras, agora não apenas na longínqua Ucrânia, mas nas nossas democracias, ora tratando de interferir em processos eleitorais (Brexit e eleição de Trump), ora recorrendo a armas químicas para tentar liquidar inimigos políticos, e usando armas banidas do espaço europeu desde o fim da II Guerra, há mais de 70 anos. De facto a tentativa de assassinato por envenenamento do antigo espião russo Sergueï Skripal e da sua filha no Reino Unido não permite dúvidas: o agente utilizado foi um gás que actua sobre o sistema nervoso desenvolvido na Rússia ainda no tempo da União Soviética e a seu manuseamento naquele caso não era possível senão realizado por especialistas. Há ainda muito por investigar e esclarecer, mas os criminosos deixaram lá impressões digitais que apontam, sem margem de dúvida, para Moscovo.

Durante demasiado tempo a Europa (e os Estados Unidos) contemporizaram com as práticas da Rússia de Vladimir Putin. E Putin, como velho mestre que é, formado na escola da URSS e do KGB, nunca deixou de ir forçando a nota, de ir de cada vez um pouco mais longe e ganhando mais espaço de manobra e influência. Por uma vez os velhos aliados puseram-se de acordo para enviar ao Kremlin um sinal de que não vão continuar a recuar e a tolerar o intolerável.

Ora foi precisamente neste momento de rara unidade que Portugal preferir romper fileiras. É uma falta de solidariedade que não deixará de ficar registada e que terá consequências negativas no futuro. Maldita geringonça.