A pouco e pouco, chega o desinteresse. Não é algo que venha por uma decisão qualquer ou por uma simples necessidade privada. Vem do tédio, do puro e simples tédio que resulta da observação de uma repetição para a qual parece não haver fim à vista. O PS tomou conta de tudo. Não é preciso dar exemplos de cargos ou nomes, porque eles estão em todo o lado. Todos os dias chega algo de novo – uma nomeação, uma lei, qualquer coisa assim – que confirma, e consegue ainda acentuar, o que já vinha de trás. Não há nada que lhe escape. Portugal está inteirinho nas mãos do PS. Vale sem dúvida a pena analisar o processo que conduziu a esta situação, mas, à falta de alternativa palpável, mesmo as melhores explicações não produzem efeito na realidade. Em perfeita democracia, o PS meteu Portugal, onde a liberdade não é um bem que se preze por aí além, no bolso. E viver no bolso do PS, enquanto o PS vive do nosso bolso, é um destino que vai ser o dos portugueses – porque muitos o querem, sem dúvida – por muito, muito tempo.

Não há, é claro, alternativa discernível. O maior partido da oposição, o PSD, que deveria naturalmente congregar em seu torno as forças que se opõem a este Governo cada vez mais comandado por um Partido-Estado, abdicou por completo da sua missão. O seu chefe iniciou-se com querelas teológicas – “O PSD não é de direita” – e prolongou o seu discurso com um auto-elogio ético permanente que é o vazio exibicionista da política levado aos seus extremos mais radicais. Falta-lhe ainda toda e qualquer sensibilidade para a questão da liberdade e nenhuma transformação do seu carácter inteligível é sequer remotamente previsível. Pelo caminho, lançou pela borda fora todas as cabeças pensantes que o PSD tinha adquirido nos tempos de Passos Coelho, quanto mais não seja porque o poderiam confrontar com os seus limites. No mais fundo do seu ser, continua a ser um candidato à presidência da Câmara do Porto, como facilmente se vê pelas suas querelas, a propósito ou a despropósito, com o actual presidente da Câmara.

O PS não tem com que se incomodar. As avenidas à sua frente estão todas abertas. Ao ponto de se poder celebrar a si mesmo sem pudor algum. O pudor é uma virtude política, mas o PS não precisa dela. Daí ter nomeado, para a organização dos 50 anos do 25 de Abril, um indivíduo que é todo ele um precipitado dos costumes da casa, Pedro Adão e Silva. Sob o manto diáfano do comentário político – e, ó versatilidade!, também do comentário futebolístico -, este excelente Pedro nunca hesitou em participar em todas as iniciativas em que o PS julgou poder beneficiar dos seus talentos. Entre elas, no consulado de Sócrates (mas a sua actividade começa já nos tempos em que Ferro Rodrigues era secretário-geral), a colaboração num projecto que, sejam quais forem os critérios adoptados, qualifica definitivamente como infrequentável quem por lá tenha passado. Refiro-me ao blog “Câmara Corporativa”, onde, sob o nome genérico de “Miguel Abrantes”, vários apoiantes de Sócrates (Pedro Silva Pereira, João Galamba, e por aí adiante) atacavam anonimamente quem ousasse pôr em questão o “menino de ouro” (obscena expressão) do PS. Dos mais relevantes aos mais insignificantes. Até eu, que escrevia à altura no jornal i, passei por lá referido uma vez ou outra, uma delas sugerindo generosamente o meu despedimento.

Pois bem, os serviços, mesmo os anónimos, foram recompensados. Pedro Adão e Silva vai presidir, durante cinco anos, seis meses e vinte e quatro dias, por resolução do Conselho de Ministros, à comissão executiva das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril (tal como há uma “longa Covid”, também há um “longo 25 de Abril”). E isso com o simpático ordenado mensal de 3.745, 26 euros, mais 780.36 euros de despesas de representação. Isto, podendo manter a sua remuneração enquanto professor auxiliar no ISCTE e o que recebe como colaborador do Expresso, da TSF, do jornal Record, da RTP e da Sport TV. Além de, é claro, este titã do pensamento e da acção socialistas, poder contar com mordomias diversas e uma equipa, obviamente também remunerada, com uma extensão que se pode alargar. Decididamente, se não foi para isto que “se fez o 25 de Abril”, devia ter sido.

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Marcelo Rebelo de Sousa revelou que, aos seus olhos, esta nomeação é “relativamente consensual”, até porque estamos na presença de um “historiador” com obra feita. Suponho que o consenso que ele vê foi detectado ao inspeccionar a velocíssima e contraditória movimentação das suas próprias sinapses. Infelizmente, Pedro Adão e Silva não é historiador, é sociólogo. Houve por ali uma badana mal lida. E é sociólogo mesmo na acepção que há muitos anos deu ao termo Vasco Pulido Valente: o produto do cruzamento de um socialista e de um astrólogo. Deve, de resto, ter sido isto que o tornou num apetecível objecto de eleição para António Costa.

Uma vez não são vezes, escrevi este artigo mais para me aliviar do que por outra coisa. Portugal está de rastos e a tentação de desviar o olhar é cada vez mais forte. Ver o que se passa à nossa volta dói e faz mal, até porque não se vê saída alguma. Reduz-nos e menoriza-nos. No outro dia, li um provérbio da costa do Malabar: Aquele que olha por demasiado tempo os macacos, torna-se semelhante à sua sombra. É exactamente assim. E, no tempo que me restar de vida, gostaria de ter um destino diferente.