Há poucos dias, Pedro Gomes Sanches escrevia aqui com toda a razão: «Portugal é um dos países mais pobres, mais devedores e dependentes do exterior, menos escolarizados, menos inovadores, e com um dos sistemas de justiça mais ineficazes da zona Euro». Infelizmente assim é e, se alguém tem a responsabilidade disto, quatro décadas e meia depois do 25 de Abril, é sobretudo a chamada «esquerda».

Com efeito, o PS não tem sabido fazer outra coisa que não seja resistir ao desmantelamento do legado corporativo salazarista. Talvez por isso, tem-se mantido no poder quase tempo como a «direita» do PSD+CDS, a qual é quase tão conservadora como a «esquerda». O PS tem vivido sobretudo de comprar o apoio servil do funcionalismo público e de criar uma rede de «segurança social» tentacular, bem como serviços de educação e de saúde em aumento incomportável, nos quais o país empreendedor vê consumir-se praticamente metade do PIB!

Resta a outra metade, isto é, a escassa actividade produtiva do país que, neste momento, ainda não sabe como vai retomar o funcionamento nem tão pouco se virão alguns fundos da União Europeia. Já sabemos que o actual 1.º ministro quer que ela lhe dê o dinheiro sem juros para não fazer saltar a dívida mas é improvável. Dito isto, desta vez não é de excluir que a UE tal como a conhecemos se desfaça e regresse ao «clube de élite» inicial à escala dos Estados Unidos e da Inglaterra, mas sem o pulso que a defesa militar exigiria e que a UE nunca quis pagar…

Ninguém o quer dizer em voz alta mas o certo é que nos encontramos num cenário politicamente inquietante, pois não é apenas a economia que está em cavacos, mas também cada uma das sociedades afectadas, bem como a cena política internacional despedaçada entre potências demográficas, como a China, a Índia e a Rússia, e potências militares como os Estados Unidos e a Inglaterra. Foi neste quadro dantesco que o 1.º ministro local se lembrou de urdir a mais mesquinha das conspirações com a vista virada, única e exclusivamente, para a baixa política eleitoral, como se isto tivesse algum peso fora das nossas fronteiras…

Costa lembrou-se de se esquecer, se assim me posso exprimir, que o Estado português e ele próprio, como principal subscritor do Orçamento de Estado, tinham de pagar por estes dias a módica quantia de 850 milhões de euros ao «fundo abutre» ao qual o PS vendeu as sobras do BES, depois de ter ajudado a levá-lo à falência, quando na realidade prometera 5 mil milhões de euros à Lone Star a fim de não vender o «Novo Banco» à concorrência espanhola …

De truque em truque, fez-se esquecido das suas obrigações vis-à-vis do «abutre» e apontou para o antigo herói das finanças, o já despromovido ministro Mário Centeno. Montou então uma «rábula» na AutoEuropa, que visitava com o Presidente da República, convidando este último a candidatar-se à reeleição – presume-se com o apoio do PS – e fez de conta que ia demitir Centeno por ter privado o povo português de 850 milhões de euros que nos faziam imensa falta depois do confinamento e da paragem da economia real. Como sabemos pela continuação, ninguém foi demitido nem Costa negou a Centeno o futuro lugar de governador do Banco de Portugal… No género «farsa», não se faz melhor!

Vai daí, a embaixadora Ana Gomes, que não escondia a vontade de se candidatar à Presidência da República e desmontar a encenação mediática com que o actual presidente nos tem brindado, reclama com toda a razão que António Costa não é dono do PS. Maneira de falar, pois na realidade o partido nunca se manifestou contra as guinadas à «esquerda» e à «direita» dos seus primeiros-ministros. Dono ou não, o certo é que Costa declarou no minuto seguinte que o congresso do PS onde o candidato à Presidência da República seria escolhido só teria lugar depois de Marcelo ser eleito… Vai daí, a candidata Ana Gomes não irá ter hipótese de falar ao congresso do PS nem – presume-se – de ser eleita!

A novela está por terminar e contribuirá, certamente, para os «media» se entreterem enquanto a pandemia vai e volta. Entretanto, o candidato do «Chega» vai afiando a faca ao menor passo em falso e estes não irão faltar com o cenário que temos por diante. Dependendo do ponto em que se encontrará a pandemia até Janeiro de 2021 e sendo provável que ainda não haja vacina disponível, infelizmente, a corrida à presidência será animada. Quanto ao apoio de Costa à reeleição do actual presidente, garante-lhe uma «chance» de lhe suceder… Está o pior para vir? Se não matar, esfola de certeza!