Não é um problema que seja meu. Nem seu. Nem do seu vizinho. Pelo que vejo, trata-se, efetivamente, de um problema global. A pandemia colocou milhões de casamentos numa encruzilhada. Os números de pedidos de divórcio dispararam na China e já se começa a notar um aumento também na Europa.

Mas a pergunta é: porquê? Será que muitas pessoas não sabiam bem com quem tinham casado e só descobriram isso quando foram obrigadas a estar fechadas dentro da mesma casa? Ou será que a distância do dia-a-dia era exatamente o que “salvava” as relações? Ou ainda, será que muitos casais não estão apenas intoxicados por essa bizarra rotina condicionada, que 2020 nos impôs?

O fato é que, realmente, nenhum de nós fez seus votos de casamento imaginando esse cárcere privado. Aceitamos casar ou viver juntos imaginado uma rotina normal: bom dia, até logo, olá outra vez. Acho que poucos de nós teriam topado mergulhar num casamento se nos dissessem que a ideia era viver 24 horas por dia junto com a pessoa, quase sem possibilidade de sair de casa.

A realidade está muito viciada. Estamos todos com uma visão turva da vida. E, com o stress da pandemia- envolvendo doença, medo, desafios no trabalho, insegurança financeira e inúmeras mudanças no cotidiano – nós mesmos talvez estejamos irreconhecíveis. Soma-se a isso o caos doméstico, que faz com que muitas pessoas se sintam sobrecarregadas e injustiçadas dentro de casa.

Está tudo complicado e, seguramente, nenhum de nós está na sua melhor versão. É importante enxergarmos isso. O outro pode estar sendo alguém difícil de aturar. Mas, e nós? Estamos sendo absolutamente adoráveis? Não me parece. A autocrítica nunca foi tão importante quanto agora.

Converso com muita, muita gente. Homens, mulheres, brasileiros, portugueses, mais jovens, mais velhos, com filhos, sem filhos, ainda de quarentena ou já não. E percebo que na imensa maioria dos lares a coisa está realmente difícil – mesmo quando a rotina já começou, lentamente, a recobrar contornos mais familiares.

Temos, então, alguns caminhos possíveis: reclamar e não fazer nada para mudar o cenário; simplesmente desistir; buscar ajuda (profissional ou de amigos); brigar aos berros (cada vez mais altos); conversar com alguma calma; enxergar-se como vítima e o outro como vilão; estender bandeira branca enfim, há muitas possibilidades. São escolhas.

E também vale lembrar que, como diz minha avó, em geral, quando um não quer, dois não brigam. A questão é entender que talvez esse não seja o momento mais adequado para decisões importantes. Mas, sim, alguns problemas ficaram mais evidentes. E, sim, todo mundo está cansado.

Talvez seja o caso de dar tempo ao tempo e esperar até que os desafios não sejam tão gritantes. Talvez seja o momento de pensar com calma, olhando mais para o passado e para o futuro do que para o presente. Talvez seja o momento de se perguntar se se trata de uma história descartável ou de um projeto de vida que merece empenho.