Rádio Observador

Crónica

O Verão /premium

Autor

Quando as coisas “impossíveis” acontecem é como um certificado: sabemos que podem acontecer e por isso, voltar a acontecer. O desconsolo é maior que o consolo.

1. Durante longas semanas vi o fantasma do Verão galopar à minha frente sem nunca o apanhar. Estranha corrida. Se no Oeste o Verão sempre caprichou, este ano a cor do céu e a zanga do vento transfiguraram-no no ausente desejado (e não só nas minhas moradas).

Para alguém que espera pela “única estação” como por ”outra vida” e se vê desconsoladamente sem ela, não sei se foi mais injusto que triste. Onde estavam os dias sem fim, a luz, as noites quentes e os pés descalços? O solo acre de calor, a vida ao relento, ar quente da esteva cobrindo as dunas, o cheiro a maresia? O mar e as ondas e a volúpia disto tudo?

O desconsolo foi sempre maior que o consolo.

Quando as coisas “impossíveis” acontecem é como um certificado: sabemos que podem acontecer e, por isso, voltar a acontecer. Fica-se desconfiado. E como bem sabe quem é do mar, sem o mar fica-se fora de pé e de sentido. Na cinza das manhãs ou no frio das tardes fui-me virando para outras coisas, descobri algumas, coleccionei outras. Depois guardei-as, a elas, às pessoas com quem me cruzei, aos lugares onde estive. Passara Julho, morria Agosto, entrava Setembro e o Verão foi-me calhando assim.

2. Sorte minha, calharam-me as mãos de Artur Pizarro. Um deleite, num pequeno palco em Óbidos. Bach e Schubert tocadas num fôlego onde técnica e talento se diluíam com o mesmo grau de felicidade, o que talvez seja dizer muito sobre um pianista. Estava-se em Julho, na Semana Internacional de Piano de Óbidos (SIPO) que – mistério! — tendo vida demasiado discreta e holofotes renitentes, é apesar disso invariavelmente frequentado, desde há duas décadas, por plateias de melómanos, turistas civilizados, curiosos musicais.

Muito diferente de Londres para onde só a ausência do Verão me projectaria em Julho e onde a plateia era polifónica mas a trama e a fama do “Lehman Trilogy” impuseram o breve desvio geográfico. A história dos irmãos Lehman — isto é, a extraordinária história dos alvores do capitalismo — contada com rigor, minúcia e um interesse sempre aceso, estreou-se no National Theater há duas épocas. A seguir viajou para N.Y. e no regresso foi catapultada pelo West End com o mesmo estrondoso e estridente acolhimento. Ainda mais que o óptimo texto do italiano Stefano Massini e ainda mais, se possível, que a pasmosa representação — ah, os actores ingleses… — o segredo e a chave deste “acontecimento” chama-se Sam Mendes. Foi este homem da cena e do écran que com um golpe de asa que o inspirou a ser tão vertiginoso quanto prodigioso na sua encenação, nos “deu a ver” — mas tão brilhantemente — uma história que durou 163 anos e não deixou ninguém indiferente. E levando três (só três…) actores geniais, a permanentemente se desmultiplicarem, na pele de homens, mulheres, crianças, jovens, velhos, sem nunca saírem, por um minuto que fosse, de um cinematográfico cubo giratório onde, durante quase quatro horas, mora esta saga. Memorável.

3. Olhei sempre José Honorato Botelho como um patriarca não pelo porte ou a cabeça branca mas pelo que foi fazendo da sua vida que poderia dar um livro se os portugueses (se) escrevessem. Confundem-se ambos, ele os Açores, paisagem amada e mar que sempre procuro nos verṍes e este ano lá voltamos. José Honorato e o seu “Monte Simplício”, na ilha de S. Miguel também são indesligáveis: casa antiga, tapetes de hidranjas, plátanos centenários, criptomérias. Antiguidade. Alma. E uma largueza a perder de vista nesta ilha onde os Botelhos sempre tiveram pedra e terra. Biólogo de excelência, professor já jubilado com obra publicada, fazendeiro – vive há quase quarenta anos numa imensa fazenda no Estado de S. Paulo — e anfitrião generosíssimo lá e nos Açores, rendi-me há muito a este sábio das coisas da vida que tão bem conta boas histórias: as suas — onde sempre desaguam Portugal e o Brasil — e as dos outros, gente interessante com quem se cruzou ao longo dos anos. Conversar com ele torna o ambiente, as pessoas e as coisas subitamente mais amáveis. Aconteceu de novo este ano. Com a chuva deixando uma transparência aquosa na mais bela das mais belas paisagens portuguesas.

4. O Verão faltou à chamada mas – tenho de ser justa — houve algumas boas ondas no mar da “única estação”. Mas nem o Baleal, nem outros mares atlânticos da minha predileção que procurei com bom ou mau tempo estiveram, nem de longe, à altura da formidável reputação que merecem. Só a encontrei em águas açorianas (Água de Alto, Santa Bárbara…) onde as ondas se enrolavam como se jamais se viessem a desenrolar, connosco lá dentro, num borbulhar de sal e maresia. Os banheiros que o digam. São eles os meus grandes interlocutores nestes meses e não há praia onde vá onde não me entretenha em conciliábulos sobre a espantosa coreografia pela qual zelam com uma autoridade que não ouso pôr em causa: praia mar, baixa mar, ventos, ondas, marés, fundões, correntes, tudo entrelaçado num bailado que só os banheiros conhecem e eu não sei dançar como eles. Costumo obedecer-lhes e às vezes ocorre-me mesmo pedir -lhes que “fiquem de olho” nesta festa. Não sei se Ruy Belo gostava das ondas como eu. Mas sei que ele sabia porque é que o Verão era a “única estação”.

5. Em dias tingidos pela implacável meteorologia de Agosto, alguém acendia por vezes a televisão. Foi assim, na surpresa de um zapping meio preguiçoso que me cruzei com o professor João Paço, no écran. Um senhor. Conheço-o bem. Não por ser um dos melhores otorrinos do país, ou meu médico há décadas, por ter sido maratonista internacional de excelência ou benfiquista dos quatro costados. Não, conheço-o -e por isso deixo registo — pela rara “substância” de que é feito. A vida amplia-se com gente assim. Houve prémios, claro, muitas distinções e louvores (daqui a dias ser-lhe-á dada, pela Ordem dos Médicos, a mais alta condecoração atribuída a um médico, e é um dos muito poucos portugueses a ter recebido o Prémio de Honra da Academia Americana de Otorrinolaringologia) mas ele não cabe em homenagens nem elas abarcarão o que ele é e o que ele fez: o seu entendimento de “serviço”, a dimensão que lhe emprestou, a plasticidade generosa e muito inteligente com que o praticou, o uso que fez de si em nome dos outros (há anos que vai a S. Tomé e Príncipe por sua conta e risco tratar crianças).

Após 50 anos de médico e académico (professor catedrático Nova Medical School), acaba de se jubilar e a sua última “lição”, ocorrida recentemente, ficará inscrita como imagem forte do meu fraco Verão. Com altíssima qualidade científica, intelectual, humana, não leu, contou uma vida bem escolhida: o saber nunca desligado da exigência e da generosidade. A medicina foi-lhe a única vocação, “quando sabia que não podia curar, sabia que poderia sempre melhorar”. E o ensino, claro, “um médico tem de ensinar!”. João Paço procurou assim “replicar no seu pequeno hospital o que tinha visto e feito em Santa Maria” onde muito exerceu e leccionou. Replicou e bem: “com a minha força e empenho, a ajuda da Administração do Hospital da CUF e dos colegas da minha equipa criei as condições para chamar a atenção da Universidade, ter alunos e mais tarde Internato Médico e alunos de Doutoramento. Julgo sermos um caso único no país neste domínio.”

Sorriso feliz: “e em tão pouco tempo…”.

6. Nunca entre nós se quebrou o fio da amizade, podíamos vermo-nos muito ou pouco nas nossas vidas. Começou a tecer-se na Rua Duque de Palmela onde o André Gonçalves Pereira tinha o seu escritório, a mesma minúscula rua onde então se albergava o Expresso, meu local de trabalho na altura. O tempo transformou a amizade numa “entente” sentimental, tão cúmplice que acolhia ora discordância — com a mesma filosófica bonomia, por vezes cáustica ironia –, ora a concordância, mas sempre tingida por uma mesma e recíproca ternura. Durante meses e meses, quando por vezes ia almoçar com ele à sua casa da Marinha, fui insistindo com veemência para que falasse comigo diante de um gravador, vivera “pas mal de choses”. Que não. Este Verão transformou agora esse “não” num “nunca”. Mas partir no Verão é ainda mais triste, a “única estação” não é feita para despedidas como esta do André.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Política

E é isto /premium

Maria João Avillez

Nenhuma democracia resiste a funcionar só pela metade. Mas cerzir o profundíssimo rasgão no tecido político e partidário da outra metade irá demorar anos.

Crónica

Museológica da batata /premium

Tiago Dores

Somos um povo com inclinação para a filosofia, com dotes de abstracção tão bons, tão bons, que acabamos por ser mais fortes a discorrer sobre museus imaginários do que a visitar museus reais.

Política

A rentrée dos artistas /premium

Luís Reis
651

O PS oferece-nos os piores serviços públicos de sempre a troco de um crescimento anémico e da maior carga fiscal de todos os tempos. E proclama que este é o melhor dos mundos e assim devemos continuar

Crónica

Onde é que há gente no mundo? /premium

Paulo Tunhas

Abre-se um jornal ou vê-se uma televisão e só nos deparamos com doses cavalares de virtude a crédito que clama por integral satisfação e danação eterna dos que escapam à sua jurisdição.

Crónica

I love Portugal /premium

Alberto Gonçalves
2.410

Os portugueses lúcidos, coitados, padecem da esperança de que os portugueses restantes acordem para as delícias da liberdade. Sucede que para os simplórios a liberdade não é deliciosa: é uma ameaça.

Crónica

Por cá, na Quinta…

Pedro Barros Ferreira
200

Estes prodígios das finanças criticam tudo e todos, direita e esquerda. Nada lhes serve. O que interessa é o que Estado volte a abrir os cordões à bolsa (e nisso os socialistas são bons, sem dúvida).

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)