A alternativa não socialista, que esquerda denomina de “direita”, precisa de recuperar o centro político, desalojar o PS desse espaço que não lhe pertence e afirmar diferenças políticas que sejam percetíveis para o eleitorado.

Da mesma forma que direita, para efeitos deste texto é tudo o que não for socialista, socialista será, como não poderia deixar de ser, toda a amálgama que sustenta objetivamente o governo em exercício. Socialistas e comunistas não são, por ora, distinguíveis. Nem sequer na forma dócil como aceitam, que remédio, os “dictates” da UE.

A “direita” deve ocupar o centro que lhe pertence, por ideologia e praxis, através de:

  1. Políticas solidárias que, ao contrário da esquerda clientelista que nos tem governado, não esqueçam ninguém;
  2. Uma visão da economia que promova o crescimento da riqueza nacional.

Para isso, precisa de programa e de liderança.

Habitualmente, em democracias com representação partidária, as pessoas que apresentam as ideias são mais importantes do que as próprias ideias. Muito mais do que num partido as pessoas votam no líder partidário e o partido, por mais abrangente que seja, correntes ideológicas que tenha, ilustres militantes que albergue ou barulho que faça, é a imagem do seu líder. O líder tem de ter ideias, bem entendido, mas precisa de ser capaz de gerar confiança, ter carisma, ser mobilizador, inspirador e motivador.

A Dra. Assunção Cristas não é o Dr. Paulo Portas e ela, naturalmente, já deve ter descoberto isso. Todavia, tem ideias, às vezes boas, que procura explicar de forma simples e, há que admitir, mostrou-se preparada para a função a que foi guindada. Deve procurar fugir do modo “padeira de Aljubarrota”, moderar o excesso nas notas de indignação e concentrar-se numa visão mais técnica dos seus argumentos, já que a sua retórica, na comparação com Portas, ainda fica longe do ideal para campanha alegre que se adivinha. Está melhor na colocação do verbo, no tom e no domínio do timbre, reconhecendo que as cordas vocais femininas podem trair nas frequências mais altas. Convirá que a Dra. Cristas não se confunda, em momento algum, com os esganiços do sector que se senta à sua frente no hemiciclo. Acreditem, é de fazer doer os ouvidos. Sinceramente, sem querer estragar as ilusões da simpática líder do CDS, o eleitorado ainda poderá achar que ela não tem estofo para primeira-ministra. Em todo o caso, a líder do CDS pode ser um dos esteios do espaço não socialista que teima em ter partidos a mais, para lugares, ideias e políticos, a menos. Atenção PSD, deem-lhe a mão porque ainda vão precisar da Senhora.

No PSD há o Dr. Rui Rio, com problemas de comunicação que não consegue ou não quer resolver. Veja-se, a título de exemplo, o caso da anterior Procuradora – Geral – de que já ninguém se lembra – que Rio não queria, queria, já não queria, afinal pode ser, não me admiro que seja, também pode não ser, afinal não foi, uma vergonha não ter sido.

Rio não é desajeitado, nem é profissionalmente incompetente, é infeliz. Está convencido de que o seu estilo chega e que os dichotes são o seu maior património. Não é. Vejam-se, mais um exemplo, as recentes afirmações sobre a não necessidade de troca de líderes quando estes perdem eleições. Rui Rio anuncia que não sairá se perder. Saúde-se a resistência à pulsão de fuga, o que é louvável, mas não foi isso que as pessoas perceberam. Pode ter razão, o comandante não é o primeiro a abandonar o barco, mas foi infeliz. Logo se entendeu que era antecipação de derrotas futuras, daqui ninguém me tira, não saio e pronto, já disse, vamos ao fundo e eu vou no leme, nem que fique sozinho. Infelicidade que se estendeu à comparação de um líder partidário a Diretor Comercial.  Ao menos, para ser gerente, que fosse CEO. Rio deu-nos a sua visão do líder como uma espécie de vendedor ambulante. Ainda pior, e não digo mais, a parábola dos namorados que se casam. A ideia não era má, mas a metáfora foi desastrosa.

Tudo bem, não tem jeito para metáforas, mas isso não teria de ser grave. Bastaria ter alguém que as escrevesse para si. O que já é mais grave é não reconhecer que o seu humor, ácido e apreciável por alguns mais inteligentes, não cola com o eleitorado que quer conquistar. Pretende modernizar-se. Ótimo. Mas, se abriu conta no Twitter porque não quer uma agência profissional de comunicação? Para ser austero e poupadinho? Francamente, ninguém vai ligar a isso com a mesma atenção com que lhe vão perseguir os deslizes, as piadas de mau gosto, as tiradas em alemão.

Rui Rio, sendo Rui Rio, não pode fazer mais. Rui Rio tem de se transformar numa máquina ganhadora de eleições e talvez já não vá a tempo. O Dr. Rui Rio e a sua Direção, não parecem perceber que o problema não é a guerrilha no interior do PSD poder provocar uma eventual perda de votos. O problema é o que provoca a guerrilha dentro do PSD, a auto-alimentação do descontentamento. É isso que poderá provocar a perda de votos. Esperemos que não. Se for, resolve-se “dentro”, com política, e não em bate-papos na comunicação social.

A imprensa gosta de quezílias, tem vocação de gastrenterologista e anima-se com convulsões intestinais. Seja. Mas não se lhes dê tema. O líder deve falar para fora e ignorar as supostas guerras internas. E a toada da vitimização com as punhaladas nas costas já assola toda a clique Rioista. Todos se queixam do mesmo e dos mesmos, sabem quem são, os canalhas que fazem o jeito ao Costa, mas não lhes querem atribuir nomes. Sinceramente, acham que a maioria dos eleitores está vidrada em quem põe o veneno na sopa do Dr. Rio? Arranjem um provador e mudem de assunto.

Para vencer adversários externos, o líder não pode perder a parte mais significativa do seu tempo a cuidar dos inimigos internos. Em primeiro lugar, os inimigos internos nunca desaparecerão. Em segundo lugar, esses inimigos contornam-se, convencem-se, arregimentam-se. Em terceiro lugar, há sempre uns que ficarão para trás, a falar sozinhos, se não lhes der importância. Em quarto lugar, a perspetiva de vitória ainda é o que mobiliza um grupo de pessoas, seja quem for, para qualquer tipo de combate. Depois, medrar nos que serram os pés da cadeira em que nos querem sentar, é começar por procurar uma desculpa para a derrota que se antevê. Assim, logo à partida, está-se muito só e um solitário nem de si consegue ser o líder. Em último, os críticos podem ser os melhores amigos. Aprende-se sempre desde que estejamos dispostos a ouvir e a conversar.

Rui Rio precisa de uma ideia definidora de uma marca distintiva. O que é o “Rioismo”? O “Cavaquismo” foi um tempo de liderança forte, de afirmação internacional, de adesão à Europa, foi um conjunto de reformas que conduziram à destatização da economia socialista. “Passismo” foi tirar a Tróika de Portugal e isso foi muito mais do que os comentadores querem aceitar e valorizar. Para já, com a injustiça das análises de curto prazo, “Rioismo” tem sido comunicação difícil, ainda que num contexto de hostilidade e de desinteresse da maioria da comunicação social pela mensagem relevante, algumas más declarações que foram devidamente empoladas, más escolhas de causas, desastre na relação com a bancada parlamentar, falta de enfoque na apresentação de alternativas políticas diferenciadoras, imagem displicente, “azar” na selecção de alguns “companheiros” mais próximos, falta de sabão para a barrela ética e pogrom interno.

O Dr. Rui Rio, a fazer fé no que vamos lendo, fará depender a vitória mais dos erros do PS e menos das ideias próprias que ainda terá de apresentar. Não é mal pensado, mas não chega. Seja como for, o PSD não é partido com dimensão tão reduzida que possa perder uma, duas, três, quatro, cinco vezes, até que um dia. Se o PS comete erros, aproveitem logo, caiam em cima deles antes que a má impressão passe. E olhem que o governo tem dado abébias. Na saúde, há asneira que até ferve. E não tem melhorado. Estão à espera de quê?

Rui Rio ainda não tem marca nacional. Diz-se que gosta da regionalização e esse seria o seu maior objectivo na reorganização política e administrativa da nação. O seu trabalho no Porto, por melhor que tenha sido, não ficou registado no País todo. O Dr. Rui Rio tem de abandonar um discurso sobranceiro para dentro, quase desrespeitoso, com algumas máximas que poderiam ter funcionado num contexto de discurso regional, mas que não funcionam no todo nacional – estou “cheiinho de medo”. As suas boutades não derrotam a máquina de propaganda que ele conseguiu identificar – os do mediaticamente correto –, mas que não sabe combater. É certo que até pode ter razão em muito do que diz, na maioria do que diz, mas o conteúdo e a forma não colam, não inspiram, não motivam. Portugal precisa de um novo primeiro-ministro e não de um regionalista que veja o governo como um meio para criar regiões. Regionalizar é um desiderato político fraco. Geograficamente, Portugal é pouco extenso. Não o partam ainda mais. Num país pequeno ser regional é correr o risco de passar por provinciano.

A verdade, dura e inelutável, é que o Dr. Passos Coelho ainda não foi substituído, tal como o Prof. Cavaco Silva demorou muitos anos até o ser. O PSD precisa de um líder e não de um patrão. Até pode ser Rui Rio, não digo que não, quando nem o conheço proximamente, mas isso obrigava-o a transmitir a ideia de que está confortável no cargo. Rui Rio, com a sua postura de defesa baseada no ataque para dentro, acaba por nos fazer acreditar que ainda não está seguro enquanto líder do maior partido português. Ora, se nem no seu partido se sente seguro, como vai convencer a população a votar nele para primeiro-ministro? É preciso que se queira votar no PSD. O PSD tem de ganhar votos por si, para si e para poder liderar o processo de ocupação do centro político, de construção de reformas. O PSD tem de ser diferente do PS de António Costa. O PS pode precisar do PSD, mas o PSD não tem de precisar do PS. Para ser ganhador, o PSD precisa de um líder que seja o cimento, agregue e construa, e não apenas uma cola que junte cacos.