15 de Abril de 2020

Muito obrigado pela sua pronta resposta à minha carta, que li com prazer no passado sábado. E olhe: o seu lusitano está tão parecido com o meu, que se nota que seguimos os mesmos métodos! E também não é de admirar: o que fazem as amizades da vida!

Então como foi a sua Páscoa? Imagine que na minha terra a Igreja Anglicana/Church of England (como sabe sou Church of Scotland, em que, apesar de seguirmos a linha de Westminster, não temos bispos nem arcebispos, e a autoridade é apenas a Rainha), por causa do CV19, resolveu fechar todas os templos, até para os próprios pastores! Bom, não lhe conto o reboliço que isso criou. Muitos ministros fizeram um autêntico levantamento, e desobedeceram. Veio em todos os jornais, tudo à bulha, um espectáculo lamentável. Mas honra lhes seja feita, os Cristãos mostram ausência de egoísmo com o respeito com que as instruções estão a ser obedecidas. O Arcebispo de Canterbury foi muito contido, e rezou o Service de Páscoa na cozinha de casa.

Estou passado e de luto pesado com o desaparecimento do Stirling Moss. Bom, já tinha 90 anos… Além de ter ganho 222 das 494 corridas em que participou, era um gentleman em toda a acepção da palavra. Imagine que no Grande Prémio de Portugal de Fórmula 1 que foi disputado aqui no Porto onde estou enjaulado (mas a gostar…) no circuito da Boavista, o Mike Hawthorn quase ia perdendo o título mundial, que acabou por conquistar, graças ao cavalheirismo do Stirling Moss, que guiava um Vanwall. Hawthorn, num Ferrari, terminou em segundo lugar, mas foi desclassificado pois, após um despiste, fez marcha atrás e retomou a competição, manobra considerada ilegal pelo júri. Essa desclassificação roubava-lhe o título mundial que iria para Moss, que ganhara a corrida. Mas este, ao considerar injusta tal decisão do júri, montou tal escândalo que os juízes acabaram por reverter, e o Hawthorn foi proclamado campeão! Moss, modestamente, ao falhar a única vez em que poderia ter conquistado a coroa de louros mundial na sua carreira, disse na altura ao Nicha Cabral que achava que o Hawthorn teria feito o mesmo por ele! Nesse dia, o herói nacional, que era o Casimiro de Oliveira, irmão do Manuel de Oliveira, ficou em último! Eu andava de calça curta, e assisti à corrida empoleirado no muro da casa do Conde de Vizela, mesmo em cima da curva do Castelo do Queijo, a melhor curva, onde não recordo como consegui entrar. Fiquei entusiasta da Fórmula 1 para a vida!

Essa história que o Hans me contou de não querer que a sua empresa de telecomunicações invista no 5G cheira-me que está influenciada pelas teorias de conspiração que cirandam em todo o lado. Lá na minha terra essa nervoseira fez com que na semana passada vândalos (não estou a insinuar que são instigados pela sua fobia!) deitassem fogo a 25 mastros de retransmissão que eles achavam eram 5G (nenhum era)! Esses estão convencidos que o 5G enfraquece o sistema imunitário das pessoas e são causa do vírus, além de deixar um “cobertor” sobre a nossa vida na terra, emitindo radiofrequências fortíssimas que prejudicam a saúde. Teorias e mais teorias com pouco ou nenhum fundamento, é o que me parece. Sabia que às fake news relacionadas com isso, agora chamam, não pandemia, mas infodemia?…

Ando precisado de arejar a cabeça, e faz-me falta o futebol. Tenho um amigo que mora perto do Mourinho, em Barnet, lá em Londres. Num telefonema contou-me que o viu um destes dias passados em que o confinamento já estava a funcionar, no Hadley Common (um belo parque, por sinal) , a treinar o Ndombele, um jogador que o treinadior acha que no Tottenham Hotspurs tem rendido pouco. Claro que a desobediência provocou um clamor, e o herói levou a sério no toutiço (lembrava-se desta expressão tão lusitana, caro Hans?, aposto que não…) por estar a quebrar as regras do confinamento, apesar de ter parecido que os dois estavam a respeitar distâncias. Mas o Mourinho, que no Reino Unido é estrela de grandeza mil, está remido e perdoado, pois além de ter pedido convincentes desculpas, esse meu amigo que colabora num Instituição de Solidariedade Social (chamamos a isso Charity, uma expressão de amplo espectro, temo!), viu-o a afanosamente preparar embalagens de alimentos e outras coisas, para serem entregues aos velhinhos da zona dele que, além de pobres, vivem sós. Se a Isabel Jonet o convencesse a ir para o Banco Alimentar lá na Setúbal dele é que não era má ideia: aquele, como o de Lisboa e muitos outros, parecem estar muito precisados de voluntários, e não é preciso ser Mourinho.

Apesar de involuntariamente, estou encantado por continuar aqui no Porto de onde lhe continuo a escrever. Os tripeiros continuam charming, e os pôr do sol no Atlântico são um espectáculo! E o Mayor daqui parece que tocou na cidade com varinha mágica!

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17 de Abril 2020

Dá-me prazer ter retomado esta correspondência consigo, e aqui estou a responder-lhe de imediato, apesar do meu tempo não sobrar! E, muito obrigado, a minha Páscoa foi excelente e enriquecida pelo meu Papa Francisco na TV, que esteve etéreo toda a Semana Santa.

Quer uma notícia picante? Imagine que tenho uma prima meio francesa meio alemã que vive em Gersheim, no Saarland, terra que está perto da fronteira com a França. Apesar de as fronteiras estarem praticamente fechadas, os gauleses que a conseguiram atravessar no passado fim de semana para irem às compras a Gersheim, arrependeram-se: levaram com ovos na cabeça, e foram cuspidos e insultados pela gente da terra! Mau sinal!

Ontem estive em contacto com uma das nossas fábricas Woschiems no Vietnam que continua em pleno funcionamento e sem um único caso CV19. Sabe porque é que o vírus lá não causou nem um morto e apenas 268 casos até hoje, e zero mortes? Tiveram o primeiro CV a 23 de Janeiro, e fecharam a fronteira com a China logo, logo, no dia 1 de Fevereiro! Assim é que é falar! Mas suspeito que um dos jornalistas que “desapareceu” de Wuhan, ameaçado de prisão perpétua ou do garrote por se atrever a falar no assunto, se refugiou logo lá, e explicou bem aos vietnamitas a bomba atómica que explodira ali ao lado. Gente da nossa unidade da Woschiems na Pucariça continua a ir ao Vietnam para formação: saem sempre surpreendidos pelo progresso, e pela unglaublich herança cultural que os jesuítas portugueses lá deixaram, até na escrita, que é latina, ao contrário dos países vizinhos, que é ideográfica, como o William bem sabe.

Estou em crer que aqui há um ano lhe apresentei em Londres o meu amigo Iain MacNab, um conterrâneo meu, mas seu compatriota escocês, que trocou o kilt pelos lederhosen, para ir viver para a vilória de Brunsmark (tem 170 habitantes…) onde acabou por ser eleito três vezes Burgermeister/Presidente da Câmara. Falou-me há dias para me dizer que estava com sintomas do vírus. E como se isso não fosse suficiente, informou-me que desde o passado dia 31 de Janeiro, último dia do Reino Unido na União Europeia, que deixou de ser Burgermeister! Foi de um minuto para o outro pois, como escocês, perdeu a cidadania europeia. Lindo serviço esse do Brexit! Já me ligou depois disso a dizer que o teste dera negativo, contando também que antes do lock down  a gente da terra lhe fez uma grande homenagem, regada com hectolitros de cerveja bem alemã!

E para concluir (já é meia noite!), não queria deixar de lhe recordar o meu conservadorismo de sempre a liderar as contas da Woschiems: ninguém em nenhuma das nossas 111 empresas se atreve a fazer contabilidade criativa!!!! O Warren Buffet, que é um dos meus grandes investidores, diz sagazmente: quem anda a nadar nu fica à vista na maré baixa. Pois é, lembre-se do Lehman Brothers que na baixíssima maré de 2007/8 deixou o dono Madoff nuzinho da silva (mais lusitano exótico!). Quem anda a fazer habilidades na contabilidade corre agora o aterrorizador risco de ser devorado pelas labaredas do colapso… Eu cá vou andando, sem grandes sustos, graças aos cuidados que ponho em prática com mão de alemão, que não é leve. Mas perguntei ao Warren  num conference call de há dias o que ele anda a fazer. Pois bem, anda atento a esses aldrabiones (será lusitano?), aos que não têm mais remédio que concluir que não têm dinheiro na caixa para aguentar as contas agora bruscamente desmascaradas.

Olhe: é capaz de ver se numa das garrafeiras online aí do Porto encontra um vinho tinto Tinta Francisca da casa Ferreirinha? Nunca ouvi falar nessa variedade, e dizem-me que é de truz! (gosta desta palavrinha “truz”? Ando a estudar o Aquilino para aperfeiçoar o meu português…).

Para a semana, se me deixarem, vou ter de ir para Los Angeles, o que só consigo graças ao jatinho da Woschiemms. Entretanto, ainda aqui de Krefeld, receba um freundlich abraço do

Hans

Palavras Cruzadas é o título de uma série de cartas íntimas trocadas entre dois amigos. Um é alemão (Hans Hoffmann), residente em Krefeld, perto de Dusseldorf, e outro escocês (William Archibald), residente em St Andrews, na Escócia, mas ambos com casa em Portugal, país que os apaixonou. A correspondência tende a revelar um Portugal e um mundo vistos por Hoffmann na perspectiva da floresta, mas mais como árvore nas cartas de Archibald. Misturam nessa correspondência acontecimentos políticos, sociais culturais e económicos tanto portugueses como internacionais, revelando o seu cosmopolitismo. Usam de ocasional ironia em factos por vezes semi-ficcionados.