António Costa

Pelos caminhos de Portugal

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António Costa acha que “este ano foi particularmente saboroso para Portugal”. Houve, é verdade, os mortos dos fogos, houve Tancos, houve o caso da Raríssimas. Mas que importa isso?

Por estes dias em que Portugal foi agraciado com o título de “melhor destino do mundo” pelos World Travel Awards, tenho-me lembrado dos “Caminhos de Portugal” do recentemente desaparecido Mário Gil. Lembram-se? “Pelos caminhos de Portugal / Eu vi tanta coisa linda / Vi um mundo sem igual”.

Suponho que António Costa anda com este refrão na cabeça, até porque considera que “este ano foi um ano particularmente saboroso para Portugal”. E não foi? Houve, é verdade, os mortos dos fogos, em número praticamente inconcebível num país europeu, houve Tancos, houve muita coisa, a terminar em beleza com o caso da Raríssimas, cuja dimensão foi indiscutivelmente ampliada pela prestimosa colaboração do secretário de estado da Saúde, da deputada do PS Sónia Fertuzinhos, do ministro do Trabalho, da Solidariedade e da Segurança Social Vieira da Silva e, se calhar, de outros generosos produtos da muito curiosa endogamia socialista. Mas que importa isso quando o país importa Madonna e exporta vultos como o admirável administrador do condomínio das Nações Unidas António Guterres ou Mário Centeno, cujo cargo, como lembrou o cada vez mais imprescindível Bruno Aleixo, em muito se assemelha ao de presidente da Confraria das Cabeças de Peixe, que tem por principal missão arranjar um sítio onde comer as ditas cabeças e fazer com que todos paguem a conta, incluindo o chato que saiu do restaurante para fumar um cigarro? Não é saboroso? António Costa tem muitas razões para cantar que “viu um mundo sem igual”.

Eu acho até que tem muitíssimas. De resto, ele diz que quer abrir caminhos, que há sempre novos caminhos para abrir, e um dia chegará sem dúvida à “Serra da Estrela / Que é tão célebre” e, quem sabe?, poderá ver, à maneira de Kim Jong-un com o monte Paektu, “no espírito majestoso da Serra da Estrela o aparecimento de uma poderosa nação socialista que avança de forma dinâmica cheia de vigor, sem vacilar com quaisquer eventos no planeta”. E, como o outro, sem (que horror!) suar e sem sujar os sapatos (bravo!).

Face a isto, que conta o resto? Nada, ou quase nada. Sobretudo, não conta nada que as denúncias relativas à gestão da Raríssimas enviadas ao ministério de Vieira da Silva não tenham sido consideradas dignas de qualquer atenção. Parece que não havia indício de “gestão danosa”. Ele, de resto, está em particular boa situação para formar opinião no capítulo, já que, entre 2013 e 2015, foi vice-presidente da Assembleia Geral da Raríssimas, e, não padecendo de oligofrenia, teria certamente reparado em algo se algo houvesse a reparar. Não tendo havido nada a reparar, Costa pode continuar a cantarolar que “Pelos caminhos de Portugal / Viu tanta coisa linda / Viu um mundo sem igual”.

E pode também dizer, no final deste ano particularmente “saboroso”, que está contente, pois “viu o céu /eu vi Lisboa”. E Lisboa não é linda? Por acaso é, mas além disso é “um mundo sem igual”. Por exemplo, sob a sempre dinâmica condução da arquitecta Helena Roseta, a Assembleia Municipal aprovou por unanimidade gastar mais de um milhão de euros por ano em salários para assessores e secretárias da Assembleia Municipal até 2021. “Um mundo sem igual”, de facto. Razão tinha a Dona Paula da Raríssimas, que assegurava com confiança que o Dr. Manuel Delgado, então um “homem de Correia de Campos”, prevendo a sua futura ascensão à dignidade de secretário de Estado da Saúde, lhe garantira que o “guito” havia de se arranjar. Eu percebo os problemas com o “guito”, por um saber de experiência feito, mas nunca fui acarinhado com a graça de uma sanguínea confiança no seu próximo contacto com a minha conta bancária. O Dr. Manuel Delgado deve conhecer coisas que eu por inteiro ignoro. E, já agora, os membros da Assembleia Municipal de Lisboa, capitaneados pela indómita arquitecta Roseta, também devem. Por mim (que gosto muito da cidade), bem me posso pôr a cantar “Eu vi o céu / Eu vi Lisboa”, que, com toda a probabilidade, começa a chover, provocando uma daquelas rituais inundações que a Câmara não consegue, apesar do seu profundo conhecimento das alterações climáticas do Trump, alguma vez remediar. Acabo depressa enxotado para o “Porto que eu tanto quero”, sem esperança nenhuma de, por uma vez sequer, estar na “mó de cima”, para falar de novo ao estilo raríssimo.

Percorrendo os caminhos de Portugal, António Costa só tem razões para ser um homem feliz. Apesar de tudo, jeito não lhe falta para “fazer pontes” e “construir caminhos”. Mas algo me diz que há caminhos mais lúgubres do que aqueles que António Costa, neste ano tão “saboroso”, percorre. Ouvi falar de várias desgraças, de muitas mortes deveras inexplicáveis e de futuros pouco luminosos. Pode, no entanto, ser insidiosa propaganda dos nostálgicos de Passos e da austeridade. Deve ser. Ou dos trumpistas lusitanos. Aqui convém adoptar o salutar cepticismo do ministro da Defesa: às tantas, nada disso existe. Até porque, como nos garantiu o Presidente, o país atingiu um “dos mais elevados níveis de respeito pela pessoa e pelos direitos humanos”. Isso e a Madonna aqui tão à mão (mas cuidado, rapazes, leiam os jornais!) indicam que é quase um dever partir em romaria para a Serra da Estrela e ouvir António Costa, lá no alto, imaculado, falar-nos do “aparecimento de uma poderosa nação socialista que avança de forma dinâmica cheia de vigor, sem vacilar com quaisquer eventos no planeta”. Somos nós, somos nós!

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