Política

Pequeno dicionário das desgraças da direita portuguesa /premium

Autor
  • Miguel Pinheiro

Assunção Cristas nem consegue ganhar no partido, Rui Rio não parece querer ganhar no país e o CDS pode cair nas mãos de Chicão. Sobra Marcelo? É isso: à direita portuguesa sobra Marcelo.

Chicão — O líder da JP, também conhecido pela alcunha “Francisco Rodrigues dos Santos”, tem o desesperado sonho de ser deputado da Nação. No último congresso do CDS, obrigou os militantes a ficarem acordados uma madrugada inteira para verem os “jotinhas” subirem ao palco um a um, a exigirem a presença iluminada de Chicão em S. Bento.

Agora, o presidente da JP decidiu usar o seu imenso poder para ajudar a humilhar Assunção Cristas na eleição para a distrital do CDS no Porto. Não vale a pena perdermo-nos nas minudências da sopa turva partidária. Mas vale a pena registar um ponto que ilumina e educa: durante a refrega portuense, um elemento da direção nacional terá ameaçado Chicão com a perda do lugar de deputado que lhe fora prometido em Lamego. E vale a pena registar a reação angelical de Cristas a essa suposta ameaça: “Não sei tudo o que a direção faz. Não ando atrás das pessoas, são 17…”

Com tudo isto, escreve o Expresso, há já quem veja no líder da JP um provável sucessor de Assunção Cristas. Não há motivo para horror: se o PS teve um Tozé, o CDS pode ter um Chicão.

Cristas, Assunção — Há escassos meses proclamava, com um ligeiro complexo de Napoleão, que pretendia vencer eleições ao PSD; agora, com um acentuado complexo de Calimero, nem sequer consegue ganhar eleições a uma personagem secundária dentro do próprio CDS. Cecília Meireles, deputada, vice-presidente do partido e mulher de confiança de Cristas, concorreu à distrital do Porto e acabou derrotada por Fernando Barbosa (exacto: quem?).

Em Lisboa, as coisas também não estão a correr bem a Assunção Cristas. Em tempos, disse que o seu sonho político era ser presidente da Câmara, mas percebe-se agora que se tratava apenas de conversa de campanha. A líder do CDS pegou no resultado histórico que conseguiu na cidade, dobrou-o cuidadosamente em quatro partes e, com toda a pontaria, deitou-o ao lixo. Se tem algum plano para Lisboa alternativo ao de Fernando Medina, deve tê-lo fechado em algum cofre do Caldas — com as chaves lá dentro.

Se as coisas correm mal no partido e muito mal em Lisboa, só podiam correr pessimamente no país. A poucos meses das legislativas, Assunção Cristas não tem uma mensagem nem tem um propósito. Se houver aí alguém que consiga resumir numa frase a estratégia política de Cristas, envie-a por favor para mpinheiro@observador.pt. É como se dizia há uns anos: dão-se alvíssaras.

Negrão, Fernando — Foi escolhido por Rui Rio para liderar a bancada parlamentar do PSD, onde, segundo o presidente do partido, se passeiam pistoleiros e traidores. Mas, como se viu no caso da votação do imposto dos combustíveis, mesmo com a evolução humana do uso do pombo-correio para a utilização do telemóvel, Negrão não consegue comunicar de forma suficientemente clara com Rui Rio.

O problema, note-se, não é de Negrão. Afinal, como se tem visto, a única pessoa com a qual Rui Rio não tem dificuldade em falar de forma suficientemente clara é António Costa. De qualquer forma, custa olhar para o líder parlamentar do PSD e perceber que não faz a mais pequena ideia do que deve fazer.

Peneda, Silva — É aquilo que, no PSD de hoje em dia, passa por um grande estadista.

Rio, Rui — Na filosofia política, há uma definição perfeita para o estado atual do líder do PSD: “barata tonta”. Avança e recua, recua e avança, dá uma volta para a direita e outra para a esquerda, faz o pino, seguido de espargata. Mesmo pesquisando as entranhas de animais mortos, como nos tempos antigos, permanece um mistério insondável saber se Rio quer derrubar Costa ou ajudar Costa. Pior: permanece um mistério insondável saber se Rio quer ganhar ou perder. Assim, de facto, é difícil.

Sousa, Marcelo Rebelo de — Esqueçam o folclore, as selfies e os comentários aos jogos da seleção. O Presidente da República é a única garantia de que o PS não se arma em Tsipras na Europa e não se arma em PAN no Parlamento. A direita pode amá-lo ou odiá-lo, mas a verdade crua é que não tem mais ninguém. Resta-lhe Marcelo e, olhando para o que aí está, já não é mau.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

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160

Nas eleições europeias, o PS é contra a "Europa da troika", contra a "Europa dos populistas" e contra a "Europa do Brexit". Ou seja: é uma soma de confusões, contradições e baralhações.

PCP

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Miguel Pinheiro
298

Para o PCP, os jornalistas incómodos são “preconceituosos”, “provocadores”, “ridículos”, “rasteiros” (pausa para respirar), “insidiosos” e (o meu preferido, de longe) “repugnantes”.

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