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Este ano optei por inovar. Em vez de fazer as estafadas resoluções de ano novo decidi, isso sim, elencar resignações relativas ao ano velho, que agora findou. Dir-me-ão “Eh pá, mas isso é uma forma meio deprimente de começar o ano, a lamentar o passado em vez de olhar, com optimismo, o futuro”. Sim, sim, só que enquanto as resoluções de ano novo têm de ser feitas enquanto se ingere uma dúzia de quasi-putrefactas uvas, as resignações de ano velho são acompanhadas pela deglutição de um fausto rodízio de carne Wagyu. Tal como manda a já milenar tradição. Milenar, quer dizer, secular. Enfim, decenal. É uma tradição que tem um par de horas, vá, uma vez que acabei de a inventar.

Estava o ano de 2019 prestes a ir à sua vida, já a pensar, “Bom, depois do ataque terrorista à mesquita na Nova Zelândia, do Joe Berardo a rir-se na comissão parlamentar e dos incêndios na Amazónia, não me pode acontecer mais nada de mau”, quando o ministro Augusto Santos Silva, mesmo em cima do prazo limite para a entrega das declarações concorrentes ao galardão de Depoimento mais Indigno – Especialmente Tendo em Conta de Quem Vem – do Ano, decide afirmar que um dos principais problemas das empresas portuguesas é “a fraquíssima qualidade da sua gestão”. A afirmação caiu tão mal, mas tão mal, que vários gestores chegaram mesmo a largar as suas chibatas, permitindo assim que os lombos dos funcionários descansassem por alguns instantes, só para virem a terreiro ripostar.

E se é facto que houve acinte na intervenção do ministro Santos Silva, não partilho da opinião de que ofendeu o tecido empresarial português. Porque, em verdade, para os socialistas, o tecido empresarial português é valiosíssimo. Para o PS, o tecido empresarial é um género de tecido não tecido, como aquele de que são feitas as compressas utilizadas para a limpeza e higiene dos bebés: é o bode expiatório perfeito para os governos socialistas limparem a porcaria que fazem em termos económicos e, uma vez que não é fonte de votos facilmente adquiríveis como sucede com a função pública, é totalmente descartável.

Já para não dizer que, se há alguém capacitado para falar sobre gestão, esse alguém é Augusto Santos Silva. Um indivíduo que inicia o seu percurso governativo enquanto ministro de António Guterres durante três anos e tem a estâmina para, depois de seis anos como ministro dos inolvidáveis executivos de José Sócrates, aparecer em pico de forma nos dois governos de António Costa, é um indivíduo que sabe muito de gestão. Diria mesmo que é alguém que, ao nível da gestão de carreira, está habilitado a dar uma dicas valiosas ao CR7.

Se há coisa para a qual 2019 nos preparou foi para o fim do mundo. Como ainda não adquiri o almanaque Borda d’Água deste ano, não sei para quando está agora previsto o apocalipse climático, mas se passarmos do primeiro trimestre de 2020 já vamos com sorte. Agora, enquanto o destino da espécie humana está traçado, no reino das baratas vivem-se momentos de inquietude. Se por um lado há a fundada expectativa de dominar a Terra após o extermínio das demais espécies, por outro lado há o receio que, antes do Armagedão, Augusto Santos Silva se lembre de adquirir meia dúzia de caixas de Raid Max e as dizime a todas.

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