Política

Salazar /premium

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1.910

Os actuais líderes não têm discurso, têm sim objectivos: manter-se ou chegar ao poder, através da popularidade e não da política. Logo precisam do passado e de Salazar para falarem de política.

Catarina Martins considera um insulto afirmar-se que o BE é de extrema-esquerda. Bernardino Soares invoca o mercado para justificar os valores pagos ao genro de Jerónimo de Sousa para este mudar lâmpadas (o genro é que muda as lâmpadas não o sogro que, como de costume ao ver-se questionado, lhe deu para a gritaria do anticomunismo e para os provérbios!) Manuela Ferreira Leite não quer que o PSD seja de direita. … Não é tolice nem distracção. É tão só necessidade. Os actuais protagonistas não têm discurso político nem projectos para o país, têm sim objectivos: manter-se ou chegar ao poder, através da popularidade e não da política. Peçam portanto aos actuais dirigentes para dançar, pular, cozinhar, trocar de roupa em público… que tudo isso eles executam com genuíno à vontade e alegre desenvoltura, não lhes peçam é para dizer o que pensam, pois disso têm medo.

Na prática e se devidamente desembaraçado dos adereços folclóricos das causas fracturantes, o discurso de cada um poderia ser facilmente subscrito pelo outro: não é por acaso que o PSD viabiliza os projectos do PS para “combater a disparidade salarial” nas empresas privadas (note-se, privadas!) mas sim porque cada vez mais, por ideologia e necessidade de não perder votos, todos os partidos confluem, como forma de sobrevivência, na falácia “do governo que dá”, “do Estado que apoia”, “das políticas de inclusão” e “do combate às desigualdades”… com que se legitima a cobrança de mais impostos para garantir não a prestação de serviços aos cidadãos mas sim os recursos para a insaciável máquina administrativa. (Ou mais propriamente para esse partido-Estado – de que tanto falou Medina Carreira – partido-Estado esse a quem a fraqueza eleitoral de António Costa, em 2015, deu as rédeas do poder e que mesmo que os hospitais portugueses acabem como os da Venezuela não deixará outro primeiro-ministro repetir o erro de Sócrates, de fazer um pedido de ajuda externa que ponha uma qualquer troika a vistoriar-lhe as contas e os privilégios.)

Esta convergência no presente, em que os dirigentes políticos apenas discordam no calendário e nas percentagens da cobrança de impostos e não no modelo de sociedade, leva necessariamente à transformação do passado no tempo possível para a definição ideológica e faz dos mortos – como Salazar – personagens grotescamente activas da política presente. Consequentemente mal surge uma personagem que se teme possa colocar em risco este equilíbrio entre vacúolos pragmáticos somos avisados do risco de estarmos perante um novo Salazar. Toda a gente já foi Salazar: Rui Rio foi Salazar. Manuela Ferreira Leite – a mesmíssima que prefere o PSD derrotadíssimo a que digam que é de direita – foi Salazar e salazarenta. Cavaco? Um Salazar. Eanes? O Salazar ele mesmo com a agravante dos óculos à Pinochet. Freitas na encarnação 74-86? Outro Salazar. Passos Coelho? Salazar, claro. E Sá Carneiro, o Salazar que ele foi!

Por detrás do agitar do espantalho de Salazar não está o receio da instituição de uma ditadura mas tão só o receio de que alguém, à semelhança do que fez Salazar, transforme num discurso politicamente eficaz o mal estar da população e capitalize com sucesso o seu aparente desinteresse pela política. Não admira portanto que o anti-salazarismo, enquanto denominador comum a políticos que apostam na ausência de discurso, seja factor de valorização mesmo que o anti-salazarista em questão fosse, como acontecia e acontece com os comunistas, defensores de regimes bem mais opressivos que o de Salazar ou, ironia das ironias, fascistas declarados e assumidos como foi o caso de Rolão Preto.

Nem nas horas de maior orgulho (e no seu caso ele era imenso) Salazar alguma vez imaginou manter-se politicamente activo por tanto tempo.

PS. Por todo o mundo vários países tornaram-se independentes. A Checoslováquia deu lugar à República Checa e à Eslováquia. A RDA e a RFA uniram-se. Mas a Inglaterra sair da UE é impossível? Não estou a dizer que o Brexit é a melhor solução para a Inglaterra mas esta dramatização em torno da saída da UE é patética. A ideia de querer fazer da Inglaterra um exemplo de penosidade para os países que um dia coloquem a mesma hipótese, é uma ideia característica dos burocratas imperiais mas que a médio prazo vai destruir a UE.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

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