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Se as pessoas soubessem…

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Há uns 3 anos chegou o convite para integrar o Conselho Consultivo do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa. Convite perturbante, um desafio de voluntariado singular na exigência que me iria impor.

1. Foi uma das mais inesperadas e estimulantes experiências que me foi – é — dado viver. Há cerca de três anos, tocou o telefone, era um convite para integrar o Conselho Consultivo que iria ser criado no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa (CHPL), instalado no antigo Júlio de Matos.

“Porquê eu?” Porque sim, iria “ajudar”. Convite perturbante, um desafio de voluntariado consideravelmente singular na exigência do confronto que me iria impor.

Vinte e dois hectares (!) ajardinados com ruas e alamedas em plena Avenida do Brasil, vida, doença, árvores, pavilhões em rosa ou branco, excelente arquitectura, asseio.

Um mundo. Ignorado, estigmatizado, disfarçado e, no entanto, haveria de descobrir eu, tão fértil nos milagres que a boa vontade dos seus profissionais ali produzem e tão carente no seu desamparo: a relutancia do “cá fora” em relação ao “lá dentro” parece inamovível, circulando entre um receio constrangido e uma hostilidade envergonhada. Durante meses ouvi dizerem-me: “Mas vais trabalhar com os malucos? Vê lá…”

A verdade é que fui. Até hoje.

O Conselho Consultivo, então presidido por José Tolentino de Mendonça ,foi entretanto extinto com a entrada do novo governo, veio nova a administração presidida por Teresa Sustelo, mas persistem as boas relações e o que lá faço, que é modesto, continua como até aqui. Guardo sim uma natural saudade do Conselho Consultivo de muito diversa composição – entre outros, de Ricardo França Jardim –, e guardo particular lembrança da capacidade de liderança da antiga administradora, Isabel Paixão e da sua autoridade sorridente gerindo aquele grande mundo. Uma maestra para muitas partituras.

2. Fui conhecendo serviços e directores/as. Aqueles 22 hectares intimidam qualquer um mas valeu-me uma doce cicerone, Dora Conceição. Antropóloga de formação, é Técnica Superior, prestadora de serviços, na área da reabilitação, responsabilizando-se pela Comunicação. É, diz ela, “uma espécie de ponte” para as áreas culturais e sociais, e que bem faz tudo isto, digo eu agora.

A razão que me faz aliás escrever este texto é isso mesmo: testemunhar. “Nada acontece até ser contado” disse um dia Virginia Woolf, frase da minha eleição. É preciso contar a dedicação, a disponibilidade, a criatividade que testemunho em abundância mas que poucos contam.

3. O curriculo impressiona, António Bento impressiona mais. O sorriso, o saber chegar a todos, a urgência de pôr o seu conhecimento a render, o pioneirismo, a capacidade de liderar e organizar com serenidade.

Médico psiquiatra, António Bento é  desde 2001 Chefe de Serviço de Psiquiatria, diretor do Serviço de Psiquiatria Geral e Transcultural (Serviço com Acreditação de Qualidade ACSA) do CHPL. É responsável por cerca de 400 internamentos e 20.000 consultas por ano, incluindo o tratamento e acompanhamento de cerca de 300 doentes psiquiátricos em situação de sem-abrigo.

“Tenho 63 anos, a noite passada andei na rua. Fui com dois elementos da minha equipa e com a Equipa de Rua da Câmara Municipal de Lisboa, que supervisionamos, de acordo com um protocolo, mas fui com o mesmo entusiasmo que tinha nos anos 80, sempre a descobrir coisas novas no ser humano e a sentir-me útil como médico e psiquiatra, sem sentir qualquer cansaço por fazê-lo depois de um dia de trabalho intenso. (Sorri) Sabe que o que geralmente nos cansa não é o trabalho propriamente  mas o que gira à volta do trabalho… O mesmo se continua a passar com os doentes psiquiátricos, que necessitam cada vez mais quem os ouça, compreenda, trate e cuide! No mês passado abriu em Roma uma “filial” deste grupo, vocacionada para sem-abrigo e refugiados. A minha equipa coordena um grupo de 8 países europeus, num projeto ERASMUS+.”

Fico ainda a saber que há uma “Consulta Aberta” às 5ªs feiras, onde Bento e os seus colaboradores recebem “todos os doentes”, e tanto faz que apareçam espontaneamente, sem marcação, que sejam sem-abrigo ou não… São bem vindos. E atendidos.

“Posso dizer que vivo no meio dos sem-abrigo há 63 anos e trabalho com eles, como médico, há mais de 30 anos.”

O seu trabalho pioneiro, os resultados da excelência profissional — reconhecida internacionalmente – aliado a um humanismo “praticante”, levaram recentemente a autarquia de Lisboa a conceder-lhe a medalha de Mérito Municipal.

“É uma das pessoas que sabe mais sobre sem-abrigo em Portugal”, dizia-me José Tolentino Mendonça. “O serviço de psiquiatria de proximidade que criou, em que os médicos vão à rua ter com os doentes, é um projeto extraordinário e de referência em termos internacionais. Ele associa uma prática clínica inovadora a uma inquietude por mais e melhor conhecimento, oferecendo um raro exemplo de cientista verdadeiramente empenhado em construir uma visão transdisciplinar sobre o seu objeto de estudo. Contrariando a guetização para onde o estigma social empurra a saúde mental, António Bento é um fazedor de pontes.”

Mas há mais: pela assinatura que deixam na comunidade científica, os seminários e cursos que ele produz no antigo Júlio Matos continuam a fazer história. Abertos a diversos setores da sociedade, propõem um cruzamento de saberes que, como pude já observar, recolhem o aplauso reconhecido de centenas de pessoas, nacionais e estrangeiras.

Haverá medalhas que cubram semelhante mérito? interrogo-me eu inutilmente, mas António Bento segue adiante: “Tenho a sorte e o privilégio de exercer medicina e sobretudo psiquiatria, que me permitem não só ajudar os doentes, mas ir-me formando e desenvolvendo como pessoa, numa aprendizagem contínua e fascinante!”

Sim, ele impressiona. Mas sobretudo confunde: este homem  de alta excelência profissional será também um apóstolo?

4. E a Rádio Aurora? É dali? É. E emite a sério? Tão a sério que já a partir desta semana terá assento semanal na Antena Um, em horário nocturno (1h e 30 da madrugada). Uma grande estreia após outra, bem sucedida, há um ano, na Rádio Amália, onde ainda permanecem.

A “Radio-Aurora — a Outra Voz” nasceu em Março de 2003 fruto do trabalho conjunto de três psicólogos e um grupo de pacientes do então Miguel Bombarda (o CHPL resulta justamente da fusão daquele hospital com o Júlio de Matos). Vale a pena “ouvir” Nuno Faleiro, 43 anos, Psicólogo Clínico com especialização em Psicoterapia Psicanalíca e trabalhando no CHPL desde 2003, a falar dessa “outra voz”: ele foi um dos seus “inventores”.

“É o primeiro programa da rádio português criado por pessoas com um diagnóstico psiquiátrico que procura colaborar na redução dos processos de estigmatização e descriminação social vividos por estes nossos concidadãos.” Que o mesmo é dizer que esta “devolução” da legitimidade à palavra de pessoas afectadas é “um imperativo ético”.

Nuno Faleiro, alterna o exercício da sua actividade profissional, com os microfones da Rádio, onde é simultaneamente, com paciência terna e atenta, o motor e o mentor.

“Este projecto de comunicação social de radiofusão e da Web surge como um discurso alternativo a uma repetitiva imagem social: os loucos, os perigosos, os incapazes que se encontra na origem dos processos de descriminação social. Basta dizer que  o nível de desemprego neste grupo é de 96%, a sobrevivência é tremenda, a falta de respostas habitacionais, generalizada…”

É verdade. Por isso nos surge tão naturalmente determinante o trabalho de inserção na comunidade que a Rádio Aurora pressupõe. Gerador de confiança e fomentador de auto estima. Poder testemunhar a imaginação e o empenho posto na produção desta rádio – entrevistas, notas, apontamentos, debates — é um intervalo de luz na sombra das coisas como elas são. Sei do que falo, participei ou assisti a alguns desses programas. E lembro-me do que ouvi dos convidados/entrevistados:

“Ah se as pessoas soubessem… “ Infelizmente não há muitas que saibam.

5. Se os meios humanos e financeiros estão por vezes no limite, nada naquele imenso perímetro verde da Avenida do Brasil parece no limite, tal a aliança das boas vontades e da competência. Aulas de ginástica (generosa oferta do Holmes Place), idas ao futebol, visitas a museus, passeios fora de Lisboa. E arte. Que no caso é falar em Sandro Resende, 42 anos, formado em pintura que pôs muitos doentes a pintar, a esculpir, a desenhar. Descobrindo-lhes o rasgo ou a vocação. Tudo começou há 18 anos quando ele, ainda finalistas de Belas Artes, foi para o CHPL.

Contratado para ensinar Artes Plásticas, “depressa se apercebeu do potencial estético que ali havia”.

De tal forma que em 2002, numa iniciativa com a sua assinatura, ousou mais: artistas residentes lado a lado com profissionais convidados, o “dentro” em diálogo estético com o “fora”.  Instalada num pavilhão devoluto, a exposição, um caso, teve aplauso geral.

O colega José Azevedo (com quem Sandro criou o Projecto Contentores, já em 8ªedição) juntou-se a esta história ensinando fotografia e vídeo. Resultado: outros pavilhões devolutos abrigam hoje mais arte contemporânea e as exposições têm trazido a legitimidade de artistas e o reconhecimento entre pares: Cabrita Reis, Souto Moura, Jorge Molder, Julião Sarmento, Miguel Palma, Jeff Koons (sim, esse), Jason Martin, Albert Watson, são alguns desses pares.

Um persistente, permanente, trabalho de direcção artística que inclui curadoria, design, montagem da “iniciativa e responsabilidade” desta dupla: “não está no contrato, está no nosso gosto…” Sorriso entusiasmado (o caso não é para menos).

“Balanço? Positivo! Na vida dos artistas residentes e em nós. Há uma aprendizagem comum, muito recompensadora a nível pessoal. A procura de artistas consagrados para trabalharam com os nossos é grande, há vontade de partilha. É de saudar que marcas procurem a arte que se produz no nosso atelier e que até já haja colecionadores a quererem investir. “

Se as pessoas soubessem.

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