Anunciam as “manchetes” que o Banco de Portugal (BP) obrigou a família Espírito Santo a abandonar os corpos gerentes do seu banco familiar e a entregar a direcção a pessoas alheias à gestão anterior. Lêem-se porém os pormenores da notícia e não é certo que assim seja. Antes pelo contrário: os principais nomes anunciados pelos actuais dirigentes do banco para os futuros corpos gerentes não só levantam dúvidas legítimas como a família Espírito Santo se propõe ressuscitar através de um novo órgão denominado “conselho estratégico”. Segundo o director-executivo do Expresso, Ricardo Salgado e a família deixariam de “mandar” no BES mas poderiam continuar a “comandar” o grupo económico através desse novo órgão onde figurarão todos os nomes conhecidos da família.

Quanto ao nome indigitado para suceder ao líder deposto, Amílcar Morais Pires, embora desconhecido do grande público já está envolvido num processo judicial e corresponde, afinal, ao do “braço direito” de Ricardo Salgado, em suma, o executor da política do ídolo aparentemente caído, continua o Expresso. É caso para perguntar se Salgado terá efectivamente caído quando se anuncia que será substituído pelo seu “homem de mão” e este ficará condicionado por um “conselho estratégico” presidido pelo antigo patrão? Se é certo que este “conselho” não possuiria poderes decisórios, teria com certeza grandes poderes de persuasão. Muito pouco crível a substituição, portanto!

Finalmente, para presidente do Conselho de Administração do BES foi indigitado pelos dirigentes cessantes o actual deputado Paulo Mota Pinto, cujos laços pessoais e familiares a antigos responsáveis do PSD são bem conhecidos. Em contrapartida, não consta que Mota Pinto possua qualquer experiência bancária que justifique a indigitação, sendo difícil afastar a ideia de que a principal função do presidente do banco seria a de manter as relações especiais que o BES sempre teve com o poder político, fosse este qual fosse aliás.

O actual governador do BP, Carlos Costa, já fez mais em poucos anos do que o anterior governador, Vítor Constâncio, durante todo o tempo em que este silenciou o que se passava na banca portuguesa, até nos deixar como herança os milhares de milhões de euros a pagar pelas roubalheiras do BPN e do BPP, sem falar das virtuais falências da Caixa Geral de Depósitos e do BCP, que entretanto tinham caído sob a alçada partidária do PS, com figuras como a do antigo companheiro de Sócrates, Armando Vara, para só o citar a ele. Ter imposto à mais poderosa família de Portugal que se eclipsasse para permitir a recuperação do maior banco nacional, como fez Carlos Costa, é obra que o público agradece e na qual é legítimo entrever a mão mais ou menos próxima da troika.

Porém, não sou o primeiro a pensar que o governador do BP tem de levar mais longe a sua corajosa tarefa, que seguramente nos custará ainda muito dinheiro mas nos poupará no futuro outro tanto ou mais, recusando os nomes avançados por Ricardo Salgado e família. É simplesmente uma questão de ética e, portanto, de credibilidade. Se não, além dos custos políticos incomensuráveis que custará a falta de credibilidade do BES, serão seguramente muitas as pessoas que levarão as suas contas para outros bancos, como já aconteceu no passado com a CGD e com o BCP.

É preciso ter presente que o actual BES renascera em 1992 graças a uma privatização controversa na qual o governo de Cavaco Silva devolveu, por assim dizer, o banco à família Espírito Santo a baixo custo. Daí em diante, o BES tornou-se naquele grande grupo financeiro que se sabe, participando em tudo o que foi negócio importante em colaboração com todos os governos. Serviu-se de Sócrates como dos outros governantes e o líder do PS serviu-se à vontade do BES para aumentar a dívida que estamos agora a pagar.

Até à terça-feira 5 de Abril de 2011. Nessa noite, Ricardo Salgado fez-se entrevistar por Judite de Sousa no noticiário das 20h na TVI. Assisti à entrevista enquanto esperava para entrar como comentador no jornal das 21h na TVI 24, onde o jornalista Henrique Garcia me perguntou: “Então, o primeiro-ministro vai pedir ajuda ou não”? Cito de memória a minha resposta: “Se dependesse dele, mais depressa Portugal irá à falência do que Sócrates chamará o FMI… Mas pelo que ouvi agora ao Dr. Ricardo Salgado, pode ser que o governo seja obrigado a pedir ajuda mais depressa do que julga”. E assim sucedeu no dia seguinte!

Três anos e algumas semanas depois, é o fechar de um ciclo de relações espúrias entre o público e o privado que foram fatais para o país. Em toda esta história, que confirma totalmente a tese que Rui Ramos aqui desenvolveu acerca das perniciosas relações dos governos com a chamada “banca nacional” (12 de Junho), só há duas pessoas que ficam bem no retrato: Maria Luís Albuquerque e Pedro Passos Coelho, que se recusaram a mandar os bancos sob controlo estatal resgatar o BES. Esperemos que o governador do Banco de Portugal conclua a tarefa!